Economia

Antes de Davos, Paulo Guedes foi ao ‘comitê central’ do neoliberalismo

Ministro participou de jantar nos EUA com a Sociedade Mont Pelerin, patrocinadora do discurso pró-ricos desde 1947

O ministro da Economia, Paulo Guede. Foto: Carl de Souza/AFP
O ministro da Economia, Paulo Guede. Foto: Carl de Souza/AFP
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O ministro da Economia, Paulo Guedes, representou o governo Bolsonaro no Fórum de Davos, encontro anual da elite planetária. Embarcou para a Suíça na Califórnia (Estados Unidos), onde compareceu a um jantar da Sociedade Mont Pelerin. Será por isso que se portou nos alpes suíços como um neoliberal “duro”, atitude que seus parceiros de crença tem aliviado um pouco, por causa da crescente concentração de renda?

Pelerin é um monte na Suíça e foi lá que nasceu, em 1947, a sociedade visitada por Guedes. Entre os fundadores do grupo, está o finado economista americano Milton Friedman, mestre e ídolo dos Chicago Boys a la Guedes.

Essa sociedade é uma trupe de endinheirados, economistas, filósofos e políticos defensora dos ricos e do individualismo. Um programa humorístico da tevê alemã descreveu didaticamente, em 2018, o que ela é. Uma espécie de comitê central do neoliberalismo internacional.

Programa de humor alemão explica a ascensão do neoliberalismo

O video descreve a recuperação da hegemonia do liberalismo econômico e a seguinte precarização das relações de trabalho e bem-estar social, em uma perspectiva bem humorada, na sociedade alemã.- Créditos e agradecimentos a Bruno Mansur que fez a tradução deste brilhante e didático vídeo!Nota do próprio tradutor: Algumas palavras foram adequadas ao contexto brasileiro, como é natural em traduções de qualquer natureza, destacando-se a associação da figura de Michel Temer como o liberal brasileiro e a paridade dos tribunais, sendo citado o STF como correspondente.Via Social-Democracia para o Brasil

Posted by Meu Professor de História on Saturday, August 18, 2018

Depois da II Guerra Mundial (1939-1945), o capitalismo estava ferido, atrelado ao fascismo e ao conflito. O socialismo soviético representava uma opção de justiça social e de alternativa de modelo econômico. Os ricos viam-se acuados no Ocidente por trabalhadores a cobrar melhores salários e mais direitos e por governos inclinados a atender essas demandas, via impostos.

Era preciso defender os ricos, mas sem dizê-lo abertamente. Melhor seria pregar que a riqueza é boa para todo mundo, que o mercado é virtuoso e o Estado, degenerado. A missão da Sociedade seria santificar o setor privado e amaldiçoar tudo que fosse público. Sim às privatizações e ao corte de gastos públicos, não aos impostos.

O plano exigia mudar a hegemonia ideológica e cultural em escala global. Não faltou dinheiro para esse lobby, afinal, eram todos ricos. E assim a Sociedade deu origem a uma rede de uns 500 think tanks espalhados pelo mundo, com economistas, pesquisadores e políticos dedicados a professar as virtudes do capitalismo neoliberal individualista e os pecados estatais.

No flyer comemorativo de seus 70 anos, em 2017, a Mont Pelerin listava alguns membros ilustres, sinal do peso de sua influência. Alan Greenspan, presidente do Banco Central americano de 1987 a 2006. Lars P Feld, consultor econômico da chanceler alemã, Angela Merkel, no poder desde 2005. O empresário Charles Koch, um dos principais financiadores da campanha de Donald Trump em 2016.

Criado em 2005 no Brasil tendo Paulo Guedes como um de seus fundadores, o think tank Instituto Millenium pode ser considerado integrante da rede Mont Pelerin. O ministro é um milionário, teria ainda hoje no governo “negócios ocultos”, segundo o deputado Paulo Ramos (PDT-RJ), que cobra do Ministério Público uma investigação a respeito.

O jantar de que Guedes participou na Califórnia fez parte do “encontro especial 2020” da Sociedade Mont Pelerin, realizado entre 15 e 17 de janeiro na Universidade de Stanford. Ele foi ciceroneado por um professor de história conservador da universidade, o escocês Niall Ferguson, uma pessoa com credenciais para integrar o governo Bolsonaro.

Certa vez, Ferguson quis desprezar a obra do falecido economista inglês John Maynard Keynes, a quem Milton Friedman via como inimigo, e tachou-o de “gay”. Em outra oportunidade, ajudou dois estudantes direitistas de Stanford a perseguir um aluno de esquerda, motivo de rebu no campus.

Outra do escocês: em 2018, ele organizou uma conferência com 30 historiadores. Todos homens e brancos. A historiadora gaúcha Ana Lucia Araújo, professora na Universidade de Washington, comentou no Twitter: “Conferência histórica para todos os homens. Isso vale para o Guiness book do século! Uma equipe de 30 historiadores brancos discutirá a história aplicada em Stanford. Que pena.”

Rejuvenescido por beber na fonte de inspiração de sua juventude antes de chegar a Davos, Guedes não deu bola no Fórum para um assunto que preocupa cada vez mais os ricos e as grandes empresas: a concentração de renda. E não é por bom coração que existe tal preocupação.

“Está ficando claro que a desigualdade ameaça o futuro e os negócios das corporações. Para estas, hoje é indispensável atenuar as desigualdades, pois precisam de consumidores e a melhor forma de alcançá-los é ampliando o mercado”, diz o economista Paulo Feldman, da USP. “Concentração de renda na mão de poucos significa em primeiro lugar diminuição do número de consumidores.”

A concentração de renda pelo mundo nunca foi tão grande, conforme o “Relatório Social Mundial 2020 das Nações Unidas: Desigualdade num Mundo que Muda Rapidamente”, lançado em Nova York dia 21 pela ONU. Uma herança que o economista brasileiro Alfredo Saad Filho, professor na Universidade de Londres, atribui a quatro décadas de hegemonia neoliberal.

A experiência inaugural do neoliberalismo foi no Chile, com a ditadura Pinochet surgida em 1973 após um golpe no presidente socialista Salvador Allende. Milton Friedman, o da Sociedade Mont Pelerin, era a bússola econômica pinochetista. Vários de seus Chicago Boys passaram por lá. Inclusive Guedes. O ministro foi pesquisador da Faculdade de Negócios da Universidade do Chile.

Diante de tudo isso, não é difícil entender por que a política econômica de Guedes e o governo Bolsonaro fazem o oposto daquilo que a ONU, em seu relatório social, recomenda contra as desigualdades e a concentração de renda.

O organismo defende acesso universal à educação de qualidade, investimento no mercado de trabalho e apoio a novas formas de representação sindical, para dar voz aos trabalhadores donos de empregos informais e precários. Aqui o governo segura a verba da educação, quer dar mais espaço a instituições privadas (que cobram mensalidade), sabota os sindicatos, incentiva o trabalho precário.

A ONU propõe mais proteção social, aposentadorias melhores. Aqui a reforma da Previdência dificulta o acesso dos brasileiros ao INSS.

As Nações Unidas sugerem combater o preconceito e a discriminação de grupos já desfavorecidos. Aqui Bolsonaro ataca negros, mulheres, gays, indígenas.

A Sociedade Mont Pelerin só tem a agradecer a Paulo Guedes e ao ex-capitão.

André Barrocal
Repórter especial de CartaCapital em Brasília

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