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Moeda e finança

A dita “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas a realização de sua natureza

Moeda e finança
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Referências. Minsky ganhou reconhecimento após a crise de 2008. Schumpeter vê as economias capitalistas como sistemas em evolução, que se desenvolvem em seu movimento histórico – Imagem: Arquivo Nacional dos EUA
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O Manifesto sobre a PEC 65 suscitou-me o impulso de escrever sobre as condições que presidem aos Bancos Centrais e às políticas monetárias. Vou cometer a ousadia de retornar aos economistas de antanho para tratar das intrincadas e complexas questões que envolvem o dinheiro e a finança no capitalismo.

Reconhecido pelos Senhores dos Mercados após a crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado Schumpeter and Finance.

O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard, na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, que mais tarde se tornaria referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.

Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao Ph.D. (1954), foi supervisionado por ­Schumpeter, ­Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.

Os alunos da pós-graduação de ­Harvard, em sua maioria, desdenharam das palestras de Schumpeter. Consideravam Schumpeter ultrapassado. Juntar-se a ele no estudo de economia seria considerado diletantismo. Na era da formalização matemática, o modelo de ­Schumpeter não era tratável.

A visão de Schumpeter concebe as economias capitalistas como sistemas em evolução, que se desenvolvem em seu movimento histórico em resposta a fatores endógenos. As sociedades são bestas evolutivas que não podem ser congeladas no tempo e reduzidas a fórmulas matemáticas estáticas. “Nenhuma doutrina, nenhuma visão que reduza a economia ao estudo da sustentação de equilíbrio pode ter uma relevância duradoura.” Schumpeter lançou uma mensagem: “A história não leva ao fim da história”.

Na Teoria do Desenvolvimento Econômico, Schumpeter chamou o banqueiro/financiador de ephor das economias de mercado. O ephor era um magistrado de Esparta que vigiava as atitudes e decisões dos reis. Em Schumpeter, é a estrutura bancária de uma economia capitalista que controla e delimita o que pode ser financiado, e somente o que é financiado entra no reino do possível.

Não só as mercadorias têm de receber o carimbo monetário, mas também a situação patrimonial – devedora ou credora – das empresas, bancos e demais instituições deve estar registrada nos balanços. Os agentes privados do senhor da moe­da estão permanentemente obrigados a manejar os riscos de crédito e de liquidez que afetam seu patrimônio líquido, a relação crucial entre ativos e passivos.

Mas, atenção! Crentes nos mercados eficientes: em um sistema evolutivo, o poder e a eficácia do ephor são determinados endogenamente. É indispensável perscrutar como a busca do lucro por empresários, banqueiros e gestores de portfólios promove a evolução das estruturas financeiras.

Joseph Schumpeter chamou a teoria que estuda a engrenagem financeira do capitalismo de Teoria Creditícia da Moeda, não de Teoria Monetária do Crédito. Não se trata de uma troca de palavras, mas de uma transposição semântica. A expressão creditícia da moeda pretende subordinar a circulação monetária às relações credor-devedor, o que atribui ao portador dos títulos de dívida o direito de “apropriação” e, no caso de inadimplemento, de “expropriação” dos fluxos de rendimentos futuros ou do valor do estoque de capital existente ou em formação.

Para Schumpeter, assim como para Keynes e Karl Marx, a economia em que vivemos ou tentamos sobreviver não é uma economia simples de intercâmbio de mercadorias. É uma economia mercantil, monetária e capitalista. Nela, as decisões de produção envolvem, inexoravelmente, a antecipação de dinheiro agora para receber mais depois.

A mobilização de recursos reais, bens de capital, terra e trabalhadores depende­ de adiantamento de liquidez e assunção de dívidas. Para que o crescimento seja possível, disse Schumpeter, o estoque de crédito deve crescer além do necessário para a operação corrente da economia capitalista.

Sem a “repressão financeira”, fica difícil explicar a calmaria de três décadas no pós-Guerra

O economista italiano Riccardo ­Bellofiore estabeleceu uma instigante distinção entre Dinheiro e Moeda. Dinheiro, diz ele, é a forma geral da riqueza, poder de adquirir os elementos indispensáveis à produção de mercadorias: trabalhadores assalariados, equipamentos e materiais. No capitalismo, o dinheiro, uma vez atirado à circulação por quem dispõe de patrimônio rentável para acessar o crédito, cria a moeda, o fluxo monetário que paga salários, fornecedores e credores.

Sem a passagem da Potência ao Ato, diria Aristóteles, ou seja, sem a precipitação do Dinheiro no mercado com o propósito de gerar mais Dinheiro, a Moeda não gira e a economia patina. Se patina, as mercadorias não circulam, e os ativos reais e financeiros avaliados “dinheiristicamente” nos balanços de bancos, empresas e famílias padecem o risco de “perder valor” porque os mercados exigem sua “marcação em dinheiro”.

O dinheiro de crédito, antes riqueza potencial, circula como moeda e reaparece nos balanços como Dinheiro-Riqueza realizado, mensurado e escriturado.

Schumpeter compreendeu que o Demônio invadiu a carcaça de Fausto com dois Ânimos: o Espírito inquieto do mercado de capitais, com ações, títulos, hipotecas, imóveis e terrenos, e a boa Alma do “Dinheiro circulante” no setor de mercadorias, emprego e renda. Seguiu Marx, que no Capítulo 30 do III Volume de O Capital intitulado “Capital-monetário e capital real” faz uma distinção entre o 1) “o crédito, cujo volume cresce com o crescente valor da produção”, e 2) “a infinitude do capital monetário – um fenômeno que ocorre ao lado da produção industrial”. Da mesma forma, Keynes escreveu sobre os desencontros entre o “Dinheiro na circulação financeira” e o “Dinheiro na circulação industrial”.

A dita “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas a realização de sua natureza. Na incessante busca da “perfeição”, ou seja, do dinheiro a partir do dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as ilusórias realidades que buscam distinguir a “economia real” da financeira.

O mundo das finanças viveu uma relativa calmaria nas três décadas que se ­seguiram à Segunda Guerra Mundial. Há quem sustente que a escassez de episódios críticos deve ser atribuída, em boa medida, às políticas de “repressão financeira”. Nascidos da Grande Depressão, esses controles impuseram a separação entre os bancos comerciais e os demais intermediários financeiros, direcionamento do crédito, tetos para as taxas de juro e restrições ao livre movimento de capitais entre as praças de negócios de moedas distintas. Tentaram disciplinar o Espírito Dinheirista para dar curso à Boa Alma Moedeira. O Espírito escapou. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Moeda e finança’

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