Lockdown bem-feito é mais eficiente para salvar a economia do que o descontrole

É que apontam diversos estudos científicos. A retomada só existe no discurso do ministro da Economia

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Economia

Entende-se o desespero de quem sofreu as consequências econômicas de quase um ano de atividades paralisadas ou intermitentes. As principais ruas comerciais das maiores cidades brasileiras são um retrato de outro tipo de morte causada pela Covid-19: o falecimento dos pequenos comércios e serviços e a destruição de empregos e renda. As placas de aluga-se e vende-se se multiplicam pelas quadras e tomaram o lugar dos letreiros de salões de beleza, bares, restaurantes e butiques.

O temor de uma nova e, para vários, derradeira crise causada pelo Coronavírus estimula os protestos, mas o setor privado erra ao corroborar o falso dilema entre economia e vidas. Os governantes de países avançados e dos emergentes bem-sucedidos constataram há tempo que o que “mata” a economia é o vírus, não o fechamento ou lockdown, conclusão reforçada por estudos bem fundamentados produzidos em vários continentes.

Pesquisadores dos Estados Unidos e da Itália, entre outros, demonstraram de forma contundente que o medo  provocado pelo descontrole da doença é muito pior para a economia do que o lockdown e que a complexidade e o risco da volta às aulas são maiores do que sugere o senso comum.

 

O medo e a incerteza são piores para as atividades econômicas do que o isolamento social

 

O lockdown ou fechamento dos estabelecimentos para conter a propagação  do vírus, medida demonizada pelo governo e por comerciantes brasileiros, produz menos danos à economia do que apontam as visões intuitivas sem base no conhecimento científico, constataram os economistas Austan Goolsbee e Chad Syverson, do Becker Friedman Institute, ligado à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, no trabalho intitulado Fear, Lockdown and Diversion: Comparing Drivers of Pandemic Economic Decline 2020. Eles procuraram identificar o quanto do imenso colapso da atividade econômica no ano passado, provocado pela Covid-19, resultou das restrições de atividades impostas pelo governo e quanto foi efeito de os cidadãos terem escolhido voluntariamente ficar em casa para evitar infecções. Examinaram o que determinou a desaceleração econômica com base em dados de registros de telefones celulares em visitas de clientes a mais de 2,25 milhões de empresas individuais em 110 diferentes setores.

A análise do comportamento individual durante a crise nas mesmas zonas de deslocamento, mas além das fronteiras estaduais e municipais submetidas a diferentes políticas de enfrentamento da pandemia, sugere que “os lockdowns representam apenas uma parte modesta das mudanças maciças no comportamento do consumidor”.

Enquanto os deslocamentos voluntários caíram 60 pontos porcentuais, as restrições legais explicam apenas 7 pontos porcentuais da movimentação. As escolhas individuais foram muito mais importantes e parecem ligadas ao medo de infecção. Os deslocamentos que começaram a cair antes que as ordens de lockdown estivessem em vigor foram altamente influenciados pelo número de mortes por Covid relatadas em cada município e mostraram uma clara mudança dos consumidores, de lojas mais movimentadas e lotadas para estabelecimentos menores e menos movimentados no mesmo setor, sublinham os autores. O que “mata” a economia são o vírus e o medo da doença, não o lockdown, concluíram Golsbee e Sylverson.

 

 

O efeito do medo na inibição do consumo, constatado pelos pesquisadores estadunidenses, não deve ser desprezado, sugerem vários trabalhos. Cerca de 60% dos consumidores adiaram compras por temor do desemprego e do vírus, revelou pesquisa do Ibre-FGV realizada em 2020. Há medo diante do número de mortes provocadas pela Covid-19, do risco de um desemprego prolongado e da perspectiva de não encontrar vaga hospitalar nem ventilador pulmonar em um recrudescimento da doença, destaca o economista Jan Kregel, diretor de pesquisa do renomado Levy Economics Institute.

Kregel tomou por base o trabalho do historiador e cientista político Ira Katznelson sobre a manifestação do fenômeno na depressão de 1930. “Quando a incerteza profunda surge, a capacidade de escolha é transformada. O risco mensurável gera preocupação, mas o risco imensurável sobre a duração e magnude da incerteza gera medo. Sob condições de medo, as pessoas desenvolvem maior atenção e autoconsciência sobre as restrições à ação livre e assumem, como objetivo central, o desejo de restaurar um grau mais alto de coerência e certeza. Isto é, elas tentam reduzir a incerteza profunda ao risco comum”, analisa Katznelson.

Assunto polêmico no mundo, o retorno às aulas é também objeto de inúmeros trabalhos e pesquisas. Os custos de longo prazo do fechamento de escolas relacionado à Covid-19, em termos de perdas de aprendizagem e de bem-estar
dos alunos, são imensos, em especial para países de baixa renda, enquanto os benefícios, em termos de redução da disseminação do vírus, são menos claros, argumentam os economistas e professores Michele Battisti, da Universidade de Palermo, Andros Kourtellos, da Universidade de Chipre, e Giuseppe Maggio, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola da ONU, no trabalho intitulado School Openings Affect Local Covid-19 Diffusion. A pesquisa investiga o papel das escolas na disseminação da Covid-19 a partir de uma experiência da Sicília, onde a reabertura de alguns estabelecimentos no outono de 2020 foi adiada devido a um referendo nacional e às eleições locais.

 

Os estudos sobre a volta às aulas são heterogêneos e não permitem conclusões definitivas a respeito

 

Os autores concluíram que a abertura de escolas parece aumentar o número de casos de Covid-19 em nível local, embora os efeitos sejam altamente heterogêneos entre unidades, populações e características institucionais. Os economistas utilizaram dados de um painel semanal que combinou em torno de 67 mil casos individuais observados na região da Sicília com informações da amostra completa de escolas públicas, cobrindo perto de 95% dos alunos.

“Nossa principal descoberta é que as áreas com escolas próximas que abriram mais cedo exibiram aumento médio de 2% nos casos de Covid-19 duas semanas após a reabertura da escola. Esse resultado é impulsionado principalmente pelos níveis de escolaridade abaixo do ensino médio. Os efeitos parecem desaparecer quando o tamanho das turmas é menor do que a mediana (número que separa a metade superior de um conjunto da metade inferior), com implicações na política de reorganização dos edifícios escolares”, destacam os economistas.

“Os resultados sustentam a hipótese de que a população em idade escolar é mais assintomática e com menor probabilidade de rastreamento.” O trabalho simulou também o que aconteceria se os estabelecimentos de ensino permanecessem fechados. A conclusão é de que “o efeito acumulado sugere diminuição entre 14,6% e 26,1% no número cumulativo de casos de Covid-19 medido em 14 de dezembro no cenário alternativo de fechamento total da escola”, sublinham.

No fim do trabalho, os autores afirmam que o efeito da reabertura das  escolas é altamente heterogêneo no que se refere às características escolares, populacionais e institucionais, e que isso explica por que pesquisas recentes chegam a resultados mistos. “É necessário mais trabalho para determinar as condições precisas para a abertura segura da escola e para entender se os custos econômicos do fechamento são grandes o suficiente para justificar um aumento do contágio ligado à operação de atividades escolares presenciais”, alertam.

Um aspecto importante são os testes e o mapeamento da rede de contatos dos portadores do vírus. Por esse motivo, a
maior parte dos planos de reabertura de escolas na Europa e nos EUA concentra-se na testagem e no rastreamento dos sintomas de Covid-19. “Pesquisas recentes indicam que a triagem de sintomas por si só não permitirá que as es-
colas contenham os surtos de Covid-19, porque 40% dos casos são assintomáticos e 50% das transmissões ocorrem em assintomáticos e o teste de rastreamento é fundamental”, alertam Yasmin Rafiei e Michelle M. Mello, da Univer-
sidade de Stanford, em artigo no New England Journal of Medicine intitulado The Missing Piece – SARS-CoV-2 Testing and School Reopening, que faz uma análise da experiência estadunidense de retorno às aulas.

No Brasil, os governantes mostram-se lacônicos, quando não emudecem a respeito das testagens. Em São Paulo, apenas 74,5 mil testes foram realizados em janeiro, o menor número desde março, quando o total chegou a 43,2 mil, e uma fração do 1,42 milhão feito em julho, segundo dados oficiais.

Publicado na edição nº 1143 de CartaCapital.

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Editor da revista CartaCapital

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