Economia

Chico Lopes, o bode expiatório

O ex-presidente do Banco Central, morto aos 80 anos, teve a carreira aniquilada pelo escândalo Marka-Fonte Cindam

Chico Lopes, o bode expiatório
Chico Lopes, o bode expiatório
Morre o economista Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, conhecido como Chico Lopes. Créditos: Banco Central / Divulgação
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Vinte e sete anos atrás, o “maior escândalo financeiro” de todos os tempos tinha outros personagens. O “vilão” não era o mineiro Daniel Vorcaro, mas o italiano Alberto Cacciola. O banco era o Marka, não o Master. Nos primeiros quinze dias de 1999, a insustentável e ilusória paridade do real com o dólar ruiu como um castelo de areia. O mercado financeiro, que ainda não se concentrava na Avenida Faria Lima, entrou em polvorosa, enquanto cresciam os rumores do vazamento de informações privilegiadas a certas instituições.

Embora o Marka, assim como o Fonte Cindam, tenha sofrido intervenção do Banco Central – o primeiro foi liquidado, o segundo virou uma empresa de participações –, Cacciola foi acusado de receber dicas da maxidesvalorização do então presidente do BC, Francisco Lopes, em troca de propina. Uma CPI mista no Congresso e investigações da Polícia Federal alimentaram o escândalo. O italiano fugiu do País, mas acabaria preso em Mônaco em 2014. Em abril de 99, por se recusar a assinar o juramento durante o depoimento no Parlamento, Lopes acabaria preso em flagrante por ordem do senador Bello Parga, presidente da comissão de inquérito, em uma das mais emblemáticas cenas da conturbada luta política em Brasília. Réu em diferentes processos, o economista seria absolvido em 2017.

Ao contrário dos arquitetos do Plano Real, em especial Gustavo Franco, retratados na mídia como inteligências cosmopolitas, Chico Lopes era visto como um quadro ingênuo e simplório. Um matuto. Um chico. Sem jogo de cintura, conexões políticas e traquejo, durou meros 20 dias no comando do BC antes de ser tragado pelos acontecimentos e esquartejado pelas raposas do Congresso – em uma quadra na qual as CPIs gozavam de alguma credibilidade. Sua proposta para conter o câmbio nos dias subsequentes à maxidesvalorização, a incompreensível “banda diagonal endógena”, só apressou a derrocada. Restaram a fama de incompetente e corrupto.

A história não fez justiça a Lopes. A ilusória e insustentável paridade entre o real e o dólar tinha prazo de validade e não foi obra sua. A desvalorização só não veio antes por uma providencial e calculada intervenção do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. O democrata convenceu o Fundo Monetário Internacional a fornecer ao governo Fernando Henrique Cardoso 40 bilhões de dólares às vésperas das eleições presidenciais de 1998, à época o maior desembolso da história da instituição multilateral. O empréstimo serviu basicamente para cobrir a fuga de capitais estrangeiros aplicados no Brasil (entraram 40 bilhões, saíram, da noite para o dia, 39 bilhões de dólares). O socorro garantiu a reeleição do tucano em primeiro turno, às custas da bancarrota do País. Em 15 de janeiro de 1999, FHC anunciou a maxidesvalorização que havia negado durante a campanha presidencial.

O estelionato eleitoral, somado ao racionamento de energia de 2001, enterrou o vaticínio de Sérgio Motta de um governo de 20 anos. Nunca mais o PSDB, hoje uma sombra do passado, voltaria a ocupar o Palácio do Planalto. Gustavo Franco e outros feiticeiros do real forte continuaram, no entanto, a ser tratados como gênios das finanças e, como tais, acumularam fortunas no mercado. Chico Lopes, soterrado pelas circunstâncias, recolheu-se às sombras. Morreu na sexta-feira 8, no Rio de Janeiro, aos 80 anos, depois de passar um mês internado por causa de uma cirurgia no estômago.

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