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Menino rebelde

Só pioram as projeções das perdas econômicas com El Niño

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Contraste. A i4sea espera uma baixa brusca do nível das águas nos rios amazônicos a partir de setembro. As enchentes no Sul afetam as colheitas de arroz e trigo – Imagem: Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus e Gustavo Vara/Prefeitura de Pelotas
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O Rio Negro, que banha Manaus, tende a voltar a baixar o nível das águas em setembro. A previsão da empresa i4sea aponta cota entre 16 e 17 metros no fim do mês, patamar semelhante àqueles das secas de 2023 e 2024, quando embarcações pararam e a indústria da região perdeu 1,4 bilhão de reais. O aviso chega no mesmo momento de outro, vindo do Pacífico. Modelos da agência norte-americana NOAA dão 97% de chance de o fenômeno El Niño permanecer ativo até o início de 2027, com risco de atingir intensidade “muito forte” no segundo semestre deste ano.

O fenômeno altera a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial e, a partir daí, redesenha padrões de chuva em boa parte do planeta. No Brasil, a combinação costuma produzir seca no Norte, calor mais intenso no Centro-Oeste e no Sudeste e chuva em excesso no Sul. A física Alice Grimm, professora da Universidade Federal do Paraná e uma das cientistas mais citadas no mundo em oscilações climáticas, dedica a carreira a mapear esses efeitos desde que a própria família perdeu, em Santa Catarina, parte da casa durante uma enchente. Para ela, o desafio não está apenas em prever o fenômeno, mas em transformar o conhecimento em decisão pública rápida e eficaz.

O ponto onde a distância entre previsão e resposta mais pesa é na Amazônia. A navegação fluvial é o principal corredor de abastecimento da região, e a queda do nível dos rios empurra a carga para modais bem mais caros. Segundo o oceanógrafo Mateus Lima, quando o calado (profundidade que o casco do navio ocupa abaixo da linha d’água) diminui, o frete sobe, e o efeito se espalha por estoques, contratos e preços ao consumidor. A rede Japurá Pneus, presente em toda a Amazônia Legal, sentiu os efeitos em 2023. Segundo a diretora de operações, Helena ­Monteconrado­, o estoque da empresa precisa estar completo até meados de setembro, porque, depois disso, se o rio baixar as águas, o caminhão simplesmente não chega.

O impacto se propaga pela mesa do brasileiro. O Relatório Focus do Banco Central, que consultou quase cem economistas, estimou acréscimo de 0,3 ponto porcentual à inflação de 2026 e 0,4 ponto em 2027, puxado justamente pelos alimentos. Os números parecem discretos numa planilha de política monetária, mas se traduzem em decisões concretas em casa, no que entra e no que sai do carrinho de compras ao longo do ano. Pela ponta do comércio, o mesmo movimento aparece na leitura da Confederação Nacional de Jovens Empresários. Segundo o presidente da entidade, Fábio Saraiva, quebras de produção e custos logísticos maiores tendem a chegar às gôndolas dos supermercados, ainda que o consumidor não perceba a origem climática do reajuste. A recomendação da confederação a produtores e pequenos empresários passa por revisar fluxo de caixa, reduzir desperdícios e buscar linhas de crédito antes que o aperto se instale, um roteiro que soa preventivo, mas expõe o quanto o setor produtivo brasileiro segue dependente de reação, não de planejamento de longo prazo diante de um fenômeno cíclico e conhecido.

Seca na Amazônia, chuva no Sul, calor mais intenso no Centro-Oeste e Sudeste. Os efeitos variam por região

Frutas e hortaliças, os itens mais sensíveis a oscilações de temperatura e chuva, recebem atenção redobrada da Companhia Nacional de Abastecimento. Historicamente, esses produtos reagem mais rapidamente a choques climáticos do que grãos armazenáveis, pois dependem de colheitas contínuas e de cadeias curtas de distribuição. Uma quebra de poucas semanas aparece na etiqueta da feira, antes mesmo de qualquer indicador oficial capturar o movimento com precisão.

No campo, o efeito não é uniforme. Estiagem e calor pressionam soja, milho e café no Centro-Oeste e no Norte, elevam o estresse térmico dos rebanhos e reduzem pastagens. No Sul, o risco se inverte, com excesso de chuva sobre os plantios de arroz e trigo e elevação dos riscos de enchentes e deslizamentos. Essa geografia distinta importa porque a perda em uma região nem sempre é compensada por ganho em outra, o que tende a reduzir a oferta agregada de itens básicos justamente no momento em que a demanda por crédito e capital de giro cresce entre produtores e pequenos empresários.

A renda rural entra nessa conta com um peso que raramente aparece nos boletins de inflação. Uma safra menor pressiona o preço de prateleira e encolhe a circulação de dinheiro em municípios agrícolas, o volume de contratação temporária na colheita e a arrecadação de prefeituras. O efeito social do El Niño corre em duas direções ao mesmo tempo, encarece os alimentos para quem compra e reduz a renda de quem produz, uma tesoura que aperta as duas pontas da cadeia num intervalo de poucos meses.

Há ainda o componente do crédito. Produtores que enfrentam quebra de safra costumam recorrer a financiamento para cobrir insumos do ciclo seguinte, e um ano de estiagem ou de chuva excessiva tende a elevar a inadimplência em linhas rurais, pressionando bancos públicos e cooperativas que sustentam boa parte do financiamento agrícola no País. O ciclo se fecha quando esse custo adicional de crédito é repassado, de novo, ao preço dos alimentos, reforçando a espiral que começou nas águas aquecidas do Pacífico.

A diferença em relação aos ciclos anteriores está na antecedência do aviso. Plataformas de monitoramento hidrológico indicam restrições de navegabilidade com até 90 dias de antecipação, e os modelos climáticos globais convergem para o mesmo cenário desde meados deste ano. Ainda assim, a distância entre saber que o rio vai baixar e ter estrutura para amortecer o efeito sobre preço e renda permanece a mesma de 2023. O aviso mudou, a resposta ainda está para ser testada.

Se as projeções se confirmarem, o segundo semestre de 2026 deve funcionar como um retrato ampliado do que a Amazônia e o comércio de alimentos brasileiro conhecem de perto, o clima chegando primeiro pelos rios e pela lavoura, depois pela prateleira e pelo bolso de quem compra o próprio alimento todos os dias. •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Menino rebelde’

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