Economia
Mercado a perigo
Os planos da China de atingir a autossuficiência em alimentos preocupa o agronegócio brasileiro
A recente determinação da China de perseguir com esforço redobrado a busca da autossuficiência em alimentos, inclusive em relação à soja, não passou em branco pelo agronegócio brasileiro, responsável pelo fornecimento de 80% das importações da commodity feitas por aquele país. A estratégia está descrita no relatório Perspectivas Agrícolas da China 2026–2035, divulgado neste mês pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais.
“A China vem consolidando um ajuste consistente em sua estratégia alimentar, em movimentos implementados nos últimos anos, e que aparecem de forma mais consolidada nesse relatório”, ressalta a economista Maria Flávia Tavares, especializada em agronegócios e sócia na MFT Consultoria. O que se vê, prossegue a economista, é uma atuação coordenada entre produção, consumo e comércio que não começa agora, mas ganha mais clareza e consistência nas projeções apresentadas.
Os efeitos para o Brasil tendem a ocorrer de forma gradual. A China segue como um comprador central, especialmente de soja, mas o relatório indica uma redução relativa das importações ao longo do tempo. Isso significa que o efeito aparece mais na desaceleração do crescimento da demanda do que em uma queda imediata dos volumes, sublinha Tavares. O país tem ampliado a produtividade, em especial em grãos e oleaginosas, ao mesmo tempo que mantém um crescimento da produção de forma estável no horizonte de médio e longo prazo. O avanço ocorre articulado com políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à redução gradual da dependência externa.
Ao mesmo tempo, prossegue a economista, há um ajuste no padrão de consumo, com incentivo à substituição do óleo pela soja e laticínios, além de mudanças na estrutura da ingestão de carnes, com maior participação de aves. “Isso mostra que a estratégia não está centrada apenas na oferta, mas na reorganização da demanda interna.”
Outro ponto importante é a melhora na coordenação entre produção e comércio. O relatório aponta redução das importações de produtos relevantes, como soja, carnes e lácteos, combinada com aumento das exportações em cadeias onde o país ganha competitividade, como frutas e hortaliças. Esse conjunto, somado ao uso crescente de tecnologia e sistemas de monitoramento e alerta de mercado, indica uma estratégia voltada a reduzir vulnerabilidades e aumentar o controle sobre o abastecimento.
No caso da soja, ressalta a consultora, a análise exige atenção adicional, pois envolve a dinâmica de farelo e óleo, que respondem a fatores distintos, como a produção de proteína animal, mudanças no consumo alimentar e políticas internas. Mesmo com a redução projetada das importações, a China continua dependente do mercado externo para atender à sua demanda, mas com maior capacidade de ajuste.
Os efeitos sobre os produtores nacionais tendem a ser graduais
De modo mais concreto, detalha Tavares, o cenário tende a refletir-se em um ambiente mais sensível a preços e condições de negociação. “Para o Brasil, isso significa trabalhar com menos folga, já que mudanças na estratégia chinesa passam a ter impacto mais direto sobre volumes e preços. Ao mesmo tempo reforça a importância de acompanhar esse movimento de perto e ajustar a estratégia ao longo do tempo, considerando as diferenças entre cadeias e a dinâmica de cada mercado.”
Marcelo Magalhães, fundador e diretor da Samba International Trade, considera relevante a definição chinesa. O relatório surge em um momento de forte dependência brasileira do mercado chinês, afirmou à newsletter Agrolink. Segundo Genevieve Donnellon-May, pesquisadora em segurança alimentar no Instituto de Políticas de Segurança e Desenvolvimento, da Suécia, Xi Jinping e os formuladores de políticas da China posicionam de modo consistente a segurança alimentar em primeiro plano.
O país visa a expansão da produção de soja e oleaginosas como canola e amendoim, com impulso à biotecnologia e subsídios direcionados, e planeja acelerar a pesquisa e a aplicação de máquinas agrícolas avançadas, produzidas internamente, e sistemas de agricultura inteligente, incluindo o uso intensivo de Inteligência Artificial, 5G e big data. O esforço inclui desenvolver tecnologias de sementes híbridas de alto rendimento para culturas-chave, para reduzir a dependência de importações. “A China está, mais uma vez, reforçando sua abordagem de ‘segurança em primeiro lugar’ na formulação de políticas econômicas – com Xi Jinping provavelmente se sentindo justificado pelas crises globais e pouco propenso a ser dissuadido por quaisquer negociações comerciais com os EUA ou a União Europeia”, descreve o think tank alemão MERICS – Instituto Mercator para Estudos da China, na newsletter de 23 de abril.
A redução, ainda que discreta, da dependência da China em relação ao fornecimento externo de alimentos deveria servir de alerta ao Brasil, que nas últimas décadas ampliou a participação da produção de soja, petróleo, minério de ferro e outras commodities no conjunto da produção. “A economia brasileira sofre uma regressão produtiva que começou no início dos anos 1980. Derrapou e começou a caminhar para trás. Hoje padece de baixo crescimento, do tipo stop and go. Já foi a mais forte da América Latina e uma das mais fortes do mundo, mas se desindustrializou, e o agribusiness é um dos setores mais expressivos. Tem, entretanto, baixo efeito de encadeamento na economia, isto é, necessita pouco de outros setores e bens”, sintetiza o economista Luiz Fernando de Paula, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj. “Você vê no Centro-Oeste, nas grandes cidades, aqueles carrões, o agronegócio é uma atividade que emprega pouco, paga mal e é altamente concentradora de renda”, dispara. “Nas atuais condições, o fosso de desenvolvimento entre o centro e a periferia tende a se aprofundar. Um fosso acentuado não só pelas relações de comércio, mas pelas relações financeiras, pois as economias em desenvolvimento, periféricas, tendem a acumular obrigações externas e endividamento.” •
Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mercado a perigo’
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