Economia
Do boi à bala
Os irmãos Batista incorporam a Avibras e garantem o controle nacional
A presença inédita, no debate eleitoral, de discussões sobre a necessidade de reforçar a indústria de defesa e o fato de 58% da população temer uma invasão dos Estados Unidos semelhante àquela ocorrida na Venezuela reforçam a percepção de que a recuperação da Avibras, a maior empresa do setor, não é um fato trivial. A sua aquisição pelo grupo J&F, além de possibilitar a recomposição da saúde financeira, evitou que uma companhia estratégica fosse parar nas mãos de estrangeiros e manteve a tecnologia bélica sob controle nacional. Os irmãos Batista, que começaram a carreira em frigoríficos, venceram a concorrência, entre outras, da australiana DefendTex, da chinesa Norinco e da saudita Blackstone. “A indústria de defesa sempre foi minha área de pesquisa e nunca vi discutirem esse setor em debate eleitoral, mas agora você liga a televisão e sempre há economistas e especialistas em relações internacionais debatendo o assunto. Isso se tornou recorrente e todos os dias o governo estadunidense faz a gente não esquecer que esse tema é importante”, afirma o economista Marcos Barbieri, coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp.
Preso ao garrote fiscal, o governo hesitou em bancar a estatização da Avibras, mas estimulou a permanência da empresa sob controle nacional. Desde a intervenção militar e a captura de Nicolás Maduro pelos EUA, em janeiro, o presidente Lula intensificou o discurso de que os investimentos em segurança e nas Forças Armadas devem ser tratados como prioridade estratégica, sem depender de sobras orçamentárias. O vice-presidente Geraldo Alckmin liderou entendimentos com o setor produtivo, sindicatos e o Ministério da Defesa para viabilizar as encomendas do Exército, enquanto o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, apresentou na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei para garantir a desapropriação e nacionalização da empresa, com o objetivo de proteger a tecnologia bélica nacional do controle externo, além de ter atuado como interlocutor nas conversas com lideranças sindicais. “Não dá para falar que aconteceu com a Avibras no atual governo o que ocorreu com a Embraer nos governos Temer e Bolsonaro, que se empenharam em vendê-la para a Boeing ou, no mínimo, deram sinal verde”, sublinha Barbieri. No mês passado, Lula visitou a fábrica da companhia em Jacareí, no interior paulista, para assinalar a retomada oficial das operações após um longo período de crise financeira.
Diante das ameaças à soberania, a segurança nacional entra na pauta da campanha eleitoral
A recuperação da companhia permite reativar mercados tradicionais e negociações com parceiros históricos, entre eles a Arábia Saudita e a Indonésia. A retomada de atividades da principal fabricante de foguetes e veículos blindados da América Latina também tende a modificar a repartição do mercado de equipamentos para países que buscam alternativas além da Otan ou da Ásia. A consolidação do controle brasileiro eliminou o risco de a propriedade intelectual sensível e as patentes aeroespaciais caírem nas mãos de concorrentes globais asiáticos ou ocidentais que estavam de olho na crise da empresa.
O principal produto da Avibras é o Astros, sistema de artilharia de lançadores múltiplos de foguetes e mísseis de longo alcance, de grande relevância e apuro técnico, instalado em veículos especiais. Na década de 1980, o Astros alcançou reconhecimento internacional com exportações para o Iraque e a Arábia Saudita, entre outros países do Oriente Médio. É considerada a arma de fogo de artilharia de saturação e longo alcance mais importante do Exército brasileiro, e recebe atualizações constantes para a versão moderna Astros 2020, segundo o site Defesa Aérea Naval. A empresa produz ainda mísseis e foguetes, como o tático de cruzeiro MTC-300 e a família Skyfire. E desenvolve propelentes sólidos e veículos especiais e blindados de transporte. Em 2009, fabricou, em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, o drone Falcão, para missões de vigilância, reconhecimento e patrulhamento de fronteiras. Os planos de retomada e os projetos estratégicos da Avibras incluem a criação de um portfólio de drones, mais baratos que os mísseis e que possibilitam o aumento da vigilância do terreno onde ocorrem os conflitos.
Expertise. Os mísseis de longo alcance da Avibras disputam mercados na Ásia e no Oriente Médio. Mas a demanda interna também precisa aumentar no futuro – Imagem: Nelson Almeida/AFP
É preciso conferir se as ameaças à soberania, disparadas pelo governo Trump, farão elevar a proporção ínfima de recursos destinados à defesa no País. De 2003, no primeiro governo Lula, a 2020, o Brasil desembolsou, em média, 1,4% do PIB, mas o gasto passou a cair e hoje gira em torno de 1,1%. A média mundial aumentou de 2,2% para 2,5% desde o início da guerra na Ucrânia.
Outras empresas do setor não tiveram o destino da Avibras. A conceituada Akaer, de engenharia aeroespacial e defesa, que participou de projetos como o caça Gripen e o cargueiro KC-390, foi vendida ao conglomerado estatal de defesa EDGE, dos Emirados Árabes Unidos. A Mectron, pioneira no desenvolvimento de mísseis como o Piranha e de radares, foi comprada pela Odebrecht em 2011 e, após a Lava Jato, teve seus ativos tecnológicos e de comunicação militar adquiridos pela israelense Elbit Systems. A SIATT, focada em armas inteligentes e mísseis, foi comprada pelo EDGE. Sem encomendas internas e com o orçamento do Estado comprimido pela austeridade fiscal, foram todas entregues a preços de liquidação ao capital estrangeiro. “A volta da Avibras é uma grande vitória para o Brasil. Todos sabem que os Estados Unidos, em especial, estão de olho nas terras-raras. A produção da empresa é importante para defender nossas fronteiras, a Amazônia e para nossa soberania nacional”, ressalta Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. O dirigente sublinha a participação intensa do sindicato na construção do plano alternativo que possibilitou a retomada da empresa. “O sindicato sempre teve posicionamento contrário à entrega da Avibras ao capital estrangeiro e defendeu a estatização. Agora, pensamos que é melhor ela ficar nas mãos do capital privado nacional do que sob o controle estrangeiro. No atual cenário geopolítico internacional, ter a Avibras é uma grande vitória, e os trabalhadores receberem os salários atrasados também é muito importante para a região do Vale do Paraíba, porque gera emprego e renda”, resume. O sindicato teve papel decisivo para impedir o fechamento da companhia. A entidade coordenou uma greve dos trabalhadores durante mais de três anos e meio, fundamental para manter viva a ideia da retomada da produção.
Nas últimas décadas, o capital estrangeiro avançou na aquisição de empresas do setor
O contrato de aquisição foi assinado pela Globe Investimentos, dos empresários Joesley e Wesley Batista. O negócio envolveu a compra da totalidade do controle da AVB S.A., atual proprietária da Avibras Aeroco, pertencente ao fundo Brasil Crédito. A operação foi submetida ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica e ainda depende da aprovação do órgão. Cerca de 600 trabalhadores voltaram ao trabalho. O número tende a passar de mil funcionários quando a produção for retomada, possivelmente até o fim do ano. •
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Do boi à bala’
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