O Brasil engatinha até para aprovar edital do leilão do 5G

A decisão final sobre o edital era aguardada para a segunda-feira 13, mas foi postergada. E atrapalhou os planos do ministro Fábio Faria

“Não basta apenas a conectividade, 
é necessária também uma infinidade de soluções”, alerta Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson no Cone Sul. (FOTO: Redes sociais e Ivan Radic)

“Não basta apenas a conectividade, é necessária também uma infinidade de soluções”, alerta Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson no Cone Sul. (FOTO: Redes sociais e Ivan Radic)

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Durante anos, a tecnologia de quinta geração de internet móvel, mais conhecida como 5G, alimentou debates e discussões nos mais variados fóruns, acadêmicos e corporativos, além de conversas entre aficionados por temas relacionados a inovação.

“O avanço das tecnologias anteriores, do 3G e 4G, deu-se basicamente no aumento da velocidade. Já na 5G há um salto, pois, além de proporcionar maior velocidade na rede, essa tecnologia permite conexão a inúmeros dispositivos, não só aos smartphones”, afirma Marcia ­Ogawa, sócia de Tecnologia, Mídias e Telecomunicações da consultoria Deloitte.

Além disso, no 5G o tempo de resposta a um comando é infinitamente menor, o que se chama de baixa latência, possibilitando aplicações sofisticadas e de alta precisão, como uma cirurgia remota ou a direção do carro autônomo. “A 5G, associada a outras tecnologias como inteligência artificial e robótica, tem potencial para promover transformações na indústria, no campo e em vários segmentos da economia.”

Enquanto nos países desenvolvidos a implementação do 5G começou há três anos, o Brasil ainda ensaia os primeiros passos para a sua introdução, com a rea­lização de um dos mais aguardados leilões de concessões de telecomunicações, em que serão licitadas quatro faixas de radiofrequência: a telefonia móvel de 5G e faixas remanescentes de 4G.

A decisão final sobre o edital era aguardada para a segunda-feira 13, em reunião da Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, mas foi postergada pelo pedido de vistas do conselheiro Moisés Moreira. O fato, de certa forma, surpreendeu ao expor discordâncias entre os conselheiros, quando se esperava que restassem questões mais superficiais e facilmente solucionáveis. E atrapalhou os planos do ministro das Comunicações, Fábio Faria, que tem pressa na realização do leilão e deseja a licitação para logo, em outubro.

Em nota à imprensa, o conselheiro Moisés afirmou que o Projeto Amazônia Integrada e Sustentável, de financiamento da rede de fibras ópticas nos rios da Amazônia, e a rede 4G privativa do governo federal em Brasília – ambos incluídos no edital por exigência do Ministério das Comunicações – “devem ser endereçados, ou pelo menos debatidos e justificados, com eventual necessidade de realização de novas diligências junto ao Ministério, de maneira a trazer maior segurança jurídica à decisão a ser tomada”. Segundo a nota, o “TCU deixou claro que cabe à Anatel a adoção de providências necessárias para sanar, previamente, todas as fragilidades e oportunidades de melhoria apontadas no Acórdão, mesmo no caso dos projetos do Ministério das Comunicações”. De acordo com o presidente da Anatel, Leonardo de Morais, nova reunião está prevista para 30 de setembro, o que jogará o leilão, na sua estimativa mais provável, para a primeira quinzena de novembro.

A decisão foi adiada novamente, desta vez pelo pedido de vistas de um conselheiro da Anatel

Embora o edital do leilão ainda tenha pontos a definir, o formato agrada a especialistas, principalmente por estimular investimentos que fomentem a digitalização. Outro fator importante é o aumento da concorrência no setor, com ganhos de qualidade dos serviços, particularmente no mercado de telefonia móvel, tendo em conta o descumprimento de obrigações das grandes companhias e as reclamações pelos maus serviços.

“Estamos em um mercado de, basicamente, três grandes operadoras, Claro, TIM e Vivo. Ainda há uma indefinição em relação à Oi (a compra da parte móvel da empresa pelas demais operadoras aguarda aprovação da Anatel), que deve vir em algum momento, e há também operadoras menores, mas o fato é que essas três empresas não têm opção: têm de participar dos blocos nacionais do leilão, para não perder espaço”, afirma Franz Bedacht, sócio da Bain & Company. Ele refere-se especialmente à faixa de 3,5 GHz, que “é o coração da 5G”. “As operadoras vão entrar pesadamente e não vão deixar muito espaço”, aposta.

Além das grandes operadoras, as Prestadoras de Pequeno Porte (PPP) são entrantes em potencial, principalmente nos leilões regionais. Há pelo menos dez prestadoras com fôlego para boas disputas, atuando com fibra óptica e fortes nos espaços onde as operadoras não conseguiram (ou não quiseram) chegar.

A Bain&Company estima que o 5G será responsável por 35% de todas as conexões móveis até 2025 e chegará a 81% somente em 2030

Em geral, tais empresas não dispõem de telefonia móvel, logo a migração significa melhorar o modelo de negócio. Para aproveitar a oportunidade, há dois meses um grupo de PPP formou a Iniciativa Brasil 5G e organizou um consórcio para disputar o leilão. “Com a operação em 5G, as PPPs conseguiriam atender o Brasil de forma integral num tempo muito menor. O 5G precisa de fibra óptica, nós temos fibra óptica e com alta capilaridade em todo o Brasil”, afirma Rudinei Gerhart, da APP Consultoria.

Ela coordena o consórcio de 370 empresas, apoiado por escritórios de advocacia, consultorias técnicas e financeiras, e chegou a pleitear à Anatel mudanças no edital. Gerhart explica que a faixa de 700 MHz, que está restrita aos novos entrantes, pode proporcionar ampla cobertura, mas a velocidade exigida pela 5G fica na faixa de 3,5 GHz. “O ideal seria que fosse permitida a apresentação de propostas que aglutinassem as duas faixas, o que não é possível pelo ritual estabelecido pelo leilão, em que cada faixa é licitada separadamente. Isso tornaria a operação mais eficiente, combinando ampla cobertura com altíssima velocidade de transmissão”, diz.

Por e-mail, a Anatel explicou que a faixa de 700 MHz é propícia para a implementação de redes com alta cobertura e ainda é a principal faixa utilizada por sistemas 4G. Nesse sentido, é a faixa com melhores condições técnicas e maior viabilidade econômica para o desenvolvimento de rede por um estreante, especialmente prestadoras de menor porte. A faixa de 3,5 MHz, por outro lado, demanda investimentos maiores, pois a área de cobertura é menor, o que exige a instalação de quantitativo de estações maior.

Entre os desafios exigidos na implementação do 5G está a criação de ecossistemas de inovação. “Para que essa automação aconteça nos variados segmentos não basta apenas a conectividade, é necessária também uma infinidade de soluções”, afirma Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. Esse desafio é igual em todo o mundo, mas a América do Sul sofre, ainda, problemas de logística. Semana passada, a Ericsson firmou um acordo de cooperação com a Embratel, o Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP) e a Claro, para desenvolver soluções que envolvam 5G, Internet das Coisas (IoT) e IoT-Mobile (IoT-M) voltadas para indústria, agronegócio, saúde, smart city e educação.

Fonte: Bain&Company

Mesmo com o leilão atrasado, os benefícios da aplicação da nova tecnologia virão a longo prazo. Estudo da Bain&Company estima que o 5G será responsável por 35% de todas as conexões móveis até 2025 e corresponderá a 81% somente em 2030. “Haverá um período de convivência entre o 5G e o 4G, até pela forma como o edital está escrito, que prevê o cumprimento de obrigações de cobertura de forma progressiva, nos blocos nacionais e regionais”, afirma Alberto Silva, sócio da consultoria.

Diferentemente do leilão de 4G, em que se criou um modelo de obrigações por cidade, desta vez a Anatel permitirá à operadora introduzir o 5G apenas em áreas de maior densidade de tráfego de uma mesma cidade. “Em vez de cobrir dez cidades, vai poder cobrir pedaços menores de 20 cidades. E pode introduzir o 5G onde tem mais densidade de tráfego, onde faça mais diferença para o usuário. O que é um avanço em relação aos editais anteriores”, conclui.

Publicado na edição nº 1175 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2021.
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Repórter de Finanças da edição impressa de CartaCapital.

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