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Colonialismo verde

Apesar da retórica ambiental, o acordo preserva privilégios dos europeus e desloca custos ambientais ao Sul Global

Colonialismo verde
Colonialismo verde
Greenwashing. A importação de commodities “verdes” ou “certificadas” não elimina os danos nos territórios de origem – Imagem: iStockphoto
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O acordo entre o Mercosul e a União Europeia, depois de 25 anos de negociações, está agora sendo apresentado como um pacto comercial moderno, capaz de inserir a América do Sul nas cadeias globais de valor e de promover padrões mais elevados de sustentabilidade ambiental. No entanto, quando analisado à luz do momento em que vivemos, da crise ecológica global e das desigualdades históricas entre centro e periferia do sistema capitalista, vemos que não é bem assim. Na realidade, o acordo revela-se menos uma parceria e mais a atualização de uma velha engrenagem de dependência, agora revestida por uma retórica verde.

As negociações nasceram em um contexto marcado pela hegemonia neoliberal, pela crença na liberdade irrestrita do comércio e pela ideia de que o crescimento econômico, por si só, seria capaz de gerar bem-estar social e proteção ambiental. Desde então, o mundo mudou profundamente. A crise financeira de 2008 expôs a instabilidade estrutural do capitalismo global. A emergência climática tornou-se inegável. Pandemias, guerras e disputas geopolíticas reconfiguraram fluxos econômicos. A própria União Europeia passou a adotar políticas industriais e protecionistas que contradizem o discurso de livre comércio que ela impõe aos países do Sul global.

Persistir em um acordo concebido sob aquelas bases é ignorar essas transformações. Mais que isso, é comprometer a capacidade dos países do Mercosul de enfrentar os desafios do século XXI, especialmente no que diz respeito à crise ambiental, à soberania alimentar, à justiça climática e à preservação dos territórios onde vivem povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e trabalhadores rurais sem-terra.

Os termos, construídos durante governos alinhados a agendas ultraliberais, cristalizam uma divisão internacional do trabalho profundamente desigual. Ao Mercosul cabe o papel de exportador de commodities agrícolas, minerais e energéticas. À Europa, a produção de bens industriais de alto valor agregado, tecnologia e serviços avançados. Essa assimetria não é um efeito colateral do acordo: ela é seu núcleo estruturante. Trata-se de uma lógica neocolonial que aprofunda a dependência econômica e bloqueia qualquer estratégia consistente de desenvolvimento soberano.

Do ponto de vista ambiental, as consequências desse desenho são particularmente graves. A ampliação das exportações de carne, soja, milho, açúcar, celulose e minérios implica a intensificação do desmatamento, da grilagem de terras, do uso massivo de agrotóxicos e da contaminação de solos e águas. Na Amazônia, no Cerrado e no Chaco, o avanço da fronteira agroextrativista já se traduz em perda acelerada de biodiversidade, aumento de conflitos territoriais e violências contra povos indígenas e comunidades tradicionais. O acordo, longe de frear esse processo, tende a acelerá-lo.

A retórica ambiental incorporada ao tratado nas cláusulas de “desenvolvimento sustentável” não altera essa realidade. Ao contrário, funciona como uma camada discursiva que busca legitimar um modelo estruturalmente insustentável. A chamada “condicionalidade ambiental” proposta pela UE transfere aos países do Mercosul a responsabilidade de garantir padrões ambientais sem oferecer os meios econômicos, tecnológicos e políticos necessários para isso. Mais grave ainda, ignora as responsabilidades históricas do Norte Global pela crise climática.

A Europa manterá seus padrões de consumo e sua base industrial à custa da intensificação do extrativismo em nações subdesenvolvidas

Estamos diante de uma nova forma de colonialidade: a colonialidade verde. A Europa preserva seus padrões de consumo, sua base industrial e sua transição energética à custa da intensificação do extrativismo no Sul. A importação de commodities “verdes” ou “certificadas” não elimina os impactos ambientais ­reais nos territórios de origem, apenas os torna invisíveis para o consumidor europeu. Florestas convertidas em pastagens, rios contaminados pela mineração e comunidades expulsas de seus territórios não desaparecem porque um produto carrega um selo de sustentabilidade.

Além disso, o acordo restringe severamente o espaço de políticas públicas nos países do Mercosul. Ao limitar instrumentos de apoio à indústria nacional, à inovação tecnológica e à agricultura familiar, o tratado inviabiliza a construção de alternativas econômicas baseadas na diversificação produtiva, na agregação de valor local e na transição ecológica justa. O resultado é a consolidação de economias primário-exportadoras.

A agricultura familiar, os sistemas agroecológicos e as economias territoriais são particularmente ameaçados. A concorrência com produtos europeus subsidiados, combinada à pressão por expansão do agronegócio exportador, tende a marginalizar ainda mais esses modos de produção, apesar de serem justamente eles os mais alinhados com a preservação ambiental.

O problema central não está, porém, em cláusulas específicas do tratado, mas na lógica que o sustenta. O acordo Mercosul-UE parte do pressuposto de que é possível compatibilizar livre comércio, crescimento ilimitado e proteção ambiental. Essa premissa já se mostrou falsa. A expansão contínua da produção e do consumo, especialmente nos padrões do Norte Global, é incompatível com a estabilidade climática e ecológica. As tentativas recentes de “redução de danos”, como anexos ambientais ou declarações interpretativas, não alteram a essência do tratado. Elas funcionam como remendos em uma arquitetura estruturalmente comprometida com a reprodução do modelo extrativista.

Ainda há tempo de escapar, como observa a Rede Brasileira de Integração dos Povos (rebrip.org). Isso não significa rejeitar qualquer forma de relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia, mas reconhecer que uma verdadeira parceria precisa ser construída sobre outras bases. Cooperação tecnológica para energias renováveis, apoio à industrialização sustentável, fortalecimento da agricultura familiar, proteção efetiva dos territórios indígenas e tradicionais e reconhecimento das dívidas ecológicas históricas deveriam estar no centro de qualquer novo acordo.

Mais que um tratado comercial, o que está em jogo é a disputa entre projetos civilizatórios. De um lado, a continuidade de um capitalismo que preserva privilégios e desloca custos ambientais. De outro, a possibilidade de construir relações internacionais baseadas na solidariedade, na justiça ambiental e na defesa da vida. Superar o acordo Mercosul-UE, tal como está posto, é um passo necessário para abrir caminho a esta segunda opção. •


Adilson Vieira é sociólogo, coordenador de articulação e parcerias da Rede de Trabalho Amazônico (GTA) e membro do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Amazônico (IPDA). Pedro Ivo Batista é coordenador nacional do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS).

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Colonialismo verde’

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