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Destino manifesto

Os desvarios incrustados na história do Irmão do Norte desmentem a excepcionalidade das proezas de Trump

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Em livro de 2002, o embaixador Lincoln Gordon confidenciou que discutiu a deposição de Jango com o presidente John Kennedy – Imagem: Correio da Manhã/Arquivo Nacional e Cecil Stoughton/Fundação Kennedy
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Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa norte-americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação”, advertiu o editorial do New York Times, em 3 de janeiro. “Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam­ a afetar os EUA e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os EUA, de forma esporádica, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentarem derrubar governos pela força.”

Uma caminhada pelos desvarios incrustados na história do Irmão do Norte traria informações que desmentem a excepcionalidade das proezas de Donald Trump e seus asseclas. No artigo American­ Exceptionalism (Oxford ­University Press, 2017), Daniel ­Deudney e Jeffrey Meiser desvendam as origens da autolouvação norte-americana que invoca o caráter único e superior de sua posição no âmbito dos Estados Nacionais. “Desde a sua fundação, há quase um quarto de milênio, os Estados Unidos da América se consideram e são amplamente percebidos como excepcionais.”

Os autores discorrem sobre os movimentos contraditórios da afirmação desse excepcionalismo ao longo da história: “Na política norte-americana e mundial contemporânea, o ‘excepcionalismo norte-americano’ significa coisas diferentes para as pessoas e os países. Para alguns é uma visão, para outros, uma farsa e, para outros, um pesadelo. Para alguns norte-americanos, particularmente neoconservadores recentes, intoxicados de poder, a excepcionalidade norte-americana é uma luz verde, uma justificativa e uma desculpa para todos os fins, para ignorar a lei internacional e a opinião pública mundial, para invadir outros países e impor governos”.

Esse excepcionalismo é constantemente reafirmado. Desde o século XIX, a política externa dos EUA segue os cânones da Doutrina Monroe, resumida na célebre frase do presidente James ­Monroe, em 2 de dezembro de 1823, durante um discurso no Capitólio: “A América para os americanos”.

As incursões imperiais dos EUA têm vida longa. Vamos relembrar a tragédia brasileira deflagrada pelos esgares desse excepcionalismo. A imprensa brasileira noticiou, em 2014, a “descoberta” de uma gravação reveladora. Nos idos dos anos 60 do século XX, o presidente John Kennedy­ gravou a conversa com o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon. Kennedy perguntou a Gordon se os EUA poderiam “intervir militarmente” no Brasil para depor João Goulart. Às vésperas do famigerado golpe de Estado de 1964, surgiu um slogan premonitório: “Basta de intermediários, Lincoln Gordon para presidente”.

No livro Brazil and the Quiet ­Intervention: 1964 (University of Texas Press, 1979), o historiador Phillys Parker aponta as manobras golpistas patrocinadas pelo diplomata norte-americano: “O embaixador Lincoln Gordon e outros oficiais dos EUA sugeriram que a destituição de Goulart salvou a democracia no Brasil ao confrontar elementos subversivos crescentes no governo e na sociedade e ao impedir que Goulart executasse seu próprio golpe de esquerda para obter poderes ditatoriais… Mesmo após revelações recentes sobre a CIA, ainda é difícil para as pessoas entenderem o quão grande e sinistra é a organização”.

Os latino-americanos conhecem bem os golpes “democráticos” promovidos pelos EUA

Em seu livro A Segunda Chance do Brasil: A Caminho do Primeiro ­Mundo (Senac São Paulo, 2002), Gordon relata um encontro com Kennedy em ­Washington: “Durante a reunião na Casa Branca, eu alertei o presidente sobre a possibilidade de algum tipo de ação pelos militares brasileiros e ele perguntou qual deveria ser nossa atitude”. Depois de tergiversar, enrolar com considerações a respeito da admiração de Goulart pelo líder norte-americano, Gordon foi ao que interessava e concluiu: “O mais importante é ao mesmo tempo organizar as forças tanto políticas quanto militares para reduzir o poder de Goulart (…) ou, em uma situação extrema, destituí-lo, se as coisas chegarem a esse ponto, o que dependeria de uma ação explícita de sua parte”.

Gordon conspirava abertamente com as “forças democráticas” nativas, aquelas que estão permanentemente arquitetando a supressão da democracia. Da conspirata participavam naturalmente os homens de bem: ricos de todos os gêneros, parte da classe média ilustrada, semi-ilustrada e desilustrada. Até mesmo os habitantes de outras galáxias sabiam que senhores da mídia tupiniquim estavam metidos até a raiz dos cabelos nas conversações e maquinações conspiratórias articuladas por Gordon.

Segue o enterro: a situação política, continua Gordon, “me levou a endossar a sugestão da CIA de que fornecesse dinheiro a candidatos amigáveis”. Para tanto, a agência norte-americana de espionagem e informação valeu-se do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), criado em 1959 por um certo Ivan Hasslocher com o propósito de combater o governo Juscelino ­Kubitschek, apresentado como “um perigoso aliado do comunismo internacional”.

Vou recorrer ao testemunho de ­Philip Agee, um ex-agente secreto: “Quando entrei na CIA, acreditava na necessidade de sua existência. Depois de 12 anos na agência, finalmente entendi o quanto ela promovia o sofrimento: milhões de pessoas em todo o mundo haviam sido mortas ou tiveram suas vidas destruídas pela CIA. Mesmo após revelações recentes sobre a CIA, ainda é difícil para as pessoas entenderem o quão grande e sinistra é a organização”.

Os EUA já haviam patrocinado a deposição de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, e haviam instigado a queda de Juan Domingo Perón, em 1955, na Argentina. O resto da história os brasileiros maiores de 70 anos sabem: duas décadas de ditadura, cevada e sustentada pelo Departamento de Estado dos EUA. Está mais do que provado, há tempos, que a participação da CIA e de outras agências norte-americanas no golpe foi decisiva.

Por mais de 80 anos, a autoridade moral dos EUA baseou-se na alegação de que estavam do lado da democracia. Essa alegação foi frequentemente desmentida pela agressão norte-americana, que fortaleceu ditadores na América Latina na década de 1970. A Operação Condor instalou Augusto­ Pinochet no Chile e Jorge Rafael Videla na Argentina. No início do século XXI, a “democracia” de Washington vergastou a soberania do Afeganistão e do Iraque, simulando aparência de legitimidade. •

Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Destino manifesto’

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