Economia

Guido Mantega: A Petrobras derruba o mito da ineficiência estatal

A retomada dos investimentos e a descoberta na Foz do Amazonas projetam a companhia entre as maiores petrolíferas do mundo

Guido Mantega: A Petrobras derruba o mito da ineficiência estatal
Guido Mantega: A Petrobras derruba o mito da ineficiência estatal
O presidente Lula em visita à Foz do Amazonas, em 17 de agosto de 2026. Foto: Agência Petrobras/AFP
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Caso a Petrobras encontre petróleo e gás em volume expressivo a 500 quilômetros da Foz do Amazonas, hipótese bastante provável, poderá tornar-se uma das três maiores petrolíferas do mundo nos próximos anos. Desde a descoberta do pré-sal na Baía de Santos, em 2006, a estatal tem apresentado um desempenho econômico-financeiro excepcional, muito superior ao de suas concorrentes públicas e privadas do setor.

Estamos falando de gigantes tradicionais do segmento de exploração e comercialização de petróleo e derivados, como Saudi Aramco, Exxon Mobil, Shell, Chevron e TotalEnergies, todas deixadas para trás em rentabilidade e produtividade pela Petrobras nos últimos anos.

Em 2025, o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) da companhia brasileira foi de 26,0%, enquanto a segunda colocada, a gigante Saudi Aramco, registrou 23,3%. As demais ficaram para trás, com índices próximos de 10%.

No primeiro semestre de 2026, o desempenho da Petrobras foi ainda superior ao de suas concorrentes, com um ROE de 19,0%, ante 13,9% da Saudi Aramco, 7,2% da Exxon e 9,5% da Shell.

Nesse mesmo período, a Petrobras alcançou uma margem líquida de 29,1%, contra 24,7% da Aramco, 9,3% da Exxon e 10,1% da Shell, demonstrando uma eficiência muito superior à de seus concorrentes.

Esses elevados níveis de rentabilidade e margem líquida da Petrobras não foram pontuais. Entre 2021 e 2025, o ROE médio da companhia foi de 23,18%, superior ao de todas as grandes petroleiras, com exceção da estatal saudita Aramco, e também maior do que o da maioria dos bancos brasileiros, campeões mundiais em lucratividade.

O invejável desempenho da Petrobras deveu-se não apenas aos altos preços do petróleo e de seus derivados, resultantes das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, mas, sobretudo, aos elevados investimentos e ao desenvolvimento tecnológico, que elevaram extraordinariamente sua produtividade.

De 2008 a 2014, a Petrobras investiu, em média, 40 bilhões de dólares por ano, o equivalente a mais de 10% da formação bruta de capital fixo (FBCF) do País. Foram os engenheiros da companhia brasileira que lideraram a descoberta do pré-sal, em 2007, e desenvolveram tecnologias avançadas para a exploração em águas profundas. A empresa também investiu na formação de seus profissionais, por meio da Universidade Petrobras, e estabeleceu parcerias com instituições de ensino e centros tecnológicos.

No entanto, a partir de 2014, a petroleira brasileira foi paralisada pela Lava Jato, que desmontou a cadeia produtiva de petróleo, gás, construção e setores adjacentes. Posteriormente, sofreu também com a fúria privatizante dos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A queda do preço do barril de petróleo, de mais de 100 dólares em 2013 para cerca de 40 dólares em 2015, também contribuiu para o enfraquecimento de suas finanças.

A partir do governo Temer, a maior empresa brasileira em lucro e faturamento foi submetida a uma gestão de orientação privatista, que alienou parte significativa de seu patrimônio, com privatizações da ordem de 240 bilhões de reais, reduziu os investimentos e distribuiu centenas de bilhões de reais em dividendos.

Os investimentos foram caindo a partir de 2016 e, durante o governo Bolsonaro, chegaram a um patamar inferior a 10 bilhões de dólares, retardando a expansão da capacidade produtiva. A gestão privatista da Petrobras passou a adotar parâmetros típicos de empresas financeirizadas, priorizando a maximização dos lucros no curto prazo, a ampla distribuição de dividendos e a redução de custos e investimentos.

O caixa da Petrobras foi particularmente dilapidado durante o governo Bolsonaro, com uma distribuição de dividendos em volume capaz de deixar os magnatas de Wall Street de queixo caído.

Em 2022, para se despedir com chave de ouro, a gestão bolsonarista da Petrobras distribuiu 37,29 bilhões de dólares em dividendos e juros sobre capital próprio, valor superior aos 36,62 bilhões de dólares de lucro líquido registrados pela companhia naquele ano. A quantia também superou a soma dos dividendos distribuídos pela Exxon, Chevron e PetroChina.

A partir de 2023, a Petrobras retomou padrões de eficiência e racionalidade na gestão estatal, com aumento gradual dos investimentos e redução da distribuição de dividendos. A estratégia fortaleceu o caixa da companhia, preparando-a para enfrentar novos desafios, como a exploração de petróleo e gás a 500 quilômetros da Foz do Amazonas.

Além de ser uma das campeãs mundiais do setor petrolífero, a Petrobras é a empresa brasileira não financeira de maior rentabilidade e produtividade, competindo em condições de igualdade com os bancos, tradicionalmente os líderes nacionais em lucratividade.

O desempenho da Petrobras derruba o mito de que empresas estatais são, por natureza, ineficientes e incapazes de alcançar desempenho semelhante ao das empresas privadas. Trata-se de um argumento há muito cultuado pelos liberais para justificar as privatizações bilionárias realizadas recentemente no Brasil.

Felizmente, a Petrobras sobreviveu à fúria privatista e vem sendo revigorada no terceiro mandato do presidente Lula. Com a descoberta deste “pré-sal 2”, a companhia tem condições de ampliar significativamente sua produção nos próximos anos, consolidando-se entre as maiores e mais eficientes empresas petrolíferas do mundo.

Há, ainda, uma curiosa coincidência histórica: o pré-sal da Bacia de Santos foi descoberto em julho de 2006, às vésperas da reeleição de Lula para um segundo mandato. O pré-sal da Bacia do Amazonas foi descoberto em 17 de agosto de 2026, exatamente vinte anos depois, no momento em que Lula disputa seu quarto mandato.

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