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Ilusão de ótica

A ditadura dos juros continua e a economia depende de o PAC dar certo

Imagem: Renato Luiz Ferreira e NDB
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A melhora significativa da economia, na comparação com o abismo em que foi lançada nos governos Temer e Bolsonaro, e o salto do PIB no primeiro e no segundo trimestres, assim como a revisão para cima das projeções de crescimento neste ano, tendem a desfocar a atenção das dificuldades da situação atual, que não devem ser subestimadas. O crescimento ­inesperado do PIB tem muito de efeito estatístico, apoia-se principalmente no agronegócio e no gasto público e diz pouco sobre o quadro atual e as perspectivas da economia como um todo.

“Se você junta juro alto, economia fraca, as incertezas sobre o resultado fiscal e quanto aos efeitos da reforma tributária, é uma coisa pesada. Sem o Programa de Aceleração do Crescimento, fica difícil a economia crescer”, alerta José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. O País já cresceu o que tinha para crescer neste ano, porque o agro já entregou a produção, a indústria caiu e os serviços estão zerando. “O PIB foi puxado por ilhas de crescimento, que ocorreu em nichos. É muito difícil olhar para a indústria e ver um ambiente virtuoso. Infelizmente, não tem. Caso ocorra queda do PIB da indústria de transformação, vai ser a sétima em dez anos. Há uma condição adversa para o setor industrial”, sublinha Igor Rocha, economista-chefe da Fiesp.

Os juros elevados continuam a ser a principal amarra da economia, e as perspectivas não são animadoras. “Os fortes movimentos da curva de juros mostram a deterioração das condições financeiras e quão longe estamos de uma situação que reflita expectativas favoráveis”, destaca o Boletim Economia ­Online, do ­Banco Fator. “Os juros mais longos cederam bastante, mas ainda estão em patamares proibitivos para a economia: quem aguenta pagar juros reais de 8% ao ano por dez anos?”, destaca o texto.

“A indústria começa a tomar crédito a 25% ao ano. Esquece, não tem como isso dar certo. Não tem como”, ressalta Rocha. Segundo o Fator, a perspectiva de expansão via crédito é bastante modesta e assim vai continuar, mesmo com a queda dos juros. A produção industrial começou no vermelho, com recuo de 0,3% no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período do ano passado, o setor de bens de capital segue em contração, os licenciamentos de veículos voltaram a cair. Um quadro que não chega a ser contrabalançado pela alta do setor de bens de consumo e a deflação dos alimentos, entre outros aspectos positivos da evolução da economia.

A indústria começa a tomar crédito a 25% ao ano. “Não tem como isso dar certo”, diz Rocha, da Fiesp

Apesar de o PIB do segundo trimestre ter sido melhor do que o esperado, a composição dele não trouxe novidades, pondera Gonçalves. “Ainda teve alguma coisa de agro, mas acho que o ponto nem é esse, porque ninguém imagina que o agronegócio vai contribuir mais até o fim do ano. A indústria de transformação continua afundando. A indústria de extração, que era a que estava segurando o conjunto do segmento da indústria neste primeiro semestre, foi muito mal em julho.” Isso quer dizer que, se a Petrobras não aumentar a produção, poderá ocorrer queda na extração mineral no segundo semestre. Não é o que se espera, mas já desacelerou e depende, portanto, de a estatal produzir mais.

Quanto a serviços de utilidade pública, principalmente energia elétrica, isso mudou de patamar pelo efeito da bandeira verde da tarifa, que não vai se repetir, diz o economista. Ou seja, daí não vem crescimento também. Construção é onde pode ocorrer algum dinamismo, mas isso está na conta. Quando se vê a indústria de transformação caindo, o setor elétrico sem crescer e a extração mineral crescendo menos, significa que o conjunto da indústria vai cair. “Ou seja, o agro vai cair, a indústria vai cair. Do lado de serviços, é o que se vê há alguns trimestres. O mercado de trabalho continua criando vagas e a renda continua crescendo, só que isso num ritmo cada vez menor, que caminha para zero”, chama atenção Gonçalves.

A piora do setor de serviços é lenta, mas persistente. O conjunto das situações apontadas acima sugere que, no segundo semestre, “se não acontecer nada, se a economia não crescer e não cair, estará muito bom”.

A economia vai crescer de 2,5% a 3% este ano, apontam as projeções dos economistas com as maiores taxas de acerto nas suas estimativas. “O que me preocupa é se, no fim do ano, a economia estará desacelerando ou em contração. Porque isso será a cara do ano que vem, a passagem para 2024. Esse é o risco que vejo. Efeito de queda de juros, que reverta as tendências apontadas, não consigo identificar”, ressalta Gonçalves.

Movimentos. O aumento da produção da Petrobras aliviaria o cenário. Adquirida pela chinesa State Grid, a CPFL é a maior empresa de energia elétrica da América do Sul

O ritmo estabelecido para a queda dos juros está mais para uma redução demorada das taxas do que para um declínio rápido. “O que está aí no mercado me parece que é um meio-termo. Não acho que a Selic cairá abaixo de 9%. O ritmo da ­queda da inflação é lento e isso é usado como justificativa. Eu posso não concordar, mas é o argumento dominante e o ­pessoal do mercado gosta desse argumento.”

A oposição entre a redução de juros e o orçamento com a expectativa de ­déficit para o ano que vem é outro ponto para justificar cautela, dentro do raciocínio do mercado. O ritmo com que o resultado fiscal se comporta não vai resultar em grande melhora nas expectativas.

“Os juros tendem a cair no ritmo lento atual. Caíram 50 pontos, mas em termos reais, olhando para a inflação esperada, ainda estão em 8%. Essa taxa, em um processo de queda de juro, é muito alta. Esse ritmo não proporciona um alívio tão forte assim. Um alívio forte, na lógica dos agentes do mercado, precisaria ter um juro real não de 8%, mas de 4,5%, ou 4%. Isso quer dizer que ainda restariam 4 pontos para cair. Seriam oito quedas de meio ponto porcentual cada uma. É isso o que o mercado enxerga. Uma queda lenta. É muito difícil crescer dessa maneira”, ressalta o economista do Fator. O que sobra é o PAC.

“O novo PAC tem elementos positivos, eu gosto da nova roupagem do programa. Acho que houve um aprendizado com o que aconteceu ao longo do tempo. Ele tem por base projetos mais bem estruturados, o que é bom. Traz a convergência com a iniciativa privada, o que é muito positivo”, chama atenção Rocha, que destaca a evolução significativa dos órgãos de controle e de fiscalização, no aprendizado quanto à infraestrutura e à melhora na estruturação dos projetos. “Ao fazer convergir investimentos públicos e investimentos privados, de forma bastante pragmática, tal como está sendo apresentado, o PAC tem boas perspectivas para dar certo. Claro que a gente só vai saber o resultado do jogo quando ele for jogado. Mas, pelo menos até agora, pelas intenções que estão sendo postas, está parecendo fazer sentido”, acrescenta o economista da Fiesp.

O PAC tem uma característica interessante, destaca Gonçalves, que é trabalhar primeiro com crédito e garantias em lugar de gasto público. É possível manter a participação do governo no programa, em cerca de 50 bilhões de reais por ano, mais financiamento para o setor privado fazer investimentos, obras de infraestrutura e a Petrobras, que deverá voltar a investir. Ele reúne estatais e setor privado, no que se refere a Parcerias Público-Privadas, principalmente. “Há ainda algumas joias em rodovias e portos e tem bastante espaço para PPPs urbanas. Em mobilidade urbana, tem muito gringo de olho. Caso se consigam 250 bilhões de ­reais em investimento por ano, através do PAC, haverá alguma chance de, minimamente, manter a economia em torno de 2% de crescimento”, prevê.

O novo PAC combina melhor os investimentos público e privado

Até as empresas privadas “se convencerem e tomarem coragem”, mas será preciso avançar na queda dos juros e na reforma tributária. “Não dá para imaginar que as empresas brasileiras, que vão fechar o orçamento neste mês ou no próximo, e as empresas estrangeiras, que já fecharam o orçamento para o ano que vem, tenham contemplado grandes projetos sem saber como será a tributação. Seria meio esquisito”, ressalta Gonçalves.

Cabe destacar a existência de complicações adicionais. Em 2008 e 2009, os efeitos da crise das hipotecas ­subprime, nos EUA, foram rapidamente debelados no Brasil porque os bancos públicos atuaram com firmeza para baixar os juros. Hoje, essa capacidade está reduzida, porque a capitalização dos bancos públicos está no arcabouço fiscal.

Parte do financiamento do PAC está no Orçamento, parte virá de crédito via ­BNDES. Ainda que o Tesouro não entre para capitalizar o banco público, ele pode trazer dinheiro do exterior. O histórico de investimentos chineses estratégicos relevantes em infraestrutura na América Latina, a exemplo da compra, pela State Grid, da CPFL, a maior empresa de energia elétrica da América do Sul, permite imaginar que a China tende a desempenhar um papel importante, tanto no investimento direto quanto no crédito.

A presença da ex-presidente Dilma Rousseff à frente do Banco dos BRICS significa, ao menos para uma parte do mercado, uma ponte de facilitação do financiamento chinês. Quanto ao capital privado para infraestrutura, aposta-se em um regime de investimento privado de parceria, isto é, em que o risco não seja todo do setor privado. Um exemplo considerado bem-sucedido é o do Metrô de São Paulo, com linhas que se pagam. Uma ressalva é que o setor privado costuma ser muito mais operador do que investidor, faz mais operação e manutenção.

De todo modo, isso promove atividade econômica e gera investimento. “Outro ponto são as garantias. É possível ter garantias do Tesouro, para o setor privado, ou para projetos de parceria, e essa conversa eu sei que está andando”, destaca Gonçalves. “Não é caixa, não tem que pôr o dinheiro lá. Dá-se uma garantia e, se o projeto é bom, não será necessário executar a garantia. Esta é que é a ideia. O passo decisivo é esse. Se isso ajudar a economia a andar, temos chance. Mas não se trata de algo simples”, sublinha o economista. •

Publicado na edição n° 1277 de CartaCapital, em 20 de setembro de 2023.

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