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As coisas no lugar

A discussão sobre a dívida brasileira oscila entre o alarmismo e a complacência, afirma o economista Paulo Gala

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Equilíbrio. Gala passa a assinar uma coluna quinzenal em CartaCapital – Imagem: Redes Sociais
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O Brasil não está à beira de uma crise sem controle da dívida pública, garante Paulo Gala, mas o próximo governo precisará enfrentar problemas reais. A atual dinâmica, entre despesas crescentes e taxa Selic nas alturas, coloca a economia em um certo círculo vicioso. “Juros altos desestimulam o investimento, o investimento baixo limita a expansão da capacidade produtiva e isso, por sua vez, mantém as pressões inflacionárias que justificam juros elevados.” Professor de Economia da Fundação Getulio Vargas, com experiência no mercado financeiro e autor, entre outros, de Brasil, Uma Economia Que Não Aprende, Gala passa a integrar o grupo de colunistas desta publicação. O economista vai escrever quinzenalmente sobre temas da conjuntura, interna e externa, em busca de uma visão equilibrada da realidade. A contribuição não ficará restrita à edição impressa. O objetivo é lançar, em breve, uma newsletter autoral e vídeos didáticos no YouTube com os assuntos candentes do debate nacional.

CartaCapital: A trajetória das contas públicas está fora de controle? O próximo governo, seja qual for, está obrigado a fazer um ajuste severo?
Paulo Gala: A situação fiscal brasileira apresenta desafios importantes, mas está longe de caracterizar uma crise fora de controle. O debate público muitas vezes oscila entre o alarmismo e a complacência, quando na verdade o quadro exige uma análise mais equilibrada. Há problemas reais que precisam ser enfrentados.

“Existe um limite econômico para a expansão fiscal”

CC: Quais?
PG: O custo da dívida, a composição do crescimento recente e as regras institucionais que organizam a dinâmica do gasto público. O primeiro grande ponto de atenção é a conta de juros. Com a taxa básica em níveis elevados, o gasto anual aproxima-se de 1 trilhão de reais, perto de 10% do PIB. Essa despesa contribui para elevar a dívida bruta para a casa de 80% do PIB. Uma dívida desse tamanho não é incomum em termos internacionais, mas torna-se mais preocupante quando combinada com taxas de juro muito altas, o caso brasileiro. Essa combinação entre dívida relativamente elevada e custo financeiro elevado exige atenção. O segundo ponto relevante é a composição do crescimento econômico recente. Nos últimos anos, parcela importante da expansão foi impulsionada por transferências de renda e aumento do gasto público, o que fortaleceu o consumo das famílias. Esse movimento tem efeitos positivos no curto prazo, mas pode gerar pressões de demanda, sobretudo quando o crescimento está mais concentrado no consumo do que no investimento. Essa característica do crescimento cria um desafio macroeconômico adicional. Quando a expansão da economia ocorre principalmente pelo consumo, sem uma resposta proporcional do investimento, a capacidade produtiva cresce mais lentamente. Isso pode gerar pressões inflacionárias e levar o Banco Central a manter taxas de juro mais elevadas para conter a demanda agregada. Forma-se, assim, um certo círculo vicioso macroeconômico: juros altos desestimulam o investimento, o investimento baixo limita a expansão da capacidade produtiva e isso, por sua vez, mantém as pressões inflacionárias que justificam juros elevados.

CC: O arcabouço fiscal é a resposta correta?
PG: O arcabouço representa uma resposta pragmática à necessidade de o Brasil possuir uma regra fiscal clara e funcional. Nesse sentido, constitui um avanço relevante em relação ao antigo teto de gastos, que buscava congelar o gasto público em termos reais. Na prática, implicava reduzir progressivamente a participação do gasto público no PIB, algo pouco viável em um país como o Brasil, que enfrenta demandas sociais expressivas. Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que alguma forma de disciplina fiscal é necessária. O governo não pode expandir indefinidamente o gasto sem considerar os limites da economia. O principal limite não é apenas uma restrição contábil do orçamento, mas sobretudo a capacidade produtiva da economia. Quando o aumento do gasto eleva a demanda agregada sem ser acompanhado por expansão da oferta, via investimento, aumento de produtividade ou ampliação da capacidade produtiva, surgem pressões inflacionárias. Portanto, existe, sim, um limite econômico para a expansão fiscal. O principal desafio, contudo, não está apenas na regra em si, mas na compatibilização das diversas normas de gasto existentes no orçamento. Atualmente, há vários mecanismos automáticos de indexação que seguem lógicas distintas. A regra de valorização do salário mínimo combina inflação passada com crescimento do PIB. Já os gastos mínimos em saúde e educação são indexados à receita corrente líquida. Essas regras podem gerar trajetórias de gasto incompatíveis com o limite de crescimento previsto no arcabouço fiscal. Por essa razão, a consolidação exige, ao longo do tempo, um esforço de harmonização das diferentes regras orçamentárias, de modo que todas convirjam para a lógica geral da nova estrutura fiscal.

No mesmo eixo. Economias concentradas em atividades de baixo valor agregado têm dificuldade de sustentar ganhos de produtividade – Imagem: iStockphoto

CC: O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu recentemente uma “racionalização” dos programas sociais. Concorda?
PG: A racionalização dos programas sociais é um tema importante e legítimo no debate sobre a qualidade do gasto público. Faz sentido discutir formas de melhorar a gestão dessas políticas, sobretudo no combate a fraudes e inconsistências cadastrais. Um dos problemas frequentemente apontados é a interação entre benefícios sociais e o mercado de trabalho informal. Em alguns casos, quem exerce atividades informais continua a receber benefícios como o Bolsa Família ou o Benefício de Prestação Continuada. Isso não significa necessariamente irregularidade, mas revela a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de monitoramento e atualização de dados para garantir que os benefícios cheguem efetivamente às famílias que mais precisam. Do ponto de vista fiscal, a dimensão dos programas também merece atenção. Estimativas aproximadas indicam que o conjunto absorve 300 bilhões de reais por ano, algo em torno de 5% do PIB. Trata-se, portanto, de um esforço fiscal expressivo, que exige boa governança e mecanismos eficazes de gestão. Houve uma mudança significativa no valor das transferências ao longo dos últimos anos. Antes da pandemia, o benefício médio do Bolsa Família era significativamente menor. Com as reformas e ampliações realizadas a partir de 2020, o valor mínimo mensal passou a patamares próximos de 600 reais por família. Naturalmente, essa expansão trouxe ganhos sociais importantes, sobretudo na redução da pobreza extrema, mas elevou de forma relevante o custo fiscal. Por isso, o desafio não é reduzir a proteção social, mas melhorar sua eficiência.

CC: O fim da jornada 6×1 teria um impacto positivo ou negativo sobre a economia e a produtividade?
PG: Os efeitos macroeconômicos tendem a ser relativamente limitados. Na prática, trata-se de uma redução marginal de horas na jornada formal de trabalho. Estudos indicam que mudanças desse tipo normalmente não provocam alterações relevantes nos níveis de emprego ou de desemprego. Do ponto de vista dos trabalhadores, a mudança pode gerar algum ganho no curto prazo. Se empresas quiserem manter o mesmo número de horas trabalhadas, terão de pagar horas adicionais, o que pode resultar em pequeno aumento de renda para parte dos trabalhadores formais. Nesse sentido, a medida pode trazer algum benefício distributivo e melhorar as condições de trabalho, algo que faz sentido do ponto de vista social. Ainda assim, seus efeitos sobre o desempenho da economia como um todo tendem a ser modestos. O problema central da economia está em outro lugar.

“O Brasil investe em torno de 18% do PIB. Índia e Vietnã, perto de 30%”

CC: Onde?
PG: Frequentemente se afirma que o Brasil sofre de baixa produtividade, mas essa interpretação muitas vezes é enganosa. O verdadeiro problema é o baixo valor adicionado das atividades econômicas. O País concentra grande parte da força de trabalho em setores que produzem bens e serviços com pouco conteúdo tecnológico e baixa sofisticação produtiva. Mesmo quando os trabalhadores são eficientes, o resultado final em termos de valor econômico gerado continua limitado.

CC: Como escapar da armadilha do baixo crescimento?
PG: A superação passa, essencialmente, por dois caminhos fundamentais. O primeiro é elevar a taxa de investimento da economia, medida pela formação bruta de capital fixo como proporção do PIB. Hoje, o Brasil investe perto de 18% do PIB. Paí­ses como Índia e Vietnã investem cerca de 30%, enquanto a China investe mais de 40%. Essa diferença é crucial. Sem ampliar o investimento não se expande a capacidade instalada, não se cria infraestrutura produtiva e não se aumenta o estoque de máquinas, equipamentos e tecnologia. Quando o investimento é baixo, qualquer tentativa de crescimento mais acelerado rapidamente esbarra em gargalos produtivos, gerando pressões inflacionárias ou déficits externos. O segundo vetor para escapar é aumentar o valor adicionado dos produtos, ou seja, elevar o grau de sofisticação produtiva e de complexidade econômica. Economias que permanecem concentradas em atividades de baixo valor agregado, como commodities primárias, serviços tradicionais ou manufaturas pouco sofisticadas, têm dificuldade de sustentar ganhos contínuos de produtividade. O crescimento de longo prazo está associado à capacidade de produzir bens e serviços cada vez mais intensivos em tecnologia, conhecimento e inovação. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As coisas no lugar’

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