Economia

O aumento do salário mínimo e a crise brasileira

O aumento do salário real foi associado à alta inflação. Por isso, a queda do salário somada aos altos juros são a receita para a crise, embora nunca tenha melhorado a vida de quem sofre com ela

Alvíssaras! O doutor em economia pela USP, Samuel Pessôa, em sua coluna na Folha de São Paulo (Mercado, 05/07/15), vê “Luzes no fim do túnel” para o Brasil. Para ele, em maio, “a ‘boa notícia’ foi a queda de 5% do rendimento médio real (…) os salários nominais têm crescido a taxas cada vez menores”. 

Pelo que noticiam as folhas e telas cotidianas e alertam os assombrados olhos de William e Renata, no Jornal Nacional, tal felicidade continuará, com empregos e renda salarial em queda nesta sofrida Federação de Corporações. Para aumentar a festa, o IBGE divulgou que o desemprego chegou a 8%, em maio.

Esperança redobrada do autor: “Quanto mais rápida for a queda do salário real, mais rapidamente a inflação (…) convergirá para a meta”.

Aí, então, poderemos baixar as taxas de juros, voltar a crescer e diminuir o desemprego. Não pensem unívoca a proposição do articulista. Com pequenas variações muitos a advogam. Tem sido receita clássica para as crises, embora nunca tenha melhorado coisa nenhuma a vida de quem realmente sofre com elas.

É um apanhado de tragédias gregas, mais políticas do que literárias, que se espalham pelo planeta à espera que o capitalismo se rearranje para “continuar sendo ruim, mas ainda o melhor”, cômoda tese que serviu, a partir dos anos 1980, a domesticar o pensamento de esquerda.

Mas, enfim, temos uma pista de um dos culpados da atual crise da economia brasileira: o salário mínimo (SM).

Estudo de Dulce Pandolfi, cientista política, historiadora e professora da FGV, com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, aponta que o SM, nos últimos 11 anos, teve aumento real de 76,5% e poder de compra estimado em 2,22 cestas básicas.

Foi o melhor resultado desde que promulgada a Lei, em 1940, por Getúlio Vargas. O DIEESE, Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos, avalia que cerca de 46,7 milhões de brasileiros – entre empregados domésticos, trabalhadores rurais e beneficiários de programas sociais – têm como remuneração básica o SM.

Pois é, 75 anos. Eu, aos 70, saúdo o contemporâneo. Acostumei-me vê-lo arreliado em blagues, piadas, marchinhas de Carnaval e sambas, como este de Alvarenga, cantado por Beth Carvalho, em 1976: “Cansei de tanto trabalhar/Na ilusão de melhorar/Cinco filhos, mulher e sogra pra sustentar/Setecentos e cinqüenta cruzeiros, não dá, não dá, não dá”. 

Saudação à mandioca

“Então, aqui, hoje, eu tô saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil”.

Assim discursou na abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas a presidente Dilma Rousseff, constitucionalmente reeleita por voto direto. A plateia riu baixinho e a internet pariu piadas.

No imaginário popular, a mandioca e o salário mínimo têm coisas em comum. Da primeira, sua forma irregular remete Deus tê-la feito de qualquer jeito; o segundo, jocosamente, é referência a anões e baixinhos.

Plantio e comida de pobres e índios, a mandioca somente é luxo quando se paga R$ 30,00 por uma porção dela, frita, a acompanhar sua cerveja ou cachaça. Nos bolos, beijus e na tapioca-universitária pega mais leve.

O Brasil é o segundo produtor mundial da tuberosa, atrás da Nigéria. Assim, como o arroz e o milho é baita fonte de carboidratos, o que me faz concordar com a presidente.

Apenas me intriga ver tal conquista, segundo o IBGE, com as área plantada e produção estagnadas há dez anos, em 1,6 milhão de hectares e 22 milhões de toneladas, respectivamente. A maior produtividade está na Índia.

Uma conquista seis e meio, presidente?

Não para o botânico e geneticista egípcio, Nassib Nassar, há 40 anos no Brasil, professor aposentado da Universidade de Brasília. Ele acaba de ganhar o Kuwait International Prize of Environment.  Com a láurea virão US$ 100 mil para financiar novas pesquisas.

Aspectos nutricionais no Nordeste brasileiro, combate a pragas e doenças no oeste da África, descoberta de híbridos mais proteicos, vieram de Nassar para a mandioca. Apesar de aposentado, o professor vai todos os dias à UnB para orientar seus alunos. Esta sim uma conquista nota dez.

“O homem do campo paulista”

Ponho-me a ler o livro do jornalista Ricardo Prado com fotos de Ricardo Martins e Valdemir Cunha (Editora Horizonte, 2015).

Não se deve esperar a profundidade de “Os Parceiros do Rio Bonito”, do professor Antônio Cândido, ou dos ensaios do sociólogo José de Souza Martins.

Numa primeira folheada, sem tantas pretensões, a lupa dos autores mostra lida de dez famílias de agricultores do estado de São Paulo, em visão próxima como a coluna procura desconstruir a noção primária que hoje em dia se dá à agricultura familiar em suas contradições e oposições.  

Comento o livro na próxima semana, se não mudar de ideia.

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