Left Bank, o banco virtual que quer conquistar clientes progressistas

A possibilidade de se montar um banco afinado com ideais surgiu a partir da explosão de novas categorias de serviços financeiros

Marco Maia:

Marco Maia: "“Havan, Madero, Riachuelo e outras empresas apresentaram um padrão de comportamento que não dialoga com as nossas opiniões e posições. Por que continuar a consumir esses serviços?"

Economia,Sociedade

Um público estimado em 60 milhões de brasileiros identificados com causas sociais e políticas de esquerda e centro-esquerda é o alvo do LeftBank, uma fintech de pagamentos criada em dezembro de 2020. “Somos um banco de propósitos, sem medo de se posicionar. Vamos oferecer serviços e produtos a qualquer cliente, sem preconceitos ou restrições, nos melhores preços e condições. Além disso, estamos nos estruturando para uma forte ação social, investindo em inclusão, equidade, cultura, esporte e educação”, afirma Marco Maia, diretor de Relações Institucionais e ex-presidente da Câmara dos Deputados. 

A possibilidade de se montar um banco afinado com os ideais de igualdade social surgiu a partir da explosão de novas categorias de serviços financeiros, possibilitada pela regulação do Banco Central sobre meios de pagamentos, iniciada em 2010 com a quebra do duopólio das credenciadoras de cartões de crédito Cielo e Redecard. Maia cita como inspiração o Nubank, startup pioneira em serviços financeiros digitais, criado em 2013, ao lado de iniciativas populares, como o banco digital montado pela prefeitura de Maricá, no estado do Rio de Janeiro, envoltos por um sistema bancário em que cinco conglomerados, três privados e dois estatais, dominam quase 90% do mercado em um país em que 40% dos cidadãos não têm conta em banco e 60% dos inadimplentes estão sem acesso ao crédito. 

A ideia de um boicote de brasileiros progressistas a empresas alinhadas à condução anticientífica do combate à pandemia pelo governo Jair Bolsonaro inspirou dois empreendedores do Rio Grande do Sul a discutir as possibilidades abertas pela tecnologia, a regulação das fintechs e bancos digitais, e concluir que era preciso montar uma ferramenta tecnológica financeira que atendesse às demandas de uma parcela significativa da sociedade brasileira.

60 milhões de brasileiros se autodeclaram de esquerda ou de centro-esquerda, estima um levantamento encomendado pela empresa

Havan, Madero, Riachuelo e outras empresas apresentaram um padrão de comportamento que não dialoga com as nossas opiniões e posições. Por que continuar a consumir esses serviços? É nessa esteira que surge a proposta, de alguns companheiros e companheiras, de desenvolver um projeto voltado a dar oportunidade a quem pensa com a esquerda de não mais contribuir com o capital tradicional”, argumenta Maia. “Mas, em vez de ter uma lista negativa de estabelecimentos com que a esquerda não deveria se relacionar, pensamos que seria melhor construir uma lista positiva de empresas, de lugares, de setores, de instituições bancárias que devêssemos apoiar e resolvemos criar um banco de propósito. Foi assim que surgiu o LeftBank.”

Companhia limitada constituída por dois sócios, o advogado Daniel Gonçalves e o contabilista e administrador Wolney Borba, ambos de Porto Alegre, com um capital inicial de 500 mil reais, o LeftBank está habilitado a operar cerca de 90% dos serviços e produtos bancários, segundo Maia, faltando apenas a operação de crédito. Além do banco, o grupo constituiu a LeftPhone, uma operadora virtual de telefonia móvel, ou MVNO, na sigla em inglês, uma categoria que no Brasil detém apenas 4% do mercado, em comparação a 40% na Europa e 30% nos Estados Unidos.

Outro serviço é o Left Assistência Veicular 24 horas, uma variante de seguro automotivo, sem consulta ao SPC, Serasa e às burocracias típicas das seguradoras tradicionais, com um plano básico de 39,90 reais por mês. Até o fim de outubro, será lançado um seguro de vida, o LeftSeguros, em parceria com a seguradora Mag (antiga Mongeral), a preços populares, 9,90 reais. Outra parceria, com uma subadquirente de cartões de crédito, produzirá a maquininha do LeftBank e facilitará a função crédito do cartão, que, por ora, só faz débito. Na boca do forno, o próximo produto é um cartão de benefícios, o LeftMais, anuncia Maia. “Além desses serviços agregados, nos próximos meses pretendemos lançar, ainda, o LeftSaúde, um plano de saúde, e um serviço de streaming, do tipo de uma Netflix com filmes e séries de conteúdo mais progressista, de esquerda”, sublinha o executivo.   

Todos esses projetos estão ancorados em um levantamento em âmbito nacional, encomendado ao instituto Fronte Pesquisa e Análise de Mercado, a fim de estimar e mapear esse público progressista. Seriam em torno de 60 milhões de brasileiros que se autodeclaram de esquerda ou de centro-esquerda. Do total, 8% estão no Centro-Oeste, 15% no Sul, 44% no Sudeste e 33% no Norte e Nordeste. Dos entrevistados, 98% têm conta corrente, 88%, cartão de crédito, 76%, conta poupança, e apenas 46%, algum tipo de investimento. Predominam os bancos tradicionais sobre os digitais, porém, estes ocupam 13% do mercado bancário. Questionados sobre quais serviços ou produtos sentem falta no banco que utilizam, 46% dos jovens de 18 a 30 anos responderam que é o cashback, do qual só se ressentem 29% dos entrevistados com 51 anos ou mais. Um dado importante visto na pesquisa foi a fonte principal de informações dos entrevistados: 38% se atualizam em sites em geral, 19% no Instagram, 15% pela tevê, 10% pelo WhatsApp, 8% pelo Facebook e 5% pelo Twitter. 

Mais preocupado – e ocupado – com a estruturação dos serviços e com o desenvolvimento da plataforma tecnológica nos primeiros meses de existência, só agora a instituição vai iniciar uma campanha de divulgação da marca. “Eu mesmo, que tenho 1,1 milhão de seguidores no Facebook, trabalhei muito pouco nessa base. Agora é que estamos empenhados em fazer publicidade, apresentar os serviços, colocar o LeftBank na rua”, diz Maia. Diversidade não faz mal a ninguém, muito menos ao sistema financeiro.

Publicado na edição nº 1178 de CartaCapital, em 7 de outubro de 2021.
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Editor de Finanças em CartaCapital.

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