Economia

As lições de Prebisch para a América do Sul

Em momento oportuno, livro traz os principais trabalhos do mestre cepalino traduzidos para o português

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Peça a uma autoridade chinesa, sul-coreana ou de qualquer outro país asiático industrializado uma opinião sobre a necessidade de planejamento econômico pelo Estado. Seja qual for a resposta, ela certamente será precedida por um franzir de cenho, seguido do olhar indagativo de quem não vê qualquer sentido na pergunta. É impossível dissociar o desenvolvimento nesses países da estreita programação elaborada pelos governos locais – seguida à risca pelo setor privado.

Desse lado do mundo, fomos induzidos por nossos vizinhos do norte do continente a associar planejamento público com planificação comunista, e a dicotomia só sairia de cena para dar lugar à filosofia do Estado mínimo e do lucro máximo. Um livro recém-lançado, porém, lembra que sempre houve uma poderosa voz dissonante na América do Sul: O Manifeto Latino-Americano e Outros Ensaios é um compêndio do pensamento do economista argentino Raúl Prebisch, que serviu de base para a criação da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), o think tank estabelecido no Chile também com a colaboração ativa do brasileiro Celso Furtado.

Após quase três décadas próximo do ostracismo, as teses de Prebisch começam a ser reabilitadas, sob força da evidente falência do modelo neoliberal após a eclosão da crise financeira internacional, em 2008. O mestre cepalino inaugurou a análise estrutural dos problemas latino-americanos, que continuam a ser basicamente os mesmos: excesso de mão de obra sem qualificação, produção concentrada em poucos setores, moedas fracas, inserção desequilibrada no comércio internacional, desequilíbrios nas contas externas, inflação, estrutura institucional frágil… A lista é grande, e, ainda que o Brasil e outros países tenham conseguido avançar em alguns desses pontos, ainda há muito a ser feito.

Editada pela Contraponto e pelo Centro Internacional Celso Furtado, que lançaram em meados deste ano a biografia do economista argentino, a nova obra traz seus principais artigos, e surge como referência fundamental num momento em que o conceito de centro-periferia começa a ruir diante do protagonismo dos países em desenvolvimento no cenário econômico mundial.

 

Estivessem vivos hoje, Prebisch e Furtado certamente seriam menos céticos com relação às chances de crescimento da região. A valorização dos preços de produtos primários tem virado o jogo do desequilíbrio no comércio internacional – um dos principais motivos para a estagnação das economias sulamericanas, de acordo com os cepalinos. Hoje, a geração de divisas com a exportação de produtos básicos se mostra suficiente para a importação de máquinas e tecnologia, de modo a permitir a diversificação do parque fabril.

Equacionado o problema dos termos de troca, resta resolver outras das limitações ao desenvolvimento apontadas décadas atrás pela Cepal e que permanecem surpreendentemente atuais. A começar pelo emprego excessivo de métodos ortodoxos de controle de preços, com o sacrifício do crescimento econômico, e passando pela baixa propensão ao investimento por parte de uma elite habituada ao rentismo.

A revisão dos estruturalismo de Prebisch, no atual momento, representa muito mais do que uma nova fonte de referência a professores e alunos de Economia. É um guia a ser cuidadosamente avaliado e aproveitado por autoridades e tomadores de decisão da geração atual, se quiserem evitar repetir erros do passado e aproveitar as oportunidades que se abrem para uma fase inédita de desenvolvimento regional.

Peça a uma autoridade chinesa, sul-coreana ou de qualquer outro país asiático industrializado uma opinião sobre a necessidade de planejamento econômico pelo Estado. Seja qual for a resposta, ela certamente será precedida por um franzir de cenho, seguido do olhar indagativo de quem não vê qualquer sentido na pergunta. É impossível dissociar o desenvolvimento nesses países da estreita programação elaborada pelos governos locais – seguida à risca pelo setor privado.

Desse lado do mundo, fomos induzidos por nossos vizinhos do norte do continente a associar planejamento público com planificação comunista, e a dicotomia só sairia de cena para dar lugar à filosofia do Estado mínimo e do lucro máximo. Um livro recém-lançado, porém, lembra que sempre houve uma poderosa voz dissonante na América do Sul: O Manifeto Latino-Americano e Outros Ensaios é um compêndio do pensamento do economista argentino Raúl Prebisch, que serviu de base para a criação da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), o think tank estabelecido no Chile também com a colaboração ativa do brasileiro Celso Furtado.

Após quase três décadas próximo do ostracismo, as teses de Prebisch começam a ser reabilitadas, sob força da evidente falência do modelo neoliberal após a eclosão da crise financeira internacional, em 2008. O mestre cepalino inaugurou a análise estrutural dos problemas latino-americanos, que continuam a ser basicamente os mesmos: excesso de mão de obra sem qualificação, produção concentrada em poucos setores, moedas fracas, inserção desequilibrada no comércio internacional, desequilíbrios nas contas externas, inflação, estrutura institucional frágil… A lista é grande, e, ainda que o Brasil e outros países tenham conseguido avançar em alguns desses pontos, ainda há muito a ser feito.

Editada pela Contraponto e pelo Centro Internacional Celso Furtado, que lançaram em meados deste ano a biografia do economista argentino, a nova obra traz seus principais artigos, e surge como referência fundamental num momento em que o conceito de centro-periferia começa a ruir diante do protagonismo dos países em desenvolvimento no cenário econômico mundial.

 

Estivessem vivos hoje, Prebisch e Furtado certamente seriam menos céticos com relação às chances de crescimento da região. A valorização dos preços de produtos primários tem virado o jogo do desequilíbrio no comércio internacional – um dos principais motivos para a estagnação das economias sulamericanas, de acordo com os cepalinos. Hoje, a geração de divisas com a exportação de produtos básicos se mostra suficiente para a importação de máquinas e tecnologia, de modo a permitir a diversificação do parque fabril.

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