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BioEstado e geopolítica

Como o capital biológico pode redefinir o desenvolvimento e a posição do Brasil no mundo

BioEstado e geopolítica
BioEstado e geopolítica
O Brasil tem tudo para ser o primeiro BioEstado – Imagem: iStockphoto
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Neste artigo proponho o conceito de BioEstado para descrever Estados capazes de transformar seu capital biológico – biomassa, biodiversidade, agricultura, florestas e conhecimento biotecnológico – em inovação, capacidade industrial, segurança energética e influência geopolítica.

Assim como os PetroEstados transformaram o domínio do carbono fóssil em poder e os EletroEstados procuram converter a eletrificação em vantagem competitiva, os BioEstados serão capazes de transformar a fotossíntese e os processos biológicos em novas plataformas de desenvolvimento, soberania e projeção internacional.

Durante o século XX, o poder das nações foi medido, em grande parte, pela capacidade de controlar o petróleo. Reservas de petróleo e gás redefiniram estratégias nacionais, reorganizaram a geo­política mundial e financiaram processos de industrialização. Era o auge da geopolítica dos PetroEstados.

Da influência exercida pelos grandes exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Rússia, ao uso estratégico dessa riqueza para financiar desenvolvimento e bem-estar, como no caso da Noruega e dos Estados Unidos, o petróleo tornou-se um dos principais instrumentos de projeção de poder no século XX.

Hoje, a disputa desloca-se para outro terreno. Eletrificação, minerais críticos, semicondutores, baterias, data centers e Inteligência Artificial tornaram-se centrais nas estratégias de desenvolvimento. Mais do que controlar combustíveis fósseis, passou a ser decisivo dominar tecnologias e infraestruturas capazes de produzir e utilizar eletricidade em larga escala. Surge, assim, a lógica dos EletroEstados.

A liderança chinesa na produção de baterias, veículos elétricos e cadeias de minerais críticos, bem como a posição de países como Coreia do Sul e Japão em semicondutores e tecnologias avançadas, ilustra como a capacidade tecnológica passou a ocupar um lugar central nas estratégias nacionais de competitividade.

A eletrificação resolve, porém, apenas parte do desafio da descarbonização e do desenvolvimento. Mesmo em uma economia amplamente eletrificada, o mundo continuará dependendo de moléculas para produzir combustíveis sustentáveis de aviação, fertilizantes, produtos químicos, materiais, alimentos e medicamentos. A grande questão deixa de ser apenas quem controla os elétrons e passa a ser quem domina o carbono renovável e os processos biológicos capazes de transformá-lo em riqueza.

Apesar de suas diferenças, PetroEstado, EletroEstado e BioEstado obedecem à mesma lógica: todos descrevem formas históricas pelas quais os Estados convertem recursos estratégicos em poder econômico, capacidade industrial e influência geopolítica. O que muda não é a lógica do poder, mas a natureza dos recursos que o sustentam.

O BioEstado converte seu capital biológico – biomassa, biodiversidade, recursos genéticos, agricultura, florestas e conhecimento biotecnológico – em uma nova base material do poder econômico, capaz de sustentar capacidade industrial, autonomia tecnológica e segurança energética, produzindo, como consequência, prosperidade, segurança alimentar, regeneração ambiental e influência geopolítica.

Não se trata apenas de possuir ativos biológicos, mas de transformá-los em ciência, inovação, bioindústria, energia, novos materiais, alimentos, medicamentos e tecnologias capazes de gerar valor econômico e poder estratégico.

Em mudança está não a lógica do poder, mas a natureza dos recursos que o sustentam

Se o PetroEstado foi sustentado por uma política energética e o EletroEstado por uma política industrial, o BioEstado dependerá da convergência entre política agrícola, política industrial, ciência, tecnologia, inovação e política ambiental. É dessa integração que nasce a sua verdadeira vantagem competitiva. A agricultura deixa de ser compreendida apenas como produtora de alimentos para tornar-se uma plataforma industrial basea­da em carbono renovável, capaz de converter capital biológico em inovação, bioindustrialização, produtos de alto valor agregado e poder estratégico.

O surgimento do BioEstado não substitui o PetroEstado e o EletroEstado, mas responde às limitações de ambos. Enquanto a descarbonização reduz a centralidade do carbono fóssil, a eletrificação não elimina a necessidade de matérias-primas biológicas. O capital biológico emerge, assim, como uma nova plataforma produtiva capaz de integrar energia, agricultura, indústria, inovação e clima.

Sob essa perspectiva, os três modelos podem ser compreendidos como diferentes formas de conversão de recursos estratégicos em poder. O PetroEstado transforma carbono fóssil em poder. O EletroEstado transforma eletricidade e capacidade tecnológica em poder. O BioEstado transforma capital biológico em poder.

É nesse contexto que o Brasil emerge como laboratório dessa hipótese. Poucos países reúnem, simultaneamente, uma expressiva base petrolífera, uma matriz elétrica majoritariamente renovável e um dos maiores patrimônios biológicos do planeta.

Seu desafio histórico não é escolher entre petróleo, eletrificação ou bioeconomia, mas integrar essas três dimensões em uma estratégia nacional de ­desenvolvimento: utilizar a renda do petróleo para ampliar investimentos estratégicos, transformar a eletricidade limpa em competitividade industrial e converter seu extraordinário capital biológico em inovação, bioindustrialização e liderança tecnológica.

Mais que uma potência da bioeconomia, o Brasil poderá tornar-se o primeiro BioEstado plenamente constituído. Um Estado capaz de transformar seu patrimônio biológico em prosperidade, soberania, segurança energética, liderança tecnológica e influência geopolítica, consolidando-se como uma potência industrial, energética e climática.

Se o século XX foi marcado pelo domínio do carbono fóssil e o início do século XXI pela corrida da eletrificação, a próxima fronteira da geopolítica do desenvolvimento poderá ser definida pela capacidade de transformar capital biológico em prosperidade, inovação e poder. É essa nova forma de transformar capital biológico em desenvolvimento, soberania e influência geopolítica que proponho chamar de BioEstado. •


 *Atual secretário-executivo-adjunto do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República (Conselhão). Foi também secretário-adjunto de Economia Verde no Ministério do Desenvolvimento Indústria Comércio e Serviços.

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘BioEstado e geopolítica’

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