Economia

Brasil tem reação apática a caos global e cenário preocupa economistas

Especialistas elencam fatores da crise que marcou início da semana nos mercados mundiais e teve impacto negativo recorde na Bolsa brasileira

O presidente Jair Bolsonaro, durante evento em Miami (EUA). Foto: Alan Santos/PR
O presidente Jair Bolsonaro, durante evento em Miami (EUA). Foto: Alan Santos/PR

O dia foi de turbulência nos mercados internacionais e no Brasil. Na manhã desta segunda-feira 9, as Bolsas da Ásia fechavam com forte queda em países como China, Japão, Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan, em índices que chegaram a 5%. As Bolsas da Europa amanheceram na mesma tendência, como em Londres, Frankfurt e Paris. Nos Estados Unidos, a queda chegou a 7%, pior índice desde a crise de 2008.

Os impactos chegaram ao Brasil, que abriu o dia com a Bolsa de Valores caindo a mais de 10%, maior índice desde maio de 2017, quando foram divulgadas conversas entre o então presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista. Foi preciso adotar um mecanismo chamado “circuit breaker” e interromper a operação por 30 minutos para voltar aos negócios.

Mas a Bolsa seguiu despencando e fechou o dia com a maior queda desde 1998, em 12,17%, aos 86.067,20 pontos. O dólar comercial fechou em novo recorde, com 1,97% de alta, cotado a 4,72 reais, tendo atingido 4,79 horas antes. A moeda americana encerrou com o maior valor nominal de fechamento desde a criação do Plano Real, em 1º de julho de 1994.

Economistas atribuem o caos ao surto de coronavírus, porque o fácil contágio da doença fez com que governos e empresas de todo o mundo restringissem a circulação de pessoas. A China, segunda maior economia do mundo e país com maior número de pessoas infectadas, tem paralisação de fábricas e, como consequência, desaceleração industrial.

A epidemia da doença também impactou nos preços do petróleo e gerou uma guerra de preços entre países produtores da mercadoria. Segundo o coordenador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Rodrigo Leão, houve uma crise de demanda gerada pela redução das importações de petróleo cru pela China, em função do coronavírus.

Paralelo a isso, houve desacordo entre países membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre uma medida para, supostamente, limitar os impactos do coronavírus. As nações integrantes propunham que houvesse redução na produção de petróleo, mas a Rússia se recusou a participar do movimento porque considerou que a tática favoreceria os Estados Unidos.

Como retaliação, a Arábia Saudita anunciou que aumentaria a sua produção de petróleo e baixaria seus preços, o que provoca impacto, principalmente, em países produtores como Brasil, Venezuela e Irã.

“O que acontece agora é reflexo de uma queda lenta, mas consistente, da demanda chinesa que tende a se agravar no médio prazo. É a queda mais importante nos últimos 40 anos. Ao afetar o preço do petróleo, colocou de novo em discussão uma possível reação dos países produtores para conter a queda do preço. O problema é que a relação entre Rússia e Opep não é simples, é complexa. O último acordo para conter a queda de preços em 2014 só se efetivou um ano e meio depois”, analisa Rodrigo Leão.

Para o especialista, a Opep vem perdendo controle sobre o mercado internacional de petróleo, embora represente parcela importante da produção. Hoje, portanto, a Rússia tenta disputar poder de mercado para ocupar o papel que a Opep perde nos últimos anos, opina Leão.

Outro fator que contribui para a crise nas bolsas é o endividamento das empresas, aponta o doutor em Relações Internacionais e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Leonardo Ramos. Companhias em todo o mundo atingem níveis recordes de endividamento e prazos curtos para o pagamento dos compromissos.

Segundo novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), reportado pelo jornal Folha de S. Paulo, um terço de toda a dívida pelas empresas no mundo tem vencimento previsto para os próximos três anos.

Com o coronavírus, essas companhias reduzem a atividade econômica e, portanto, menos dinheiro entra no caixa para honrar os débitos. No Brasil, por exemplo, empresas com ações na Bolsa de Valores chegaram a níveis recordes de dívida no ano passado, se comparados a números de 2000.

“Estamos falando de um cenário que, internacionalmente e nacionalmente, é marcado por um crescente endividamento de empresas”, diz Ramos. “Você tem um contexto de expansão de investimento financeiro, pequenos investidores correndo para a Bolsa. Então, você tem uma Bolsa inflada, que não reflete a atividade econômica nacional. No caso brasileiro, há uma economia que não cresce. No caso estadunidense, a economia cresce gerando empregos, mas precários, em que você não consegue gerar renda. E você tem os gatilhos do coronavírus e do petróleo.”

Para o mestre em Economia e assessor econômico do PSOL na Câmara dos Deputados, David Deccache, as reações do governo brasileiro são contraproducentes e reduzem a possibilidade de reversão da tendência de piora nos índices da Bolsa de Valores. Em primeiro lugar, o teto de gastos, aprovado no governo de Michel Temer, amarra uma atuação do Estado em gerir a crise.

Deccache sustenta que o país está engessado, sem capacidade de fazer política fiscal ativa. Em um momento em que a incerteza é muito grande para o setor privado, é o governo que deve investir, ele argumenta. Para piorar a situação, no meio da crise, o governo adota políticas econômicas nocivas, como a obstrução da concessão do Bolsa Família para pessoas em condição de pobreza ou extrema pobreza.

“Nada aponta para uma retomada na normalidade no resto do mundo e muito menos no Brasil”, diz economista.

“Isso é extremamente grave do ponto de vista social e econômico. No aprofundamento da crise, é de se esperar que aumente a vulnerabilidade social dos mais pobres e o Bolsa Família seria um freio para a crise social. Do ponto de vista econômico, o benefício é um multiplicador fiscal altíssimo, o gasto na mão dos mais pobres vira consumo e aumenta a demanda, o que leva o empresário a voltar a investir”, examina.

Para Deccache, as perspectivas são ainda mais desanimadoras se avaliado o resultado pífio do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019. Em sua visão, os investidores perceberam que as reformas econômicas do governo não mudaram o ritmo de baixo crescimento e ficam menos estimulados a dedicarem seus esforços em meio à turbulência.

Como um dos principais países produtores de commodity, o Brasil pode ser impactado negativamente, assim como Rússia e Venezuela. Deccache não descarta que a ação da Arábia Saudita esteja em consonância com a intenção dos Estados Unidos em alterar o tabuleiro geopolítico e deter a correlação de forças entre alguns países no globo.

Nesse meio, diferente de outros momentos de crise, como em 2008, o Brasil não demonstra uma agenda econômica que remedie o caos e reage de forma apática. Os novos passos da crise global podem pressionar as taxas de câmbio de forma abrupta e aumentar o custo de vida das pessoas, avalia o economista.

“Nada aponta para uma retomada na normalidade no resto do mundo e muito menos no Brasil. Dito isso, a situação brasileira é especialmente preocupante, porque nós estamos em uma situação em que não temos como reagir, dado o teto de gastos. Se essa crise se prolongar, como tudo indica, será ainda pior”, diz.

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