Economia

Agronegócio

Busca na internet mede riqueza no campo?

por Rui Daher publicado 20/06/2017 00h50, última modificação 19/06/2017 14h57
Querendo fabricar boa notícia, virtualizaram uma bobagem, consultas no Google. Se fossem compras online, vá lá
Wikimedia Commons
campo.jpg

Ritmo da economia do campo sempre foi e continuará a ser maior no início do ano. Daí o termo sazonalidade.

A genialidade do jornalista e escritor Ivan Lessa (1935-2012) ensinava que mais do que a boa escrita, importava o “caderninho de notas”, registro de situações do cotidiano que, mais tarde, não esquecidas, poderiam se transformar em crônicas, contos, poemas, romances. Depois que foi morar em Londres, passou a se divertir com a profusão de pesquisas de opinião divulgadas no Reino Unido. Divertia-se e nos divertia com as estultices nelas “provadas”.

Há quatro anos aqui nesta CartaCapital (longa vida a ela!), ao mesmo tempo em que relato a exuberância e os riscos da agropecuária, “vista assim do alto”, uso “a lupa” para denunciar o descaso e a miséria de caboclos, campesinos e sertanejos, pouco atendidos em suas necessidades produtivas.

Até o início dos anos 2000, a gangorra rural perdurou pelo menos duas décadas. Não tínhamos competitividade para exportar e poder aquisitivo para emular o mercado interno. O Tesouro Nacional e os neoliberais sabem disso. Até que novos modelos e conjunturas a puseram à frente do crescimento e fator de equilíbrio da economia nacional.

“Ah, o apetite da China, o preço das commodities”. Proibido aproveitar? Consultem os dados históricos da FAO, saiam do simplismo e reconheçam quantos fatores impulsionaram o setor nos últimos 15 anos.

Minhas Andanças Capitais começaram em 1975. Assisti ao oportunismo ruralista expandindo fronteiras para a produção de grãos às custas da devastação de biomas. Não era necessário, mas já foi. Não regride, mas pode parar. Também assisti a produtores rurais de assentamentos ou sem-terra sendo enterrados em covas rasas da poética de João Cabral de Melo Neto.

Hoje em dia, as folhas e telas cotidianas da desonesta informação midiática usam a agropecuária como salvadora da recuperação do PIB e validam um governo que, apoiado em maioria congressual espúria e corrupta, se entregou à vontade neoliberal da elite econômica. Destroçam o País para impedir a volta de um projeto de inserção social insuportável a seus interesses financistas.

Mais uma vez e como foi previsto em coluna de setembro do ano passado, teremos produção recorde de grãos, 235 milhões de toneladas, 25% acima de 2016, fustigado por situações climáticas adversas. Deverá gerar um valor bruto da produção em torno de R$ 550 bilhões, além de favorecer a oferta de alimentos para o mercado interno, o que os tornará mais baratos, ainda que sacrificando a rentabilidade dos produtores.

Sem alimentos para servirem de vilões da inflação, honesto fosse, o Jornal Nacional (TV Globo) jogaria a crise nos ombros do ideário neoliberal que aprofundará desemprego, queda de renda, descontinuidade de benefícios sociais, e fará cair a arrecadação por falta de consumo.

Mas a que serviu mencionar Ivan Lessa e as pesquisas?

Levantamento do Google, encomendado e publicado na edição de 10 de junho do jornal Valor Econômico, gerou a manchete da seção Agronegócios: “Estados ‘agrícolas’ lideram buscas na internet”. O jornal Valor tornou-se O Globo paulista depois da compra da participação da Folha de S.Paulo e importou a linha editorial carioca: “indicando uma possível retomada do consumo”.

Vejam só. Compararam Mato Grosso (líder), Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, com os demais estados do País. Verdade que não sobraram muitos, principalmente a considerar as regiões Norte e Nordeste, sabidamente de menor poder aquisitivo e acesso à internet, mas que entraram na “média Brasil”.

Os itens de consumo considerados - móveis, fogões, lavadoras, televisores, geladeiras, celulares, pacotes de viagens - deixam claro que os acessos não significaram compras, mas sim interesse de informação. Um “termômetro”. Para o ar de seriedade, coonestam a pesquisa com o fato de que, segundo o Caged, do Ministério do Trabalho, o setor agropecuário teve o melhor desempenho de contratações.

Pinoia! Pagaram a alguém para chegar a tais conclusões? Em meio a resultados de safra excepcionais, como citado neste texto, trata-se do período de colheita em que mais se utiliza mão de obra, e ainda comparam os dados com estados de perfil industrial que vivem a pior das crises em quase 10 anos e somados àqueles onde é maior a pobreza. Esperavam o quê?

Nunca foi diferente. Boa safra, primeiro semestre, no pós-colheita menor lida nas fazendas, época de comercializar, consumir e investir. Não apenas bens de consumo ou serviços, mas caminhões, máquinas agrícolas, picapes, implementos, insumos.

Agora o pior: querendo fabricar boa notícia, virtualizaram uma bobagem, consultas no Google. Se fossem compras online, vá lá. Quem anda por regiões produtoras brasileiras percebe que essa dinâmica está clara na economia real. Queixar-se sempre irão, mas afora catástrofes pontuais em alguma cultura ou região, o ritmo da economia do campo sempre foi e continuará a ser maior nesse período do ano. Daí o termo sazonalidade.