Economia
Muita calma nessa hora
Especialistas recomendam ao governo manter a posição firme na negociação e não apelar à reciprocidade
Na madrugada da quinta-feira 16, um comunicado da Presidência da República classificou a decisão dos Estados Unidos de impor tarifas de 25% a diversos produtos brasileiros como “marco lastimável” nos 200 anos de relações entre os países. Teme-se ainda, para breve, uma nova sobretaxa, de 12,5%, aplicada a uma lista de 60 nações na qual o Brasil está incluído, por supostamente estimular o trabalho análogo à escravidão. O instrumento escolhido pela Casa Branca diz muito sobre as intenções de longo prazo do governo Trump. O apelo à Seção 301 do Trade Act de 1974 é delegação expressa do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), condicionada a uma investigação formal com direito ao contraditório, e dificilmente será revertida nos tribunais.
A lista de “acusações” da USTR inclui o Pix, o comércio digital, o etanol, a legislação de combate à corrupção e ao desmatamento e foi redigida com expressões técnicas. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, escolheu, no entanto, outras palavras, políticas, ao comentar a adoção do tarifaço nas redes sociais. O “presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé”, atacou. Soube-se depois o que Rubio queria dizer: Washington havia exigido um afastamento da China, maior parceiro comercial do País, e a abertura ilimitada às empresas norte-americanas em setores como o químico e o farmacêutico.
Responder na mesma moeda teria impacto na inflação e atrasaria o corte de juros
O economista Paul Krugman, Nobel de Economia, deu nome aos bois. Segundo ele, o governo Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma democracia funcional, país que condenou um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, ao contrário da anistia aos invasores do Congresso dos EUA em 2020 assinada pelo próprio republicano. “Economicamente, o alcance das tarifas será limitado”, acrescentou. Carlos Honorato, professor da FIA Business School, chega perto da mesma leitura por outro caminho, ao afirmar que a lista do USTR revela uma agenda estrutural que não desaparece com a próxima eleição norte-americana, a começar pelo Pix, tratado como ameaça à supremacia do dólar. Krugman ironiza ainda a ideia de que o sistema brasileiro representaria concorrência desleal, perguntando por que seria desleal uma empresa perder clientes para um produto melhor e mais barato, e conclui que Washington declarou “guerra ao futuro”.
O caso do Pix merece exame mais detido, por ser o ponto em que a acusação dos EUA se choca com números que qualquer analista pode conferir. A tese é que o sistema teria estabelecido uma concorrência desleal com operadoras norte-americanas de cartão, Visa e Mastercard. Os dados dizem o oposto. As transações com cartões de crédito saltaram de 2,2 bilhões em 2020 para mais de 5,8 bilhões em 2025, alta de 125%, e o número de tarjetas ativas cresceu 47,5% no período, chegando a 477 milhões, enquanto o custo médio de cada transação, medido pelo MDR, caiu de 2,36% para 2,15%. Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, resume o que esses números provam: concorrência desleal exigiria discriminação explícita ou barreira artificial, e o que o Pix fez foi reduzir o custo de transação para todo o mercado. Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, usa outra imagem, a de que a crítica ao sistema equivale a dizer que o saneamento básico prejudica os caminhões-pipa. Quem perdeu espaço não foram concorrentes privados, foi o dinheiro em espécie e o cheque, e o Itamaraty usou esse argumento em resposta ao USTR.
Distorção. Desde o lançamento do Pix, o número de cartões de crédito só cresceu – Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil
As empresas exportadoras tentam, porém, se adaptar à nova realidade. Alessandra Brandão, do escritório Marcelo Tostes Advogados, observa que o movimento de revisão contratual começou antes mesmo de qualquer contramedida brasileira, com empresas negociando cláusulas de alterações tarifárias e mudança de mercado de destino. Pedro Ribeiro, da Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial, reforça que as operações internacionais de longo prazo exigem mecanismos escalonados de resolução de controvérsias, combinando negociação, mediação e arbitragem. E o especialista em recuperação judicial Marcello Marin adverte que o primeiro sinal de estresse nas companhias mais expostas aparece no caixa, com estoques mais altos e pressão sobre o capital de giro, pois as empresas em geral não quebram por falta de patrimônio, mas de liquidez. Na quarta-feira 22, o governo anunciou a ampliação em 18,5 bilhões de reais do pacote de apoio aos setores afetados pelas tarifas impostas por Washington.
Diante desse quadro, fica a pergunta: o que o Brasil deveria fazer a partir de agora? O Congresso aprovou em 2025, na esteira da primeira onda de tarifas, a Lei de Reciprocidade Econômica. A margem jurídica, diz a advogada Giulia Boer, é ampla: tributos, restrições a importações, suspensão de concessões comerciais e até de propriedade intelectual, sempre balizada pela proporcionalidade ao prejuízo causado, embora essa última medida esbarre em compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo Trips e em tratados da OMPI, só encontrando respaldo pleno em retaliação cruzada autorizada pela Organização Mundial do Comércio, como no contencioso do algodão contra os próprios Estados Unidos. Na avaliação de Boer, o rito lento não deixa de ser um instrumento de negociação.
O governo ampliou em 18,5 bilhões o apoio a exportadores afetados pela medida
Os especialistas convergem em um ponto raro em temas de política externa: acionar a reciprocidade de forma imediata seria o pior movimento possível. Para Honorato, a lei tem a virtude de ter sido aprovada por unanimidade, o que a transforma em política de Estado, mas toda contramedida convida à contra-contramedida, e o Brasil precisa ser firme o bastante para ser levado a sério e frio o bastante para não escalar um conflito ainda assimétrico. Usá-la sem antes esgotar a via diplomática entregaria a Trump e aos aliados domésticos o discurso que buscam, de um governo que escolhe o confronto em ano eleitoral. O melhor caminho, insistem os especialistas, é priorizar a negociação bilateral, historicamente conduzida por um corpo diplomático competente, mantendo a reciprocidade como carta na manga. Do lado do mercado, um alerta que a discussão política tende a ignorar vem de Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, de que o risco maior não está na tarifa, mas no canal financeiro que ela pode ativar. Câmbio mais depreciado pressiona a inflação, acima do teto da meta, o que pode atrasar o ciclo de cortes de juros do Banco Central. Cada trimestre adicional de juros altos, afirma, custa à atividade econômica mais do que o comércio perdido com os Estados Unidos.
A saída duradoura não se resolve, no entanto, apenas na mesa de negociação. O Brasil viveu episódio parecido nos anos 1980, quando a mesma Seção 301 mirou a reserva de mercado de informática e, sob o peso da dívida externa, o Brasil cedeu e desmontou uma capacidade industrial que nunca recuperou, enquanto Coreia do Sul e Taiwan, pressionados de forma semelhante, souberam preservar as suas. Honorato lembra que a diferença hoje é que o Brasil tem alternativas de mercado que não tinha então, com a China responsável por parcela crescente das exportações. O acadêmico recomenda cautela antes de comemorar essa transição como projeto deliberado, porque trocar dependência dos Estados Unidos por concentração em um único parceiro asiático, ainda mais em pauta primária de soja, minério e petróleo, equivale a uma simples troca de tutor, longe da autonomia desejada. Honorato sugere diversificar mercados, a exemplo do acordo Mercosul-União Europeia e de parceiros com forte potencial, entre eles Índia, Oriente Médio e África, além de proteger os setores atingidos, fortalecer o Pix e a política de minerais críticos, evitar o desmonte industrial dos anos 1980, e proteger a política comercial do calendário eleitoral, o oposto exato do que Flávio Bolsonaro fez ao transformar a tarifa em munição de campanha antes mesmo de ela entrar em vigor. •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Muita calma nessa hora’
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