MST vai a pequenos investidores para financiar agricultura familiar

Cooperativas do movimento farão oferta pública de títulos de renda fixa com investimento inicial de 100 reais

Doação de alimentos feita pelo MST (Foto: Giorgia Prates/MST)

Doação de alimentos feita pelo MST (Foto: Giorgia Prates/MST)

Economia,Sociedade

Um grupo de sete cooperativas organizadas pelo Movimento dos Sem Terra, o MST, prepara sua primeira oferta pública no mercado de capitais. Com aporte inicial de 100 reais, pequenos investidores poderão financiar a produção de alimentos orgânicos do movimento. O título a ser emitido é de 17,5 milhões de reais e será lançado até o final deste mês.

Embora esta seja a primeira oferta pública, não é exatamente a estreia do MST no mercado financeiro. O movimento emitiu títulos de renda fixa (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) em outras duas ocasiões. A primeira rodada, em maio de 2020, captou 1 milhão de reais entre cerca de cinco investidores entre eles o idealizador da operação, Eduardo Moreira, que trabalhou nos bancos Pactual e Brasil Plural e é colunista de CartaCapital. A segunda rodada, mais parruda, amealhou 5 milhões de reais para quatro cooperativas nordestinas, com o apoio do Consórcio Nordeste (grupo formado pelo governo de todos os estados da região). Ambas as colocações foram privadas, isto é, oferecidas somente a investidores qualificados, que a CVM define como pessoas ou empresas com investimentos financeiros superiores a 1 milhão de reais.

Moreira apresentou o MST à uma securitizadora (a empresa responsável por comprar a dívida do movimento), a Gaia Agro, cujo fundador e presidente, João Paulo Pacífico, encarna o espírito da sigla ASG – ambiental, social e governança – muito antes de o conceito viralizar. O grupo já ultrapassou a marca de 20 bilhões de reais em securitizações nestes doze anos.

“Quatro pessoas do MST e quatro da Gaia se reuniram pela primeira vez na securitizadora, um ano atrás”, conta Moreira, engenheiro formado pela PUC-Rio, que morou em diversos acampamentos do MST e imaginou o que os sem-terra poderiam produzir se dispusessem do financiamento usualmente disponível ao agronegócio. “Fiquei muito emocionado.” Do outro lado do balcão, o investidor tem o conforto de uma aplicação que passou pelo crivo dos reguladores, mas pode saber que seu dinheiro é empregado em alimentação saudável e contribuindo para os pequenos negócios familiares da agricultura orgânica. 

O CRA do MST tem prazo de cinco anos, com remuneração de 5,5% ao ano, isenção de Imposto de Renda, e é lastreado em cédulas de produtor rural (CPR) das cooperativas Coana, Coapar, Coopaceres, Cooperoeste, Cootap, Copacon e Copavi, que produzem leite, milho, soja, arroz, açúcar mascavo e suco de uva, nos Estados de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sl e São Paulo. O pagamento da dívida aos investidores começa a acontecer no segundo ano da operação. E os títulos vendidos aos investidores de varejo estarão protegidos de inadimplência até o limite de 17% do valor da operação. Essa fatia corresponde às cotas subordinadas da emissão, que recebem um retorno maior, mas também absorvem as primeiras perdas.

“Este é o resultado de um ano de esforço na preparação de uma operação que o investidor sabe para quem e para o quê está colocando seu dinheiro. Tem que inverter a lógica do mercado financeiro”, afirma Moreira. Os interessados podem se inscrever na plataforma Finapop.

 

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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