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Irã e Estados Unidos não avançam na negociação de paz e ameaçam levar o conflito à estaca zero

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Inflexíveis. O presidente dos EUA rejeitou a mais recente proposta iraniana. Ghalibaf insiste, por seu lado nos 14 pontos. “Não há alternativa”, afirmou – Imagem: Andrew Caballero-Reynolds/AFP e ICANA/AFP
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Irã e Estados Unidos chegaram a um impasse insolúvel nas negociações. Depois de muitas idas e vindas, bravatas superlativas, ameaças e ­memes de internet, as duas partes parecem ter chegado à conclusão de que é melhor manter a guerra em fogo baixo do que ceder.

A principal desavença diz respeito ao programa atômico iraniano. Teerã não abre mão de sua capacidade nuclear, porque seu pior inimigo no Oriente Médio, Israel, tem bombas atômicas, não aceita inspeções internacionais e mantém uma ofensiva retórica e militar irrefreável. Do lado contrário, os Estados Unidos e Israel não aceitam que os iranianos mexam com urânio porque consideram que os aiatolás e os integrantes da Guarda Revolucionária têm a ideia fixa de desenvolver uma bomba atômica para cumprir a alardeada promessa de varrer Israel do mapa.

O impasse não é novo. O programa atômico do Irã nasceu nos anos 1950, impulsionado justamente pelos Estados Unidos e sua antiga iniciativa diplomática chamada “Átomos para a Paz”. Tudo mudou em 1979, quando os aiatolás tomaram o poder, defenestrando o chá Reza Pahlevi e estabelecendo no país uma democracia tão precária que pode ser chamada de ditadura, especialmente pelo fato de que nenhum candidato pode concorrer à presidência sem a anuência de um colégio de clérigos e do líder supremo. Com o poder nas mãos, os aiatolás tomaram para si o programa atômico, que, de ferramenta de diplomacia norte-americana, passou a ser motivo de temor existencial em boa parte do Ocidente.

A negociação rumo ao fracasso de agora é uma tentativa canhestra de remendar uma jogada desastrosa de Donald Trump em 2018, ainda no primeiro mandato, quando extinguiu o único acordo que mantinha o programa atômico do Irã sob controle e inspeção internacionais. O chamado JCPOA (sigla em inglês para o Plano de Ação Conjunta Global), criado em 2015 por Barack Obama e um grupo de líderes europeus, foi rompido por Trump, que só deixou sobre a mesa a cartada da guerra. Os EUA e Israel bombardearam as instalações atômicas iranianas em 2025 e, novamente, em 2026. Em nenhuma das duas ocasiões conseguiram capturar o urânio, o que, na prática, coloca a situação num estágio mais degradado do que aquele do acordo firmado em 2015.

O que Trump tenta fazer é voltar no tempo. A seis meses de uma perigosa eleição de meio de mandato e com sua popularidade no nível mais baixo, o presidente dos Estados Unidos busca de todas as formas fazer a pasta voltar para dentro do tubo, como dizia Dilma Rousseff. Só que o mundo mudou, e o Irã que, em 2015, aceitava conter seu programa atômico, hoje pensa que, sem a possibilidade­ de desenvolver uma bomba nuclear, talvez fique à mercê justamente do que norte-americanos e israelenses têm feito: bombardear a estrutura civil à exaustão, pressionando pelo fim do regime.

Nos últimos dias, Trump empurrou um acordo maximalista, com cara de ordem de capitulação ao Irã, que respondeu com uma contraproposta de 14 pontos. Os dois países estão com um cessar-fogo declarado desde 8 de abril, mas, na prática, ambos incorrem em atos que, tecnicamente, configuram uma guerra ininterrupta. O Estreito de Ormuz segue bloqueado, com iranianos e norte-americanos realizando ações armadas na zona por onde, antes, passava 20% do petróleo mundial. “Não há alternativa a não ser aceitar os direitos do povo iraniano tal como estão expostos na proposta de 14 pontos. Qualquer outra abordagem será infrutífera e resultará em um fracasso após o outro”, disse o presidente do Parlamento do Irã, ­Mohammad Bagher Ghalibaf, ex-integrante da Guarda Revolucionária, que assumiu a linha de frente das negociações, colocando para escanteio o presidente Massoud ­Pezeshkian, tido por fontes, entre elas o ex-embaixador do Brasil em Teerã Eduardo Gradilone Neto, como mais moderado.

O programa nuclear iraniano continua no centro das desavenças

A postura inflexível de Ghalibaf encontra, do lado oposto, um Trump também irredutível. O presidente norte-americano disse que nem chegou a ler os 14 pontos oferecidos pelo Irã até o fim. Ele afirmou ainda que essa proposta está quase morta, na UTI, e é “totalmente inaceitável”.

Um dos pontos de fricção diz respeito a um sócio oculto nessa negociação, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que não abre mão da ambição de capturar o urânio iraniano. Além disso, as tropas israelenses atacam, invadem e ocupam terras que não são suas, no sul do Líbano, onde combatem o grupo xiita Hezbollah, sabidamente um satélite iraniano na fronteira norte de Israel. Para selar a paz e abrir o estreito, o Irã exige que Israel pare de atacar o Hezbollah e recue da ocupação, dois pontos inegociáveis para um Netanyahu que acredita viver um bom momento bélico.

Enquanto os líderes dos três países empacam nas negociações, suas populações arcam com as consequências. Nos Estados Unidos, o que preocupa é o aumento no preço dos combustíveis. No Irã, a carestia provocada pela guerra e, antes disso, pelo longo bloqueio econômico, que impõe uma situação de penúria a boa parte da população.

Trump teme o efeito nas eleições de meio de mandato. A popularidade em queda e as críticas de antigos aliados são sinais de que os republicanos podem colher um mau resultado nas urnas. Se perderem a maioria na Câmara e no Senado, a ameaça de um novo processo de ­impeachment contra ele toma forma no horizonte.

Já no Irã, o temor é de que as privações alimentem uma revolta popular que pressione existencialmente o regime. Além da seca com a qual o país persa lidava antes da guerra, agora há um problema severo ligado aos cortes de eletricidade. Em Teerã­, as repartições públicas tiveram ordem de reduzir o consumo de energia em 30% no horário comercial e em 70% em outros horários. O país também está com problemas estruturais no sinal de internet, o que provoca impacto de entre 30 milhões e 40 milhões de dólares na economia local.

Diante do impasse, até o Brasil passou a falar na possibilidade de ressuscitar um acordo de 2010, segundo o qual o Irã entregaria o urânio para ser enriquecido no exterior, em porcentuais que só permitissem o uso civil. O presidente Lula afirmou ter dado uma cópia do texto do acordo a Trump na Casa Branca no encontro de 7 de maio, enquanto o assessor para assuntos internacionais, Celso Amorim, discutiu o tema em Istambul, na Turquia, em um encontro informal com os ex-chanceleres turco e iraniano que participaram dessa articulação 16 anos atrás. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Empacados’

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