Economia
Máquinas de pensar?
Seu avanço oculta o monopólio de dados e ajuda a bloquear o pensamento
“…a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora – a estupidez artificial – espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza como loucura.”
(Jean Baudrillard)
Inteligência Artificial vs. Artificial Inteligência, eis a questão, diria Hamlet! Seria a destruição criadora ou a destruição destruidora?, diria Schumpeter. No artigo Máquinas de Computação e Inteligência, Alan Turing, em 1950, fez um teste, criou uma máquina para verificar se a inteligência das máquinas seria equivalente à inteligência humana. Testou se a inteligência dita artificial é inteligência ou não.
Alan Turing faz uma premonição: “Acredito que a pergunta original, ‘as máquinas podem pensar?’, é insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensantes sem esperar ser contrariado”.
Esse momento chegou e qualquer análise rigorosa e crítica sobre as causas e consequências da Inteligência Artificial na vida, comportamento e pensamento das pessoas, não pode ser contrariada. O que Turing chamou de Jogo da Imitação hoje seria o modelo LLM (Large Language Models)! Imitar é diferente de pensar, para isso gastam-se trilhões de dólares em armazenamento de dados e informações, consumindo energia e água. Para quê? Melhorar a capacidade de imitar, não de pensar, Artificial Intelligence.
Entre o fim de 2025 e meados de 2026, a Amazon captou 15 bilhões de dólares em títulos de crédito privado, a Open IA captou 122 bilhões de dólares, o Google 32 bilhões de dólares e a Oracle perto de 45 bilhões de dólares. Uma transferência brutal de recursos de investidores no setor de IA. Quantos empregos criaram? Quantos empregos destruíram? Nesse Jogo da Imitação de trilhões de dólares, a facilidade cobrará seu preço, não aos donos do Vale do Silício, mas aos pobres mortais.
O avanço de rotinas e os atendimentos mais rápidos escondem o monopólio de dados, ou melhor, a intimidade das pessoas. Tudo vira dado, dado vira commodity, que vira dinheiro, que vira controle, que vira poder. Ninguém escapa.
Evgeny Morozov, doutor em História da Ciência pela Universidade de Harvard, grande pesquisador e crítico do poder do Vale do Silício, no seu grande e importante livro Big Tech, a Ascensão dos Dados e a Morte da Política, faz um alerta sobre o poder de vigilância das corporações:
“A tecnologia digital da atualidade, ficou evidente, não é apenas ciência aplicada, como ainda sustentam as filosofias mais vulgares da tecnologia. Ela é, na verdade, um emaranhado confuso de geopolítica, finança global, consumismo desenfreado e acelerada apropriação corporativa dos nossos relacionamentos mais íntimos… nossa sociedade digital, quaisquer que sejam suas falhas, não é a causa do mundo em que vivemos, e sim consequência dele”. (Evgeny Morozov)
Quanto mais acumula dados e dinheiro, mais você deixa de pensar, basta consultar a IA, e assim vai, recorrentemente. Você colabora de graça com os algoritmos, vendendo de graça seus dados, seu pensamento, suas emoções e desejos. Sem perceber, passa a não usar mais seus neurônios, e como não pensa, não usa energia cerebral. Você se torna uma ‘Artificial Inteligência’, porque terceiriza todo o seu ser a um banco de dados. Quem é a máquina? Quem imita quem?
Nos alerta Maryanne Wolf, professora residente de Educação da UCLA, diretora do Centro de Dislexia, Alunos Diversos: o ato de ler acrescentou um circuito inteiramente novo ao repertório do nosso cérebro de hominídeos no longo processo evolutivo de aprender a ler bem e em profundidade. Mudou nada menos que a estrutura de conexões desse circuito e isso fez com que mudassem as conexões do cérebro, com a consequência de transformar a natureza do pensamento humano.
Onde o cérebro gasta mais energia e conexões é no ato de ler e pensar, e depois escrever no papel. Esse é o movimento da inteligência. Ao digitar e consultar a IA, seria a morte da inteligência.
Diz o ditado popular: criar dificuldades para vender facilidades. A Inteligência Artificial facilita a obstrução do pensamento.
No final, o “empobrecimento” e a submissão da subjetividade dos indivíduos “livres” e seu mundo
No livro How Big-Tech Barons Smash Innovation and How to Strike Back, Ariel Ezrachi trata das consequências sociais e políticas do domínio das big techs:
“A utopia tecnológica intensa dos anos 1990 agora parece uma distopia, em que muitos dispositivos, aplicativos e serviços vêm de ecossistemas digitais controlados por poucas empresas poderosas (que chamamos de “Barões da Tecnologia”). Pense, por exemplo, na Alphabet (Google), Apple, Meta (Facebook), Amazon e Microsoft (GAFAM para abreviar).
“Esses Barões da Tecnologia não apenas governam a concorrência dentro de seus ecossistemas rigidamente controlados por eles, mas também determinam a natureza da inovação que chega ao mercado. E, para proteger seus interesses, eles garantem avançar e permitir inovações apenas que não atrapalhem seus modelos de negócios e lucros.”
Pedimos licença para recorrer a Karl Marx. Nos Grundrisse, ele argumenta que “o desenvolvimento do capital fixo indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.
O conceito de capital fixo em Marx envolve, portanto, um potencial inesgotável de avanço tecnológico, o que implica necessariamente a criação de aparatos educacionais e científicos institucionalmente articulados.
O General Intellect institui-se como forma de apropriação dos significados do conhecimento humano, em particular dos códigos da ciência. O capital toma para seus propósitos a educação, cujos métodos e objetivos são ajustados aos requerimentos da aceleração da valorização do capital e da desvalorização do trabalho, no mesmo movimento em que impõe critérios de qualificação dos trabalhadores cada vez mais exclusivos e “excludentes”.
As condições de produção e de sobrevivência escapam cada vez mais ao controle dos cidadãos e os submetem aos seus movimentos. A automação crescente do processo de trabalho e a tendência à concentração e centralização das forças produtivas assumem diretamente, em sua forma material, o automatismo da acumulação, determinando o “empobrecimento” e a submissão da subjetividade dos indivíduos “livres” e de seu mundo da vida. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Máquinas de pensar?’
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