Economia

Mundo rejeita a austeridade como solução para crise

Enquanto isso, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro decreta a quebra do País

Foto: iStock Foto: iStock
Foto: iStock Foto: iStock

Sentei à frente do computador para escrever a primeira coluna de 2021 depois de assistir a um episódio da série Chicago PD. O episódio trata de um policial negro que contou a verdade sobre um tiroteio entre negros pobres e policiais brancos à cata de drogas.

Um policial branco foi atingido no tiroteio e morreu. As investigações foram deflagradas sob o suposto da inexorável culpabilidade dos negros “traficantes”. O policial negro da inteligência, Distrito 21, comandado pelo controvertido sargento Voight, teve o desassombro de contar a verdade e acusar o policial branco de iniciar o tiroteio “sem causa provável”.

O episódio termina com a matilha de policiais brancos tentando atemorizar o colega negro quando chegava à sua casa, com um desfile noturno de carros oficiais, faróis acesos. No meio da rua, desafiando as viaturas, o policial negro exclamava: “Podem vir, estou aqui!”

Escrevi esse preâmbulo para homenagear o editor-executivo do jornal Valor, Pedro Cafardo. Em seu artigo na edição de 5 de janeiro, Cafardo teve o desassombro de furar a nuvem espessa de conformidades economicistas e amorais que guiam o debate curupira acerca da política fiscal austericida, seríssima ameaça às condições de vida de milhões de brasileiros.

Vou citar o trecho que considero o mais expressivo: “Trata-se de uma situação excepcionalíssima que, aqui e em qualquer outro lugar, exige decisões excepcionais. É inegável que o auxílio emergencial teve e terá, se for prorrogado, impacto positivo no consumo e na produção, o que tende a melhorar a relação dívida/PIB, preocupação-mor dos falcões. Segundo DeLong, ‘a lição mais importante (da atual crise) que ainda não foi absorvida é que, em uma economia profundamente deprimida, os empréstimos e gastos do governo aumentam a prosperidade de curto e longo prazo do país’. Por isso, esses gastos mais expandem a capacidade fiscal do que aumentam o peso da dívida”.

Entre as pérolas lapidadas pelos corifeus do pensamento economicista figura com aplomb a austeridade expansionista. Esse prodígio da inventividade dos economistas apoia-se na suposição de efeitos virtuosos acarretados pelo equilíbrio fiscal sobre as expectativas dos agentes relevantes.

A economia é autorregulada pelas forças da racionalidade do homo economicus. Deixada aos desígnios da racionalidade dos agentes, ela tende naturalmente ao equilíbrio de longo prazo, proporcionando o máximo de bem-estar para os cidadãos, resguardadas as limitações da escassez de recursos e as possibilidades oferecidas pelo avanço tecnológico. Na visão economicista, a política fiscal deve estar encaminhada para uma situação de equilíbrio intertemporal sustentável, dito estrutural. A política monetária assentada na coordenação das expectativas dos indivíduos racionais (regime de metas) controlada por um banco central independente.

Nas angústias e tropelias da pan­demia, diz meu companheiro Gabriel Galípolo: ”Nada como a visão da forca para clarear a mente”. Assim seja: a economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, em entrevista ao Financial Times, disse que o impacto econômico da pandemia deve mudar a atitude dos governos em relação aos gastos públicos e à dívida. Ele teme que uma nova onda de austeridade poderia provocar uma reação popular. Os governos devem assumir o controle dos Bancos Centrais como o principal motor do estímulo econômico.

LAURENCE BOONE, ECONOMISTA-CHEFE DA OCDE, DEFENDE OUTRA ATITUDE EM RELAÇÃO AOS GASTOS PÚBLICOS E À DÍVIDA

Não foi outra a orientação do economista conservador Glenn Hubbard aos senadores republicanos. Em meados de março, Hubbard conversou com Marco Rubio, da Flórida, Susan Collins, do Maine, e Roy Blunt, do Missouri. Apenas Collins tinha mandato na crise financeira de 2008, quando o Congresso aprovou 700 bilhões de dólares para resgatar ativos podres. Agora, a encrenca estava na casa dos trilhões. Ampliar o déficit e expandir o gasto do governo federal eram anátemas para a bancada republicana. Para alguns integrantes, isso cheirava socialismo. Rubio sinalizou que nunca apoiaria tais gastos em tempos normais. “Você precisa fazer alguma coisa”, advertiu Hubbard. “Estamos debatendo há décadas o tamanho do governo. O debate mais interessante é, no entanto, o escopo do governo.” Ele falou de Abraham Lincoln, presidente republicano: “Lincoln decidiu editar o Homestead Act, a lei de concessão de terras, e estabelecer as bases para a Ferrovia Transcontinental. Se Lincoln, no meio da Guerra Civil, teve a ideia de usar o governo como um instrumento, por que não podemos fazer isso hoje?”

Nos primeiros meses de avanço do vírus, o jornalista da Bloomberg Peter Coy entrevistou Hubbard, ex-reitor da Columbia Business School e também conselheiro econômico-chefe de Bush, além de Alberto Alesina, de Harvard, patrono da austeridade expansionista, recentemente falecido. Hubbard foi incisivo: “Embora a política não possa compensar o choque de oferta, ela pode garantir que a demanda não afunde. Enviar cheques para indivíduos de baixa e moderada renda seria útil e deveria ser possível. Os mercados estão precificando cenários terríveis por causa da queda da confiança. Um grande programa de infraestrutura tranquilizaria as empresas a respeito da demanda futura – os projetos não precisam estar ‘prontos’ para que isso funcione… Embora a profanação das regras fiscais não seja o objetivo, os formuladores de políticas devem priorizar a segurança sobre o déficit de curto prazo”.

O austero expansionista Alesina emendou: “Eu não sou um falcão do déficit. Sou um economista que entende as prescrições de uma política fiscal ideal: executar déficits maciços quando há uma necessidade temporária, como agora com o vírus, e reduzi-los em períodos normais de crescimento… A questão da austeridade e seu efeito é irrelevante agora porque não precisamos de austeridade”.

Aqui, na desditosa Pindorama, o presidente da República declara: “O País está quebrado. Não posso fazer nada. A culpa é da imprensa”. Na contramão do policial negro da série Chicago PD, ele explicou aos apoiadores: “Não estou aqui, não sou capaz de tomar decisões”

Publicado na edição n.º 1139 de CartaCapital, de 13 de janeiro de 2021

Assine nossa newsletter

Receba conteúdos exclusivos direto na sua caixa de entrada.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fonte confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!