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Economistas mapeiam guerra tecnológica EUA versus China

Economia

A prisão no Canadá, a mando dos Estados Unidos, de Meng Whanzou, diretora financeira e filha do fundador da Huawei, da China, a maior empresa de telecomunicações e maior fabricante de celulares do mundo, por suspeita de venda de equipamento ao Irã mostrou o quanto o embate tecnológico está no coração da disputa entre das duas potências, concordam vários analistas.

A ação da polícia estadunidense, preparada ao que tudo indica para causar grande impacto nas mídias e nos mercados, mostra o acirramento de uma competição concentrada cada vez mais na produção e desenvolvimento de semicondutores, componentes eletrônicos fabricados principalmente com silício e que integram a maior parte dos circuitos eletrônicos presentes em uma infinidade de produtos de consumo, equipamentos industriais e armamentos.

A disputa pela produção de semicondutores está no coração da briga Estados Unidos versus China por serem cruciais para o aumento do poderio econômico e militar, mostra trabalho publicado por dois economistas brasileiros no começo do ano.

“A política industrial chinesa na geopolítica na era da informação: o caso dos semicondutores”, de Esther Majerowicz, professora-adjunta do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Carlos Aguiar de Medeiros, professor associado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um mapa para a compreensão do tema e saiu na Revista de Economia Contemporânea da UFRJ.

O assunto foi estampado também na capa da última edição de novembro da revista inglesa The Economist sob um título que em português seria “A guerra dos chips: Estados Unidos, China e a supremacia do silício”.

A prisão da executiva ocorreu no interior de um avião no mesmo dia da trégua comercial de 90 dias na disputa tarifária entre os dois países decidida por Trump e Xi Jinping na reunião do G20 em Buenos Aires.

A intensa repercussão internacional da ação policial que foi divulgada só na quinta-feira 6 disputou a atenção dos estadunidenses cada vez mais voltada para a sobretaxação de importações da China, que encarece produtos de consumo e reduz empregos e a possível intimação de Trump para depor no Congresso frente a várias acusações.

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Nos últimos anos, apontam Majerowicz e Medeiros, a China tornou-se  o principal mercado de consumo mundial de semicondutores, particularmente para circuitos integrados, em sintonia com sua consolidação como o principal produtor e exportador de eletrônicos.

No entanto, prosseguem os economistas, a produção local de semicondutores e as capacidades tecnológicas chinesas na área ainda estão significativamente atrasadas em relação ao seu consumo e à fronteira tecnológica, criando obstáculos para o desenvolvimento de bens de alta tecnologia baseados na China.

Em 2016, os EUA detinham 8 das 20 maiores empresas de semicondutores em receita de vendas, incluindo a líder mundial Intel.

Japão, Europa e Taiwan tinham três cada (a taiwanesa TSMC como a terceira colocada). A Coréia duas (Samsung na segunda posição) e Cingapura tinha uma.

Apesar de a China não ter nenhum fabricante de grande porte, tornou-se o principal mercado de consumo, representando 60,6% do mercado global em 2016 e a maior base de montagem de semicondutores, o estágio de menor valor agregado.

Quando se consideram apenas as vendas de dispositivos semicondutores finais, as empresas sediadas na China detinham só 5% do mercado mundial em 2016.

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“Os Estados Unidos condescendem amplamente com as políticas industriais do Japão e de Coréia e Taiwan, contando com a abertura unilateral e a transferência tecnológica do mercado estadunidense, para sua aliança e papel geopolítico como bases para a contenção militar da maior potência mundial na região. Desde 1989, limitam as exportações de pequenas e médias empresas para o país oriental pelo menos duas gerações atrás do estado-da-arte dos próprios EUA. Taiwan, por exemplo, conteve severamente o escopo das atividades de empresas de semicondutores e de cidadãos taiwaneses no continente. Devido à importância do mercado continental, afrouxou cada vez mais, no entanto, as restrições, enquanto a concorrência global tornou os controles de exportação dos EUA contornados por aquisições da Europa e do Japão”, explicam os economistas.

A verdade é que empresas estrangeiras capturaram a maior parte do crescimento do mercado de consumo de semicondutores da China, sublinham Majerowicz e Medeiros. Em 2014, todos os 10 principais fornecedores do mercado da China eram estrangeiros: Intel, Samsung, SK Hynix, Qualcomm, Toshiba, Texas Instruments, STMicroelectronics, AMD, Freescale e Renesas.

A executiva Whanzou ao lado de Putin (Foto: Wikimedia)

“A ambição da China de ter uma indústria de semicondutores de classe mundial e os vastos fundos e múltiplas ferramentas mobilizadas para isso representam uma ameaça econômica e militar para os EUA e os principais atores.

Se a China adquirir uma participação de mercado dominante, é improvável que as ameaças comerciais dos EUA sejam efetivas para desarmar sua política industrial e reprimir sua indústria, pois a China é o maior mercado de semicondutores e o maior fornecedor dos Estados Unidos”, destacam os autores do trabalho.

A China identificou o problema da produção insuficiente de circuitos integrados como o obstáculo crítico para recuperar o atraso e avançar em uma ampla gama de indústrias líderes.

O programa estratégico Made in China  2025 estabeleceu metas de autossuficiência de 40% para 2020 e de 70% em 2025.

A meta é alcançar um nível internacional avançado nos principais estágios da indústria de circuitos integrados até 2030. “Os objetivos, no entanto, são muito menos ambiciosos em equipamentos e materiais, o setor de upstream, que é o segmento mais atrasado da China, o mais difícil de entrar e ainda o mais fundamental para controlar o ritmo do progresso tecnológico. Na produção de máquinas de fabricação de semicondutores, apenas os EUA, o Japão e a Europa são players globais importantes”, dizem Majerowicz e Medeiros. Sem o setor de upstream, a China será “incapaz de captar o poder de decisão do setor”.

A China criou grandes fundos de investimento público e privado, com previsão de atingir 150 bilhões de dólares na próxima década, que serviram entre outros objetivos para uma busca agressiva por aquisições estrangeiras com o fim de obter tecnologia crítica.

Esse caminho foi rapidamente bloqueado nos EUA, na Coreia, em Taiwan e cada vez mais na União Europeia e no Japão, este último sob forte pressão dos EUA.

“O bloqueio não pode impedir a importação de tecnologia. Algumas empresas desenvolveram estratégias sofisticadas para adquirir tecnologia crítica, enquanto várias companhias globais líderes apostam no sucesso das políticas chinesas: na verdade, os EUA e outras empresas estrangeiras são bastante explícitas quanto a que podem aderir às demandas chinesas, transferir tecnologia e formar joint ventures se elas puderem expandir ou pelo menos sustentar sua fatia no mercado da China ”, analisam Majerowicz e Medeiros.

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Editor da revista CartaCapital

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