Classe média brasileira não cresce há 40 anos, aponta estudo

O entrave à ascensão social se estabeleceu nos anos 1980, com a crise 'pós-milagre econômico' no País

Falta mobilidade social. Foto: iStock

Falta mobilidade social. Foto: iStock

Economia

Decisiva na política e na economia, a chamada classe média, alvo de atenções em períodos eleitorais, quase não aumentou de tamanho em relação à população total nos últimos 40 anos, um “congelamento” que retrata o fracasso do País em trilhar o caminho de todos os que conseguiram se desenvolver, processo que passa necessariamente pela ampliação dessa camada da sociedade.

Para piorar, a estagnação da economia desde 2015 bloqueou as oportunidades de trabalho para os segmentos menos favorecidos que, entre 2004 e 2014, buscavam ascender socialmente por meio do ensino superior, seja com a utilização de programas do governo como o ProUni e o Fies, de apoio ao ingresso em faculdades privadas, seja por meio da matrícula em universidades públicas, em especial nas federais, que se multiplicaram de modo significativo no governo Lula.

Essas considerações partem de um estudo inédito do economista Waldir Quadros, professor da Facamp, de Campinas, e docente aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, sobre a mobilidade social da classe média.

Uma das características mais marcantes da fase de progresso social que vigorou naquele período de dez anos foi o elevado dinamismo e a mobilidade social ascendente entre as camadas populares, mas esse dinamismo revela um claro limite, uma vez que o canal de acesso à “média classe média” torna-se bastante estreito, ainda mais restrito no que se refere à “alta classe média”, expõe Quadros, autor de vários estudos sobre a mobilidade das classes menos favorecidas.

Em 1981, diz, a “alta classe média” abrangia 8,3% de uma população de 118,4 milhões de habitantes, totalizando 9,9 milhões. Em 2014, alcançou apenas 9,1% de 203,2 milhões, ou 18,5 milhões de indivíduos. Isso ocorreu no auge da mobilidade recente, destaca o economista. A “média classe média”, em 1981, englobava 13,2% e totalizava 15,6 milhões. Em 2014, era 14,8% e 30,2 milhões. “Agregando as duas camadas de classe média, estamos falando de um segmento bastante restrito de 21,5% e 25,5 milhões em 1981, e de 24% e 48,7 milhões em 2014”, sublinha.

“Quando o País funciona, a desigualdade faz parte e a classe média é beneficiada, ela não se abala, encontra empregada doméstica barata, pedreiro barato, todo tipo de serviçal barato. A desigualdade nunca foi preocupação da classe média, exceto em segmentos politizados. Aos entraves estruturais da mobilidade social dessa classe sobrepõem-se agora, na pandemia, os problemas de confiança nos rumos do País, custo de vida, escola dos filhos caríssima, medo de gastar, de perder o emprego e ficar desempregado por tempo indefinido, de contrair a Covid-19 e não encontrar vaga em hospital e UTI, receio de morrer.”

O pesquisador continua: “A dificuldade de ingressar na classe média é um fenômeno que se instala nos anos 1980 com a crise do ‘milagre econômico’ dos anos 1970. Isso decorre fundamentalmente do processo de desindustrialização e da ausência de progresso técnico sistêmico, pois é precisamente o desenvolvimento do sistema industrial e suas amplas conexões que criam oportunidades de melhor qualificação e remuneração ocupadas pela classe média”.

Destacam-se, nesse processo, a diminuição drástica da participação da indústria de transformação nas ocupações, de 23% do total de indivíduos da classe média em 1981 para 10,5% em 2014. A ocupação em serviços especializados prestados a empresas aumentou de 7,9% para 15,6% no mesmo período.

O estudo considera, com base na Pnad-Contínua trimestral do IBGE, a existência, dois anos atrás, de 6,34 milhões de ocupados da “alta classe média” e ricos, o equivalente a 6,7% do total, com renda média de 12,02 mil reais, 12,63 milhões de integrantes da “média classe média”, ou 13,3% do conjunto, com renda média de 3,81 mil reais, e 39,12 milhões de pobres intermediários ou 41,3%, com renda média de 1,72 mil reais, além de 24,62 milhões de pobres, que perfazem 26% do total e têm renda média de 934 reais, e 11,94 milhões de miseráveis, 12,6% do total, com renda de 316 reais, a preços de outubro de 2019. “É importante notar que são valores declarados, servem para a estratificação, mas não refletem a realidade e o poder aquisitivo”, ressalva.

Os profissionais de nível superior, a exemplo de médicos, engenheiros, professores universitários e pequenos e médios empresários, são representativos da “alta classe média”. A “média classe média” inclui gerentes, professores de segundo grau, supervisores e técnicos especializados. Na camada de pobres intermediários, ou baixa classe média, estão professores do ensino fundamental, auxiliares de enfermagem e auxiliares de escritório. Os miseráveis foram definidos como aqueles que ganhavam menos de um salário mínimo, piso constitucional. Os pobres são aqueles situados entre as duas últimas camadas.

Examinar a classe média, diz Quadros, justifica-se em sociedades profundamente fraturadas como o Brasil. “Aqui, a classe média usufrui de condições de vida absolutamente diferentes das camadas populares e as distâncias sociais entre elas são enormes. Essa elitização radical traz consigo, em geral, prepotência e desprezo em relação aos ‘de baixo’, ao lado de bajulação e cordialidade interesseira com os ‘de cima’ e iguais, sempre em busca de oportunidades para si ou familiares. Além de uma preocupação obsessiva em casar ‘bem’ seus filhos, entre outros comportamentos da mesma natureza”, dispara o economista. A atitude progressista, diz, hoje está bastante isolada na classe média e sob forte ataque, mas nem sempre foi assim, mostram os avanços na década de 1970, diante da censura e das perseguições da ditadura, e o papel relevante na campanha pelas Diretas nos anos 1980. “Parece bastante plausível entender que essa reversão de posicionamento decorra justamente da elevação do dinamismo na geração de oportunidades e melhoras no rendimento das camadas populares, entre outras razões por implicar maiores gastos com a ampla gama de serviçais domésticos, e também nas despesas do negócio próprio com trabalhadores de baixa e média qualificação.”

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Editor da revista CartaCapital

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