Economia

Brasil tem descompasso entre a produção real e o valor das empresas

A dita ‘financeirização’ não é uma deformação do capitalismo, mas um ‘aperfeiçoamento’ de sua natureza autorreferida

Ele ri da sua cara. Foto: Drew Angerer/Getty Images/AFP
Ele ri da sua cara. Foto: Drew Angerer/Getty Images/AFP
Apoie Siga-nos no

A edição do jornal Valor da terça-feira 4 estampa um artigo de Mohamed-El-Erian, assessor econômico do grupo Allianz. O título proclama “O Grande Choque do Coronavírus”, mas o texto vai além da epidemia viral e avalia a disseminação da pestilência financeira nas economias contemporâneas. “A diferença de muitos anos entre os altos preços dos ativos e as condições econômicas mais fracas está se tornando cada vez mais insustentável.”

Os economistas Daniel L. Greenwald, Martin Lettau e Sydney C. Ludvigson sapecaram no National Bureau of Economic Research um estudo que investiga as relações entre o desempenho da Bolsa de  Valores nos Estados Unidos e o crescimento do PIB. Eles concluem que o mercado de ações dos EUA foi “excepcionalmente bem no Pós-Guerra”, melhor ainda nas três últimas décadas.

Saiba o caro leitor de CartaCapital que, durante os 29 anos transcorridos entre o início de 1989 e o fim de 2017, o valor das ações das empresas não financeiras cresceu a uma taxa anual de 6,9%. Nos 29 anos anteriores, entre o início de 1959 e o fim 1988, a valorização dos papéis dessas empresas alcançou 3,2% ao ano. “Em contraste, o valor real do que foi realmente produzido pelo setor apresenta um padrão oposto: o valor agregado real líquido das empresas não financeiras cresceu 4,4% ao ano entre o início de 1959 e o fim de 1988 em comparação com apenas 2,5% ao ano no período mais recente.” Os autores incomodam-se com os resultados dessas tendências: um abismo cada vez maior entre o mercado de ações e a economia da produção e do emprego.

A teoria econômica dos livros didáticos, dizem eles, nos ensinaram que o mercado de ações e a economia da produção e do emprego devem compartilhar uma trajetória comum. Os fatores que impulsionam o crescimento econômico dito “real” devem ser os mesmos que fomentam o aumento do valor das empresas ao longo do tempo. “Esse princípio da teoria macroeconômica não foi corroborado pelos dados. O que, então, tem sido responsável pelo boom da valorização dos ativos de capital durante o período mais recente?”

Boa pergunta. Os autores vão trabalhar os dados para buscar uma resposta mais precisa. Advertem que as informações devem ser interpretadas a partir de um modelo estrutural que permita a compreensão do fenômeno sob observação. Tentam escapar do positivismo empirista mais tosco, sempre empenhado em demonstrar que os dados falam. Os dados não falam, respondem às perguntas do investigador.

“O preço das ações em nosso modelo é fixado não pelo agente representativo dos modelos Dinâmicos Estocásticos de Equilíbrio Geral, mas por um acionista representativo, encarnado nos dados por uma família rica ou por um grande acionista institucional. Os agentes restantes, trabalhadores assalariados, não desempenham qualquer papel na precificação de ativos.” Os agentes são, portanto, heterogêneos.

Representativos ou heterogêneos, a busca de compreensão do fenômeno examinado continua percorrendo os labirintos sem saída do individualismo metodológico em detrimento da investigação da dinâmica complexa de uma estrutura de relações imanentes ao movimento da economia de mercado capitalista. Se adotado esse método que poderíamos chamar de dinâmico-estrutural, os agentes surgiriam como personificações de papéis ou funções no interior do sistema de relações em movimento.

O economista austríaco Joseph Schumpeter, autor do clássico Teoria do Desenvolvimento Capitalista, atribuiu o desenvolvimento econômico ao papel sistêmico de duas personificações estratégicas: o ephor, o banqueiro que administra o sistema de crédito e adianta dinheiro novo para o empresário inovador. O crédito e a inovação rompem o fluxo circular, ou seja, o estado da economia que reproduz simplesmente o que existe.

A propósito dos amores dos mercados financeiros, a professora Ângela Alonso, socióloga de escol, abriu seu artigo no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo com a metáfora de Pigmaleão e Galateia. A mulher perfeita foi esculpida em marfim por Pigmaleão, que se apaixona por sua própria criatura. Afrodite então lhe dá vida, e escultor e escultura se casam.

A prerrogativa concedida aos bancos de criar liquidez nova mediante as operações de crédito suscita a possibilidade de o Demônio Dinheirista renunciar à paixão por sua criatura e curtir, como Narciso, amor por sua própria imagem. Nessa etapa do capitalismo, aproveitam os juros negativos para redobrar as juras de amor pelos mercados onde circulam os títulos de dívida e as ações – direitos de propriedade e de apropriação dos rendimentos e dos ativos reais e financeiros. Dedicam-se à recompra das próprias ações e inflam os dividendos pagos aos acionistas.

Peço licença ao leitor para tomar de empréstimo, a juro zero, um trecho do meu livro O Capital e suas Metamorfoses. Lá escrevi que o desenvolvimento do capital financeiro promove a constituição dos mercados secundários de negociação dos títulos de dívida e ações que “regulam” a transferência da propriedade entre os capitalistas. O regime do capital, compreendido em todas as suas determinações, supõe o desenvolvimento dos mercados de capitais incumbidos da avaliação dos títulos de dívida e dos direitos de propriedade sobre a riqueza e a renda. Esse “sistema” garante a reprodução do regime de apropriação privada da riqueza e, ao mesmo tempo, ameaça continuamente de aniquilação os produtores-proprietários individuais que não conseguem acompanhar a corrida imposta pelas “normas” técnicas, econômicas e financeiras que caracterizam cada etapa do processo de desenvolvimento. Os direitos de propriedade são também direitos à expropriação.

Faço outro empréstimo, sem juros, de um artigo no jornal Valor. Schumpeter antecipou as peripécias fáusticas dos que se entregam ao Demônio Dinheirista. Compreendeu que o demônio invadiu a carcaça de Fausto com dois ânimos: o espírito inquieto do mercado de capitais para ações, títulos, hipotecas, imóveis e terrenos e a boa alma do “dinheiro circulante” no setor de mercadorias, emprego e renda. A dita “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas um “aperfeiçoamento” de sua natureza autorreferida.

Luiz Gonzaga Belluzzo

Luiz Gonzaga Belluzzo Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Tags: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.