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Para escapar das pressões dos EUA, o Brasil e outros países do BRICS vendem treasuries, compram ouro e fazem comércio em moedas locais

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A venda, pelo Banco Central, presidido por Gabriel ­Galípolo, de um grande volume de títulos do Tesouro norte-americano e a compra de uma quantidade significativa de ouro, no fim do ano passado, revela um movimento tático importante em uma conjuntura de perda de confiança no dólar, impelida pela truculência da política externa de Donald Trump. Ao mesmo tempo, o Brasil aprofundou o comércio bilateral com a China e outros parceiros sem usar a moeda dos EUA, apenas com ajustes contábeis de ambas as partes, feitos em numerários locais. O resultado somado é o avanço da desdolarização, comparada por Trump à derrota em uma guerra.

Os movimentos do Brasil foram noticiados pelo Saffron Bharat, jornal da Índia conectado ao Partido do Povo Indiano, do primeiro-ministro Narendra Modi­, e pouco divulgados aqui. Segundo a reportagem, a iniciativa foi um “grande revés para os EUA”. A decisão do BC brasileiro segue as ações indianas de reduzir a exposição aos treasuries, mas é considerada “ainda mais agressiva, tanto financeira quanto estrategicamente”. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, o Brasil vendeu 61,1 bilhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA, quase 27% das suas reservas totais. É a maior redução porcentual­ global, acima da Índia, de cerca de 21%, e a da China, de menos de 10%. O jornal indiano ressalta que tanto a Índia quanto o Brasil venderam treasuries quando os rendimentos estavam altos, isto é, quando geralmente é atrativo para os Bancos Centrais mantê-los em carteira, “o que evidencia uma decisão estratégica, não financeira”. Além disso, em apenas três meses, acumulamos 43 toneladas de ouro, com elevação das reservas a 172 toneladas.

O dólar não será substituído no curto prazo, mas o ímpeto de diversificação gera instabilidade exacerbada

A medida mais prejudicial para os EUA vem, no entanto, do comércio. O Brasil, maior produtor e exportador mundial de soja, e a China, maior importadora, com 60% a 66% das compras globais, começaram a liquidar o comércio em moedas locais, “ignorando completamente o dólar”. Uma comprovação de que linhas de swap cambial e sistemas de pagamento alternativos estão em operação. As mudanças de posições naqueles mercados apontam para uma conclusão: a desdolarização agora é uma política ativa, não apenas retórica, sublinha o Saffron Bharat.

Um funcionário do governo brasileiro confirmou a esta revista os números e as demais informações divulgadas pelo diário indiano. As transações dos países mais importantes do BRICS nos mercados financeiros e de commodities ocorrem apesar das ameaças de Trump de impor um tarifaço às nações que excluíssem o dólar nas trocas comerciais. A chantagem da Casa Branca e as reações do resto do mundo elevam a volatilidade do sistema financeiro global. Um editorial de The Wall Street Journal resume o problema: “Uma combinação de medo e ganância está por trás da volatilidade. Os participantes ativos no mercado de ações dos EUA estão ávidos pelos ganhos de capital obtidos com a IA. Os participantes ativos nos mercados financeiros globais estão com medo – e com razão. A economia é instável, seus alicerces são desequilibrados, suas atividades voláteis e seu chefe mafioso, o presidente dos EUA, é altamente suspeito. Por isso, o capital está fluindo para paraísos fiscais, em parte porque o dólar norte-americano – a ­moe­da de reserva mundial – não é considerado seguro”. O primeiro-ministro do Canadá e ex-governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, sublinhou em Davos: “Para ser direto, estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição”.

A equipe de Trump, embora afirme a necessidade de um dólar forte, está, na verdade, determinada a enfraquecê-lo, o que acentua os movimentos em curso, ressalta a economista inglesa Ann Pettifor­, consultora de vários países. O republicano acredita, entretanto, que o resto do mundo não tem escolha. Não é o que mostram os movimentos do BRICS no mercado mundial e várias iniciativas de criação de moedas digitais por parte de Estados nacionais e blocos como a União Europeia. Carney argumenta que os ganhos da cooperação e coordenação política internacional nas atuais circunstâncias são modestos e supõe uma “visão antiga”. Ele propõe “um sistema baseado na reunião de diversas moedas digitais de reserva de diferentes países em uma moeda comum, que seria hegemônica. Isso aumentaria a oferta mundial de ativos seguros e acabaria com a dependência do dólar norte-americano”.

Proteção. Galípolo reduziu a exposição do País aos títulos do Tesouro dos EUA – Imagem: Lula Marques/Agência Brasil

“Acho uma ótima ideia a criação de uma moeda supranacional, semelhante ao bancor, proposto por Keynes em 1944, na Conferência de Bretton Woods, mas acho pouco provável que isso ocorra em um futuro próximo, pois a viabilidade política é baixa”, ressalta o economista da Unicamp Bruno De Conti, professor visitante do Instituto de Altos Estudos de América Latina da Universidade ­Sorbonne Nouvelle. Uma medida intermediária, prossegue o economista, seria a criação de uma moeda virtual do BRICS, não para a substituição das respectivas moedas nacionais, mas para as transações internacionais. A ideia estava em discussão, mas perdeu ímpeto.

“A causa dos movimentos de defesa por parte do Brasil, nos mercados de ­treasuries e de ouro, foi o medo de Trump criar um imposto sobre ativos estrangeiros nos Estados Unidos. É um indicador do nível de desconfiança atingido”, afirma Manfred Back, professor de Economia, ex-trader de renda variável e ex-operador de ouro. “Existem dois tipos de compra, de ouro futuro em contrato e de ouro em barra, que chamamos de não monetário. No fim do ano passado, houve um movimento de alguns Bancos Centrais, principalmente da Europa, muito semelhante ao ocorrido antes de Richard Nixon acabar com a paridade de dólar e ouro, em 1971.”

Vários BCs retiraram o ouro físico da custódia dos Estados Unidos, em navios, de volta para os países de origem. Em outubro, os EUA registraram um superávit na balança comercial, devido à exportação de ouro, segundo revelam os registros oficiais. Ocorre que os Estados Unidos não produzem ouro. Houve, portanto, uma saída maciça de barras computada como venda.

O receio de que Trump criasse um imposto sobre ativos estrangeiros acelerou as ações de defesa

No fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, os europeus começaram a contestar o papel do dólar como representante da riqueza universal. Os primeiros a se rebelar foram os franceses, no governo do general Charles de Gaulle, que iniciou a troca da moeda norte-americana excedente pelo ouro de Fort Knox. Em resposta, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, declarou unilateralmente, em 1971, o fim do padrão-ouro estabelecido em Bretton Woods e deu início à escalada do dólar, que passou a ser a moeda de reserva global. “O movimento de diversificação das reservas internacionais ocorre há ao menos uma década, mas se acelerou em 2022, quando os EUA e países europeus congelaram uma parcela importante das reservas internacionais russas como parte das sanções impostas pela guerra na Ucrânia. Isso acendeu a luz amarela para todos os países do mundo, pois os títulos públicos estadunidenses eram encarados como o ativo mais seguro da economia global, o refúgio contra as incertezas”, aponta De Conti.

A percepção de que esses ativos podem ser usados como arma de guerra passou a gerar uma insegurança que até então não existia. “Com Trump, esse receio da ‘­weaponization’ do dólar e do sistema financeiro baseado na moeda norte-americana elevou-se ainda mais e, hoje, mesmo a Europa, antiga aliada dos EUA, tem medo”, destaca o economista. O BCE, afirma, tem sido “muito enfático ao apontar que a dependência da Visa e da Mastercard para pagamentos digitais no continente europeu representa um grande ponto de vulnerabilidade para a região”.

Medo. A agressividade do governo Trump afeta a confiança no dólar. Brasil e China excluíram a moeda dos EUA do comércio bilateral de soja – Imagem: Wenderson Araújo/Sistema CNA/Senar e iStockphoto

Os EUA começaram a reagir, prossegue De Conti, e vão continuar com ainda mais vigor. Parte da reação ocorre pelo estímulo do governo Trump ao mercado de stablecoins, criptoativos emitidos por empresas privadas lastreados em dólares e em títulos públicos estadunidenses. O mercado beira os 300 bilhões de dólares, 99% em moeda dos EUA, e é muito concentrado em apenas duas empresas, a ­Tether e a Circus, que movimentam um volume gigantesco de títulos públicos norte-americanos. Os últimos dados indicam que a Tether acumula 135 bilhões e é a 17ª maior detentora de “reservas” em papéis dos Estados Unidos no planeta, acima da Coreia do Sul e da Alemanha.

O perigo está no horizonte, alerta De Conti. “Há disposição política de uma ampla gama de países para reduzir sua dependência do dólar, antigo porto seguro global, diante de uma gestão atípica da moeda e dos títulos públicos dos EUA por parte do governo Trump. Na ausência de uma referência que sirva como refúgio alternativo, o dólar não será substituído no curto prazo, mas o ímpeto de diversificação poderá criar um cenário de instabilidade exacerbada.” •

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Independência ou…’

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