Economia
Gestão temerária
Loteado pelo União Brasil, o RioPrevidência multiplicou por sete aplicações no Banco Master sem aval do seu Comitê de Investimentos
No emaranhado de operações fraudulentas com Letras Financeiras (LFs) articuladas a partir do Banco Master, destaca-se a irresistível atração que esse tipo de aplicação parece ter exercido sobre diversos institutos de previdência de funcionários públicos estaduais ou municipais. Segundo investigações da Polícia Federal e do Banco Central, 18 dessas instituições investiram, entre outubro de 2023 e dezembro de 2024, quase 1,9 bilhão de reais no banco controlado por Daniel Vorcaro e liquidado em novembro pelo BC. Como as LFs não estão cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), os servidores correm o risco de jamais reaver os valores investidos.
Com base em informações coletadas no Ministério da Previdência, os investigadores constataram que nenhum dos 18 institutos possuía aplicações vinculadas ao Master antes do período analisado. Em uma lista que inclui fundos mantidos por servidores dos governos de Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima, o destaque absoluto vai para o Rio de Janeiro, já que o RioPrevidência é responsável sozinho por 1,2 bilhão de reais aplicado nas LFs do Master, segundo uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado – o governo fluminense contesta o cálculo e diz que o valor aplicado foi de 960 milhões.
A voracidade com que o RioPrevidência se lançou às LFs do Master é um dos pontos a partir dos quais a PF procura entender as ligações políticas por trás das aplicações feitas no banco. A autarquia vinculada ao governo do Rio é presidida, desde julho de 2023, por Deivis Marcon Antunes, quadro técnico do União Brasil. Segundo informações obtidas por CartaCapital, ele foi indicado pelo presidente nacional do partido, Antônio Rueda, com as bênçãos do governador Cláudio Castro, do PL, e do então todo-poderoso presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar, também do União Brasil, hoje afastado do cargo após atrapalhar uma operação policial contra um deputado ligado ao Comando Vermelho. Rueda, segundo a PF, era frequentador do círculo mais estreito de amigos de Vorcaro.
“Esse componente é essencial porque Vorcaro montou uma rede de apoio político que inclui os principais nomes do Centrão e da direita”, afirma o deputado estadual Carlos Minc, do PSB, um dos líderes da oposição ao governo Castro. O parlamentar acrescenta que “sabidamente o governador mantém íntimas ligações com aqueles que são os principais sustentáculos políticos desse esquema fraudulento e criminoso”. Minc ressalta que o RioPrevidência foi reiteradamente advertido pelos órgãos fiscalizadores sobre a vulnerabilidade do Master e suas prometidas taxas de retorno, muito superiores às praticadas pelo mercado. “Mas Castro aplicou e voltou a aplicar, comprometendo recursos do pagamento dos pensionistas e aposentados. Esse prejuízo agora vai sair do Tesouro estadual, que já está com um buraco tremendo, produto da gestão temerária do governador.”
Em nota, o RioPrevidência afirma que, apesar do risco de perda do investimento realizado, “o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido” aos mais de 235 mil servidores inativos do estado. Logo após a descoberta das irregularidades praticadas pelo Master, a direção do instituto afirmou que “todas as aplicações foram realizadas em conformidade com os regramentos vigentes” e que iniciaria negociação para substituir parte das LFs adquiridas por precatórios estaduais e federais. Uma primeira proposta nesse sentido, segundo Antunes, foi feita em setembro do ano passado diretamente ao Master, que teria concordado, e mais tarde endossada ao liquidante do banco nomeado pelo BC, a EFB Regimes Especiais de Empresas. Este último, no entanto, interrompeu as tratativas em 14 de janeiro. “A permuta solicitada configuraria pagamento antecipado e privilégio a um único credor, o que é juridicamente vedado.”
Além do 1,2 bilhão de reais investido em LFs do Master, montante que agora deseja recuperar, o RioPrevidência teria desembolsado perto de 1,5 bilhão de reais em outros fundos administrados por corretoras que compõem a intricada teia em torno do banco de Vorcaro, segundo o TCE-RJ. Alarmado pelo fato de o RioPrevidência, com valor total de sua carteira estimado em 11 bilhões de reais, aplicar quase 25% de seus recursos em um único banco, o órgão de controle enviou comunicados à direção do instituto desde maio de 2024, quando alertou que a “repetição de operações similares implicaria a integral assunção do risco de possíveis irregularidades”.
O RioPrevidência ignorou os alertas e continuou a aplicar nos fundos ligados ao Master pelos meses subsequentes. Em ofício enviado ao TCE logo após os primeiros alertas, o presidente do instituto diz que “a equipe técnica do RioPrevidência tem suas decisões pautadas na avaliação constante dos ativos e na aderência dos mesmos às determinações legais e regulamentares, e não em matérias ou notas jornalísticas tendenciosas ou inverídicas”.
Em depoimento divulgado pela PF na terça-feira 20, Róbson Luiz Barbosa, que era integrante do Comitê de Investimentos do RioPrevidência quando tiveram início as aplicações em fundos do Master, afirmou que a proposta inicial previa a compra de apenas 120 milhões de reais em LFs, mas que esse montante foi sendo elevado de forma sucessiva e automática, sem o crivo do colegiado. As ordens nesse sentido, segundo o depoente, teriam partido do então diretor de Investimentos, Euchério Lerner Rodrigues, que, segundo o apurado pela reportagem, chegou ao cargo também com as bênçãos de Bacellar, Rueda e outros caciques do União Brasil.
Deputado estadual pelo PSD e ex-vice-governador do Rio, Luiz Paulo Corrêa da Rocha critica a atuação do governo fluminense: “Foram feridas as regras de aplicações de recursos para pagar a folha de aposentados e pensionistas, principalmente em Letras Financeiras sem garantia do Fundo Garantidor, feitas em um banco de terceira linha, segundo classificação do próprio BC, e que tinha comportamento atípico”. O parlamentar lembra que o Master oferecia retorno do investimento com porcentuais idênticos às pirâmides financeiras. “Recursos públicos devem ser investidos em fundos conservadores, sem riscos de perdas, e não foi isso que ocorreu. Os alertas institucionais foram feitos e ignorados. O resultado é um dos maiores desastres efetuados pelo sistema financeiro.”
Carlos Minc afirma que, com o desenrolar das investigações, não bastará restituir os recursos mal aplicados aos caixas do RioPrevidência. “É preciso identificar quem foram os responsáveis por esse prejuízo que atingiu tanta gente e, em particular, o Rio de Janeiro. E também revelar qual foi o suporte político em torno dessa fraude gigantesca do Master, na qual o governo do Rio se envolveu até o pescoço.” •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Gestão temerária’
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