As fintechs ameaçam de fato os bancos brasileiros?

Longe de ignorar as mudanças trazidas por essas instituições, hoje a parceria prevalece sobre a pura competição

Com 48 milhões de clientes e funk para promover investimentos, o banco digital Nubank almeja uma avaliação superior a 50 bilhões de dólares em sua estreia em Wall Street (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Com 48 milhões de clientes e funk para promover investimentos, o banco digital Nubank almeja uma avaliação superior a 50 bilhões de dólares em sua estreia em Wall Street (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Economia,Observatório do Banco Central

Nos últimos anos, cresceu de forma impressionante a entrada de novos participantes no sistema financeiro, a maioria categorizado sob o guarda-chuva das fintechs. Há tantas modalidades, áreas de atuação e produtos nesse novo ecossistema, contudo, que se tornou difícil definir precisamente o que é uma fintech.

As fintechs podem ser entendidas como empresas que adotam novas soluções tecnológicas para prestar serviços financeiros. Funciona como um termo guarda-chuva para designar startups e entrantes nesse mercado, mas engloba também participantes nem tão estreantes, que se vendem sob o termo “digital” para se alinharem às novas tendências e inovações tecnológicas.

O Banco Central adota conceito semelhante. Para o BC, fintechs são “empresas que introduzem inovações nos mercados financeiros por meio do uso intenso de tecnologia”, e que atuam “por meio de plataformas online e oferecem serviços digitais inovadores relacionados ao setor”.

Ao analisar as esferas de atuação das fintechs, constata-se que elas abocanharam muito pouco do market share dos maiores bancos brasileiros

Apesar da diversidade dessas firmas, o BC regulamentou apenas três modalidades: as Instituições de Pagamento, as Sociedades de Crédito Direto e as Sociedades de Empréstimo entre Pessoas. Somente as duas últimas instituições são consideradas “fintechs”, mas é comum que as três sejam integradas nas análises sob a mesma designação.

Não raro, analistas e pesquisadores preveem enormes dificuldades e desvantagens dos bancos brasileiros na concorrência com as fintechs. Alguns chegam a defender que a era dos bancos tradicionais chegou ao fim. Longe de ignorar as mudanças e movimentos disruptivos trazidos por essas instituições, o que se constata, na verdade, é que hoje prevalecem as parcerias ao invés da pura competição.

Mais competição e menor concentração de mercado são, em geral, objetivos desejáveis. Mas, até agora, toda a “revolução” financeira potencializada pelo surgimento das fintechs não parece ter trazido ameaças significativas ao poder dos grandes bancos nacionais.Há dúvidas claras sobre a capacidade das fintechs de pressionar o ambiente competitivo.

Num trabalho recente, mostramos que o crescimento real das receitas com taxas e tarifas de prestação de serviços dos bancos vem caindo ao longo dos últimos anos. Será que a entrada das fintechs estaria pressionando para baixo essas taxas e tarifas?

A resposta a essa pergunta é complexa, uma vez que a interação entre os bancos e as fintechs têm múltiplos desdobramentos. O mesmo vale para o efeito dessas firmas sobre o mercado e a dinâmica concorrencial. Ao mapear, em outro trabalho, as fontes de receita dos grandes bancos que poderiam sofrer pressões competitivas das fintechs, concluímos que a parcela que poderia ser abocanhada pelas entrantes é ainda pequena – embora não desprezível.

Ao analisar as esferas de atuação das Instituições de Pagamento, Sociedades de Crédito Direto e Sociedades de Empréstimo entre Pessoas, constata-se muito pouca transferência de market share dos maiores bancos brasileiros para as novas participantes.

As receitas das cinco maiores Instituições de Pagamento representaram, em 2020, cerca de 25% das receitas sob concorrência em relação aos cinco maiores bancos. As fintechs de crédito, por sua vez, apresentaram uma participação irrisória, com um volume de ativos muito restrito. Em outras palavras: essas instituições são ainda pequenas.

Além disso, dado o grande poder financeiro dos bancos, há um crescente investimento em inovação tecnológica e na modernização de seus sistemas, o que reflete uma grande capacidade de resposta à disrupção das fintechs. Não sem impactos, é claro: para fazer frente a esse aumento de gastos, o setor bancário vem fechando agências e reduzindo o quadro de funcionários.

Big techs e open banking podem mudar o jogo

Pensando no futuro, a grande diferença nessa competição pode vir do avanço definitivo das big techs, como Facebook, Google etc., sobre as atividades tradicionais das instituições financeiras brasileiras – como já ocorre em outros lugares. A atuação das big techs traz inúmeros desafios concorrenciais e regulatórios, envolvendo, por exemplo, a segurança dos dados e a supervisão das entidades reguladoras. Ainda, eventuais assimetrias regulatórias podem dificultar a reação a práticas anticompetitivas, como, por exemplo, a aplicação de subsídio cruzado de produtos.

Além das big techs, a introdução do open banking também pode gerar impactos concorrenciais, com a possibilidade de as fintechs ampliarem o portfólio de atuação e capturarem os clientes de forma mais significativa. Essa iniciativa permite aos clientes compartilhar suas informações com novos players, abrindo espaço para a oferta de um leque maior de serviços e produtos em plataformas que, em tese, permitam ao usuário escolher alternativas mais próximas às suas necessidades e com custos inferiores.

Atualmente, não parece haver ameaça ao poderio do setor bancário nacional. Mas não se pode dizer o mesmo do futuro. Daqui em diante, a concorrência entre as novas e velhas instituições financeiras pode entrar em outro patamar. Principalmente pela difusão ainda mais intensa das inovações tecnológicas e com o aprofundamento das mudanças regulatórias que permitam a entrada de novos participantes no setor, em especial as big techs.

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Bacharel em Ciências Econômicas pela UFF, com MBA em Finanças pela Coppead/UFRJ.

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da UFRJ.

Professor de Economia da UFRJ e pesquisador do FINDE/UFF e do Observatório do Banco Central

esquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Economia da UFF e pesquisadora do FINDE-UFF.

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