Economia
Feira nada livre
Os preços, em especial dos alimentos, dão um repique por fatores pontuais, mas os riscos no horizonte preocupam
A alta de 1,33% nos preços da alimentação, principal causa da inflação medida pelo IPCA, de 0,58% em maio, alardeada pelos jornais como a maior para o mês nos últimos cinco anos, foi impulsionada por fatores pontuais e em si não deveria disparar alarmes. No médio e longo prazo, entretanto, há uma abundância de fatores preocupantes, ausentes das manchetes. O governo deveria construir silos para estoques reguladores, tomar iniciativas para atenuar os efeitos do próximo El Niño e equacionar de modo abrangente a questão do financiamento à agropecuária, recomendam economistas.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o governo vai elaborar com o Congresso uma solução para o endividamento dos produtores rurais. Durigan reconhece a necessidade de apoio aos produtores, mas considera necessário avançar com cautela e defendeu uma solução focada em quem realmente passa por dificuldades financeiras, sem beneficiar aqueles que prescindem de apoio. Em audiência na Câmara dos Deputados, o ministro disse que a taxa de inadimplência registrada no Banco do Brasil, uma das principais instituições financiadoras do setor, elevou-se da faixa de 1% a 2% para 5% a 6%. Apesar do aumento, argumentou, a maior parte dos produtores mantém os pagamentos em dia. “Precisamos apoiar a renegociação de dívidas, estender a mão para quem está inadimplente, mas 95% do agronegócio brasileiro está bem.”
Há uma tendência de elevação, embora não muito significativa, em grande medida em razão da alta de preços dos fertilizantes decorrente da restrição de oferta por conta da guerra dos EUA contra o Irã, aponta Rogério Sobreira, economista-chefe do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste. A alta tem mais a ver com alguns casos pontuais, como o aumento relevante dos preços da batata e do tomate, e outros fatores de pressão, como o custo do frete e dos combustíveis, relacionados à incerteza no mercado internacional em decorrência da guerra, concorda o economista Rafael Ribeiro, professor de Economia da UFMG e pesquisador do Made/FEA-USP.
O contexto político imediato do problema é o impasse no Congresso em torno do financiamento da renegociação de dívidas agrícolas de 180 bilhões de reais com o uso do Fundo do Pré-sal, aprovado pelo Senado e devolvido à Câmara. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, chamou para si o papel de detonador desta e de outras pautas-bomba, que renderiam dividendos eleitorais também para o governo, mas a um custo muito elevado para as contas públicas. “Trata-se de um dilema pelo fato de que a aprovação das medidas pleiteadas pelo setor, embora não somente essas medidas, venha a elevar ainda mais a taxa de juros ao pressionar o quadro fiscal”, afirma Sobreira. Especificamente, prossegue, a aprovação da pauta pode colocar mais pressão sobre o arcabouço fiscal, o que aumenta o risco de uma piora significativa nas avaliações dos agentes a respeito da evolução da relação dívida bruta/PIB, com impactos inequívocos sobre as taxas de juro, notadamente aquelas de longo prazo. “Situações semelhantes do passado mostram precisamente esse efeito.”
É preciso revisar o atual modelo de financiamento agrícola
Ribeiro defende medidas mais pontuais do governo, para auxiliar principalmente os pequenos produtores, pois os grandes não parecem estar com dificuldades. O que há é uma elevação da inadimplência em razão de uma reversão do ciclo de preços elevados do setor, entre 2021 e 2024. Subvenções e renegociações mais focadas teriam, talvez, impacto fiscal menor e mais direcionado, ressalta. O economista Thiago Dallaverde, do Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais, acredita que os pedidos do agronegócio apontam para um debate necessário, sobre a dimensão que deve ter a ação do Estado neste momento. “Na comparação com experiências internacionais, vê-se que o Brasil tem mais eficiência, age com suporte de equalização de taxas, mas o plano safra e outros mecanismos têm proporção menor do que iniciativas semelhantes em outras economias de porte. Não é que o País gaste pouco com o setor agrícola, mas despende menos que os Estados Unidos, a Europa e a China. Portanto, o suporte para o setor agrícola brasileiro, ainda que seja significativo do ponto de vista dos números, proporcionalmente é menor do que em outros países”, sublinha. Dallaverde propõe a discussão da ideia de se organizar um fundo de estabilização, semelhante àquele da Espanha e outros, para equacionar de modo abrangente a questão do financiamento à agropecuária.
O impasse no Congresso sobre o financiamento ao agro aponta de fato para um dilema, mas há formas de agir, talvez com a organização de algum tipo de espaço fiscal adicional, uma combinação, eventualmente, de participação de um fundo garantidor, mas privado. É preciso pensar ainda em mecanismos estabilizadores, para evitar ônus intensos que apareçam como uma pauta-bomba, acrescenta Dallaverde. A necessidade de repensar soluções mais amplas fica mais nítida quando se leva em conta o imperativo de garantir a segurança alimentar no País diante da perspectiva de um El Niño turbinado e do desequilíbrio climático crescente.
Ribeiro considera complicado pensar em medidas urgentes, pois são problemas que exigem planejamento estratégico. Pouco pode ser feito agora, se as previsões do Super El Niño se confirmarem. Ele chegaria em meados do ano e deve ir até o fim de 2026 ou início de 2027. Nas perspectivas mais otimistas, será de magnitude moderada. As principais consequências do fenômeno são o agravamento da seca, principalmente no Nordeste, e altas temperaturas no Sudeste.
No futuro, é necessário o Brasil se preparar, com uma atenção muito especial, pois a expectativa é de agravamento de eventos climáticos extremos, com maior frequência e intensidade. O Nordeste certamente requer investimento maior em estruturas de irrigação e de armazenamento hídrico. Outra necessidade é intensificar os investimentos em pesquisa, para geração de sementes mais resistentes e novas possibilidades de diversificação de produção. “Estamos muito dependentes de monoculturas produzidas em grandes latifúndios em boa parte do território agricultável, e isso aponta para um cenário de maior risco”, diz Ribeiro. Uma das medidas mais relevantes é apoiar a construção de silos de armazenamento que poderão garantir não apenas maior segurança alimentar, mas funcionar como estoques reguladores, contribuindo para suavizar fortes volatilidades de preço dos alimentos em um contexto de maior desequilíbrio climático, recomenda Sobreira. •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Feira nada livre’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



