O escândalo das taxas básicas de juros

Economia

O recente escândalo da manipulação da taxa libor (a taxa básica do Banco da Inglaterra) é mais um capítulo terrível na desmontagem do sistema financeiro internacional.

A taxa básica (libor, na Inglaterra, prime, nos Estados Unidos, Selic, no Brasil) serve de parâmetro para a articulação de todo o sistema de empréstimos de longo prazo.

***

Tais taxas servem de parâmetro para a troca de reservas entre bancos no chamado mercado interbancário. No final do dia, o banco com saldo em caixa empresta para o banco com déficit pagando a taxa do interbancário. São descartadas os dois lances mais altos e os mais baixos e tira-se uma média do restante. Além de afetar todo o mercado de crédito, essas taxas são alvo de enormes apostas no mercado futuro de juros.


No caso da libor, as jogadas envolveram 20 grandes bancos internacionais.

***

Esse mesmo movimento se observa nos Estados Unidos, com jogadas em torno da prime, como se observa em artigo recente de Paul Craig Roberts, que acaba de lançar livro prevendo o colapso financeiro dos EUA (https://migre.me/9Pdpr), tradução de Argemiro Ferreira.

Para combater a crise bancária, EUA e União Europa inundaram os bancos de liquidez, jogando as taxas básicas para perto de zero. Mas a cada ano são US$ 1,5 trilhão de déficit público sendo financiado com novas emissões.

***

Há inúmeros jogos com títulos públicos. O resgate desses títulos é pelo chamado valor de face – por exemplo, 100. Se um título tem um prazo de, digamos, 10 anos a uma taxa de 1,5% ao ano, no lançamento será vendido a 85 (100 – 1,5 x 10). Suponha que a taxa caia para 1%. Imediatamente o valor dos títulos sobe para 90. Multipliquem-se esses 5 pontos por trilhões de dólares e se terá uma pálida noção dos valores envolvidos.

***

Esse mesmo jogo ocorre no Brasil com a Selic. Desde que foi introduzida como elemento de política monetária em 1999 (com a criação das metas inflacionárias) criou-se, ali, o mais potente processo de enriquecimento que o país conheceu, fora de período de crises cambiais.

A cada definição da Selic, movimentavam-se apostas extraordinárias nos mercados futuros. E o Banco Central, de qualquer tempo, mantinha um contato cúmplice com consultorias de mercado, antecipando tendências. No período Henrique Meirelles, era comum uma reunião fechada com traders do mercado, antes de cada reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central).

***

Rompeu-se esse cumplicidade em agosto do ano passado, quando o BC derrubou a Selic – provocando enorme estardalhaço de consultores e jornalistas membros da confraria da Selic. Depois, o BC continuou derrubando as taxas com resistência cada vez menor, porque suas apostas já estavam novamente alinhadas com as do BC.

***

No mercado de apostas, pode-se ganhar tanto na alta quanto na baixa, seja com libor, prime ou Selic. Se as taxas de juros aumentam, o preço do título cai. Digamos que caia de 85 para 82. O apostador vende um contrato futuro a 85. Quando o preço à vista cai para 82, ele lucra os 3 de diferença.

E aí se entra em uma espiral de descrédito perigosa para a regulação frouxa do mercado financeiro internacional.

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O recente escândalo da manipulação da taxa libor (a taxa básica do Banco da Inglaterra) é mais um capítulo terrível na desmontagem do sistema financeiro internacional.

A taxa básica (libor, na Inglaterra, prime, nos Estados Unidos, Selic, no Brasil) serve de parâmetro para a articulação de todo o sistema de empréstimos de longo prazo.

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Tais taxas servem de parâmetro para a troca de reservas entre bancos no chamado mercado interbancário. No final do dia, o banco com saldo em caixa empresta para o banco com déficit pagando a taxa do interbancário. São descartadas os dois lances mais altos e os mais baixos e tira-se uma média do restante. Além de afetar todo o mercado de crédito, essas taxas são alvo de enormes apostas no mercado futuro de juros.


No caso da libor, as jogadas envolveram 20 grandes bancos internacionais.

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Esse mesmo movimento se observa nos Estados Unidos, com jogadas em torno da prime, como se observa em artigo recente de Paul Craig Roberts, que acaba de lançar livro prevendo o colapso financeiro dos EUA (https://migre.me/9Pdpr), tradução de Argemiro Ferreira.

Para combater a crise bancária, EUA e União Europa inundaram os bancos de liquidez, jogando as taxas básicas para perto de zero. Mas a cada ano são US$ 1,5 trilhão de déficit público sendo financiado com novas emissões.

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Há inúmeros jogos com títulos públicos. O resgate desses títulos é pelo chamado valor de face – por exemplo, 100. Se um título tem um prazo de, digamos, 10 anos a uma taxa de 1,5% ao ano, no lançamento será vendido a 85 (100 – 1,5 x 10). Suponha que a taxa caia para 1%. Imediatamente o valor dos títulos sobe para 90. Multipliquem-se esses 5 pontos por trilhões de dólares e se terá uma pálida noção dos valores envolvidos.

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Esse mesmo jogo ocorre no Brasil com a Selic. Desde que foi introduzida como elemento de política monetária em 1999 (com a criação das metas inflacionárias) criou-se, ali, o mais potente processo de enriquecimento que o país conheceu, fora de período de crises cambiais.

A cada definição da Selic, movimentavam-se apostas extraordinárias nos mercados futuros. E o Banco Central, de qualquer tempo, mantinha um contato cúmplice com consultorias de mercado, antecipando tendências. No período Henrique Meirelles, era comum uma reunião fechada com traders do mercado, antes de cada reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central).

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Rompeu-se esse cumplicidade em agosto do ano passado, quando o BC derrubou a Selic – provocando enorme estardalhaço de consultores e jornalistas membros da confraria da Selic. Depois, o BC continuou derrubando as taxas com resistência cada vez menor, porque suas apostas já estavam novamente alinhadas com as do BC.

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No mercado de apostas, pode-se ganhar tanto na alta quanto na baixa, seja com libor, prime ou Selic. Se as taxas de juros aumentam, o preço do título cai. Digamos que caia de 85 para 82. O apostador vende um contrato futuro a 85. Quando o preço à vista cai para 82, ele lucra os 3 de diferença.

E aí se entra em uma espiral de descrédito perigosa para a regulação frouxa do mercado financeiro internacional.

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