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Na encruzilhada

Sob assédio dos Estados Unidos à América Latina, a Petrobras investe para aumentar a autonomia

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Horizontalidade. Não adianta vender óleo bruto para a China. A Petrobras precisa recuperar terreno no refino e na produção de fertilizantes, entre outros – Imagem: Alan Santos/PR e Agência Petrobras
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Alvo potencial da estratégia de Donald Trump contra a China, centrada, em boa medida, no jogo do petróleo e na América Latina, a Petrobras investe no aumento das prospecções, na retomada da produção de ureia e na ampliação da frota. São passos importantes para a conquista da autonomia, que estaria mais próxima, entretanto, se não tivesse ocorrido o desmonte parcial da empresa, em especial no governo Bolsonaro, apontam especialistas. “Os investimentos recentes no pré-sal, na recomposição de frota e na retomada da produção são positivos, mas ainda insuficientes diante das demandas estratégicas impostas pela ­disputa EUA versus China”, afirma Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras.

A América Latina tornou-se palco de uma nova corrida por influência, e o Brasil, com sua capacidade produtiva e reservas de petróleo, é peça central, sublinha o dirigente da Aepet. A Petrobras precisa, no entanto, ir além da recomposição de capacidade e acelerar projetos que garantam soberania energética e flexibilidade geopolítica. A retomada da produção de ureia é crucial para reduzir a dependência de fertilizantes importados, ponto sensível em um mundo fragmentado. Mas é preciso integrar essa política a um plano nacional de ­desenvolvimento, vinculando petróleo, gás, fertilizantes e refinaria a uma cadeia produtiva interna.

A pressão para o Brasil aumentar as exportações de petróleo à China traz oportunidades, mas também riscos, prossegue Coutinho. Ameaça acentuar a reprimarização das exportações, com foco excessivo na commodity em detrimento do refino e da industrialização interna. Além disso, a dependência de um único mercado gera vulnerabilidade geo­política e o Brasil pode ver-se espremido entre os EUA e a China, com possíveis retaliações comerciais ou financeiras. “É preciso negociar com pragmatismo, mas sem abrir mão de políticas de conteúdo local e de desenvolvimento da cadeia produtiva. A Petrobras não pode ser transformada em mera exportadora de óleo bruto para alimentar a industrialização chinesa”, salienta o presidente da Aepet. A saída, diz, é diversificar mercados, aumentar o refino interno e vincular exportações a investimentos chineses em infraestrutura e tecnologia no Brasil.

Sem o fornecimento da Venezuela, os chineses podem recorrer ao Brasil

No recém-publicado memorando do Departamento de Guerra ao Pentágono sobre a estratégia de segurança nacional, os Estados Unidos declaram a intenção de assegurar o controle e o acesso a recursos naturais estratégicos da América Latina, como petróleo e minerais críticos, ampliar sua presença na região e conter a influência de potências adversárias, lembra Fernanda Brozoski, pesquisadora de conjuntura internacional do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. A China é o principal destino das exportações brasileiras de petróleo, perto de 45% do total. “Dada a dimensão desse mercado para o País e os riscos associados, com potenciais impactos sobre a balança comercial e a rentabilidade do setor, o Brasil deve buscar mais ativamente a diversificação de parceiros comerciais e a ampliação da capacidade de refino, de modo a fortalecer o abastecimento do mercado interno e reduzir vulnerabilidades externas”, acrescenta a pesquisadora.

“Qual é o objetivo do governo norte-americano? Cercear o acesso da China ao petróleo para debilitá-la. E debilitá-la para dificultar o seu acesso ao petróleo”, resume Ildo Sauer, professor da USP e ex-diretor da Área de Negócios de Gás e Energia da Petrobras. O desafio de preparar a estatal para os tempos bicudos do conflito EUA versus China agigantou-se com o desmonte parcial da companhia operado pelo governo Bolsonaro, que deixou “graves vulnerabilidades”, aponta Coutinho. O desinvestimento em refino e logística, com a venda de refinarias e outros ativos estratégicos e paralisação de projetos de estaleiros e fertilizantes, figura entre os danos causados à companhia, assim como a erosão da capacidade técnica e operacional, com perda de quadros especializados e enfraquecimento da engenharia nacional. Outro estrago foi a financeirização da empresa, com foco em dividendos de curto prazo em detrimento de investimentos de longo prazo, tornando a Petrobras mais frágil diante de crises globais. O presidente da Aepet destaca ainda o aumento da dependência externa, em especial em relação a fertilizantes e gás natural, agravada pela guerra na Ucrânia, e a perda de oportunidade na transição energética, com redução de investimentos em pesquisa e energias renováveis.

Retrocesso. A Lava Jato abortou o processo de adensamento da cadeia produtiva e de criação de empresas competitivas no setor de petróleo – Imagem: Redes Sociais

“Há certa mística em torno da Petrobras. Alguns com espírito nacionalista, altruísta, ainda acham que se trata de uma empresa totalmente brasileira, sob controle de uma estratégia brasileira. Não é mais, em razão dos modelos regulatório e de concessão iniciados com FHC, da ausência de mudança nos governos do PT e do aprofundamento radical feito com Michel Temer e Jair Bolsonaro, que aprofundaram essa estratégia de converter a companhia num instrumento para gerar dividendos a fundos estrangeiros”, dispara Sauer. A sequência mencionada pelo ex-diretor da Petrobras abrange a quebra do monopólio da União por FHC em 1997, a adoção do Preço de Paridade de Importação e o início dos desinvestimentos em massa por Temer e o aprofundamento da venda de ativos e o direcionamento da empresa para maximização de retorno aos acionistas operados por Bolsonaro. “Hoje, a companhia continua muito importante, mas não é mais tão importante quanto se acredita em termos de produção”, sublinha Sauer. Levantamentos mostram que a inglesa Shell, a espanhola Repsol Sinopec, a portuguesa Galp/Petrogal e a francesa ­TotalEnergies detêm, juntas, 20% da produção no País. O conjunto das empresas estrangeiras soma 27% da produção.

“Quando eu era diretor,” prossegue Sauer, “nós distribuíamos sempre o mínimo que a Lei das S.A. obriga, 25% do lucro, como dividendos. O restante ia para um fundo de reserva e reinvestimentos. Temer e Bolsonaro mudaram isso e a empresa passou a distribuir todo o lucro, e ainda trimestralmente. Toda vez que saía um balanço, distribuía o lucro imediatamente. É um instrumento para gerar dividendos, opera como uma empresa multinacional e para botar o lucro para os acionistas.” O professor faz uma ressalva: “Quanto a essa atual direção, é evidente que ela não está inteiramente aliada com isso”.

Aumenta o desafio de preparar a estatal para os novos tempos

“O conjunto das limitações estabelecidas à Petrobras, de FHC a Bolsonaro, interrompeu a possibilidade de uso estratégico da empresa como instrumento de desenvolvimento econômico”, concorda o economista José Augusto Gaspar Ruas, professor da Facamp. Desde meados da década passada, havia indícios muito fortes e avalizados por instituições como o Banco Mundial e o FMI, além da academia, de que a política industrial estava de volta.

Segundo Ruas, quando quase todos os países centrais retomavam a adoção de políticas de desenvolvimento produtivo, favorecendo seus grupos nacionais, o Brasil seguiu a rota inversa e rompeu os canais que conectavam a demanda e os investimentos da Petrobras com a possibilidade de desenvolvimento. Com a descoberta do pré-sal, parecia ter chegado o momento de transitar entre a política industrial que favorece a produção doméstica e a política industrial que favorece a empresa nacional. A Petrobras já vinha fazendo conteúdo local, aumentando a produção, tinha estaleiros produzindo, havia um sistema, uma cadeia produtiva que se adensava. Um salto que permitia começar a articular a formação de grandes grupos nacionais em diversos segmentos da cadeia. Havia a possibilidade de usar a demanda da Petrobras, pelo volume e a importância internacional que assumia em algumas etapas da cadeia offshore, para formar players, defender a nacionalização de empresas e de tecnologias com mais intensidade. “Digo isso porque, quando se vê o que está acontecendo agora, parece que a gente está voltando, de certa maneira, para meados dos anos 2000, em condições e com possibilidades diferentes”, conclui Ruas. •

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Na encruzilhada’

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