Economia
Escudo à crise
Estudo detalha os motivos de o Brasil estar razoavelmente protegido da crise causada pelos ataques ao Irã
Apesar do choque no petróleo provocado pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, as perspectivas macroeconômicas do Brasil para 2026 permanecem favoráveis. A elevação nos preços do combustível afeta de modo positivo a atividade econômica, a balança comercial e a arrecadação, e gera inflação mais pronunciada apenas no caso de uma crise muito severa, concluem os economistas Rafael Leão, coordenador-geral de projeções econômicas do Ministério da Fazenda, e Guilherme Magacho, economista da Agência Francesa de Desenvolvimento, em artigo com estimativas do efeito do conflito na economia nacional. Ao lado da China, o País é considerado por vários economistas como um dos mais bem preparados para enfrentar o estrangulamento do suprimento pela obstrução parcial do Estreito de Ormuz. Entre as causas da resiliência nativa estão a resistência da Petrobras às tentativas de desmanche operadas nos governos Bolsonaro e Temer, o sucesso da tecnologia dos motores a etanol e os avanços na produção de biocombustíveis.
Em 2016, frisam Leão e Magacho, o País tornou-se exportador líquido de petróleo e derivados, com superávits comerciais crescentes. No ano passado, o óleo e derivados responderam por quase 16% do valor total das exportações brasileiras e por, aproximadamente, 8% das importações, saldo líquido positivo próximo de 32 bilhões de dólares. “Aumentos na cotação internacional como reflexo dos conflitos no Oriente Médio tendem a amplificar ainda mais esse saldo, contribuindo para elevar as exportações líquidas e o crescimento”, anotam.
Segundo o site BRICS Brasil, criado durante a presidência brasileira do bloco no ano passado, o País se consolidou como importante fornecedor de petróleo para a China após a deflagração da guerra no Irã, tendência que deve manter-se forte neste ano. A commodity brasileira, de baixo teor de enxofre e rotas seguras, é altamente atrativa para as refinarias chinesas. A Petrobras atendeu à demanda extra sem riscos operacionais, via contratos de longo prazo com as estatais chinesas CNOOC e Sinopec, noticiou o site. Em março, as exportações de óleo para a potência oriental atingiram a máxima histórica de 1,6 milhão de barris por dia. A China comprou 67% do petróleo vendido pelo Brasil ao exterior, com receita de 3,1 bilhões de dólares no mês, alta de 111% em relação a março de 2025.
Em 2025, o petróleo e seus derivados responderam por 16% das exportações brasileiras
É preciso levar em conta, alertam Leão e Magacho, que os efeitos positivos da dinâmica alterada pela guerra podem ser contrabalançados pela redução na demanda mundial por outros bens e serviços exportados pelo Brasil, pelo aumento nos preços de importação e pela elevação nos juros como reflexo do impacto inflacionário do choque nos preços. A expectativa para este ano, acrescentam, mesmo diante do conflito, é de uma resiliência no crescimento, inflação em queda e cumprimento da meta do resultado primário das contas públicas. Consolidadas essas expectativas, a variação média de preços no atual governo terá sido a menor em comparação a mandatos anteriores, resultado obtido em simultâneo à recuperação do crescimento e ao fortalecimento da responsabilidade fiscal, projetam os economistas.
O Brasil é um dos países que começaram a criar alternativas energéticas muito antes da crise e tornou-se menos vulnerável ao choque atual, concorda a economista Laura Carvalho, diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundations, rede de filantropia fundada pelo magnata George Soros, e professora associada de Economia da USP. Ela escreveu sobre a crise e o Sul Global no portal Project Syndicate. O País tem extensa infraestrutura de biocombustíveis, uma das maiores frotas de veículos flex do mundo e milhões de motoristas brasileiros podem escolher entre etanol 100% derivado da cana-de-açúcar ou gasolina misturada com 30% de biocombustível. “Como a gasolina produzida no mercado interno inclui uma parcela substancial de biocombustível, o produto refinado pela Petrobras, a gigante estatal de energia, permaneceu consideravelmente mais barato do que os equivalentes importados, protegendo os consumidores da volatilidade global do petróleo”, sublinha. Os preços da gasolina subiram apenas 5% em março, em comparação com cerca de 30% nos Estados Unidos, ressalta.
O Brasil é citado por Laura Carvalho como exemplo de resiliência no Sul Global, ao lado da China, que investiu durante mais de dez anos em energias renováveis, segmento que hoje representa 40% da geração de sua eletricidade, aumento de 26% no período. Os chineses acumularam reservas estratégicas de petróleo de mais de 1,2 bilhão de barris. O banco Goldman Sachs identificou em um relatório o domínio das energias renováveis como um dos “escudos” que protegem a economia chinesa.
Couro arrancado. A refinaria Landulpho Alves, privatizada durante o governo Bolsonaro, reajustou os preços do diesel em 87%. A Petrobras aumentou 12% – Imagem: Saulo Cruz/Ministério de Minas e Energia
Na elaboração das estimativas, os economistas do Ministério da Fazenda e da Agência Francesa de Desenvolvimento consideraram três situações prováveis de choque temporário, persistente ou grave, também denominado disruptivo, com alta das cotações, respectivamente, para 65,9, 82 e 100 dólares o barril. Na quarta-feira 15, a cotação oscilava em torno de 95 dólares, mais próxima do quadro grave. Nesta situação, os economistas consideram que a oferta é prejudicada pela destruição estrutural de instalações produtivas de extração e refino e por interrupções logísticas severas em diversos países do Oriente Médio, entre eles Bahrein, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, além do Irã, e redução significativa na oferta global.
Mesmo na hipótese ou cenário de choque grave, entretanto, o efeito para o crescimento da economia brasileira é positivo em 0,36 ponto porcentual. O superávit comercial seria 10,3 bilhões de dólares maior, levando a uma valorização cambial de 4,5% e alta próxima a 0,58 ponto porcentual na inflação. A receita líquida do governo, nesse cenário, aumenta em, aproximadamente, 96,6 bilhões de reais, segundo o estudo.
O choque nos preços elevaria o superávit da balança comercial de petróleo e derivados, efeito apenas parcialmente contrabalançado pelo impacto do menor crescimento mundial sobre as exportações brasileiras e pelo aumento das importações, associado tanto aos reajustes quanto à expansão da atividade doméstica. Segundo o Fundo Monetário Internacional, para cada 10% de aumento no preço do petróleo há uma redução do crescimento global entre 0,10 e 0,15 ponto porcentual.
O FMI elevou a projeção de crescimento do Brasil neste ano, de 1,6% para 1,9%, e afirmou que o País pode se beneficiar no curto prazo por ser exportador líquido de energia. Com esse desempenho, a economia brasileira desbanca a canadense e retoma o 10º lugar no ranking mundial.
A expectativa é de crescimento com inflação em queda e meta de resultado primário atingida
O estímulo ao maior crescimento é neutralizado parcialmente por mudanças nos juros em reação à maior inflação. A reação das taxas tende a reduzir os efeitos positivos estimados para a atividade econômica. No caso da inflação ao consumidor, o choque exerce impacto direto, por meio da possível elevação dos preços da gasolina e do diesel nas distribuidoras, e impacto indireto, repercutindo a propagação para os demais bens e serviços da cesta. No modelo, a alta também é contrabalanceada pela apreciação cambial decorrente do maior superávit comercial, além dos juros mais restritivos.
A alta nos preços do petróleo igualmente afeta a arrecadação federal, ao elevar os ganhos com royalties e participações especiais pagas pelas companhias exploradoras e os tributos recolhidos sobre o lucro das empresas da cadeia de produção, refino e distribuição de petróleo e derivados. Há ainda um impacto indireto em outras receitas, cuja base tributária possa se alterar em razão da mudança no preço da commodity.
A Agência Eixo, especializada em petróleo, gás e energia, destaca o aumento de custos provocado pela morosidade do embarque em meio à disparada dos preços do diesel e da gasolina por conta da guerra no Oriente Médio. A diária perdida com navios parados à espera do desembarque adiciona um custo oculto na importação de combustível, não explicitado no frete. No caso do diesel, o tempo de desembarque das cargas importadas pode dificultar a chegada do combustível ao Centro-Oeste, preocupação adicional para o agronegócio.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou a jornalistas que segue a orientação do presidente Lula de minimizar o efeito da guerra no País. A adesão dos governadores ao subsídio na importação de diesel contribui para arrefecer a pressão altista do combustível. O governo taxou a exportação de petróleo para evitar o risco de desabastecimento interno, mas a decisão foi barrada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que negou o pedido da União “sem entrar na discussão”, sublinhou Durigan, que promete recorrer ao próprio tribunal ou mesmo ao STJ e ao STF, se necessário.
Os efeitos das privatizações predadoras de Bolsonaro ficaram ainda mais evidentes na crise. A Refinaria Landulpho Alves, na Bahia, privatizada no governo anterior, impôs alta de 87% no diesel, enquanto a Petrobras reajustou em 12%, segundo o Ministério de Minas e Energia. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Escudo à crise’
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