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Alta voltagem

O mercado de carros elétricos cresce 50% anualmente e atrai bilionários investimentos estrangeiros

Pioneiras. A GWM comprou uma planta industrial da Mercedes-Benz no município paulista de Iracemápolis. Já a concorrente BYD assumiu as instalações da Ford em Camaçari, na Bahia, e pretende produzir 150 mil unidades até o fim de 2014 – Imagem: GWM Global e BYD
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Ao término do primeiro ano de um governo que tem como bandeira promover a reindustrialização nacional em bases ecológicas e sustentáveis, os produtores de veículos elétricos poderão comemorar a marca de 200 mil unidades rodando pelas ruas e estradas brasileiras. O resultado é avaliado pelos dirigentes do setor como a confirmação de que a eletromobilidade tem no País um amplo espaço para crescer, mas ainda há grande expectativa quanto à efetivação de ações de inovação voltadas à indústria automotiva.

O crescimento da frota elétrica no Brasil suscita também discussões sobre os riscos ambientais inerentes à extração de lítio e outros minerais utilizados para a fabricação de baterias. No fim, essa exploração compensa o ganho em termos de redução de gases de efeito estufa trazidos pelos motores elétricos? Há dúvidas ainda sobre a duração dessa tecnologia: veio para ficar ou servirá somente para um período de transição, uma vez que outras novidades, a exemplo dos carros movidos a hidrogênio, não param de surgir?

Enquanto cientistas e ambientalistas travam esse debate, os fabricantes esfregam as mãos, de olho no enorme potencial de um mercado em franca ascensão. De acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico, conhecida pela sigla ABVE, o número de veículos eletrificados leves emplacados e em circulação no País chegou a 204.091 unidades no fim de novembro. Além disso, foi estabelecido no mês passado o maior número de registros mensais (10.605) desde 2012, quando houve o primeiro emplacamento de um carro elétrico no País.

Também foram registrados pela primeira vez, em novembro, mais de 10 mil emplacamentos em um único mês. “O setor sustenta um crescimento acima de 50% a cada ano. Acreditamos que, mesmo com algumas medidas não muito positivas vindas do governo, como o aumento do imposto de importação, é um mercado que deve continuar crescendo”, avalia Ricardo Bastos, presidente da ABVE.

Com fábricas instaladas no País, as chinesas GWM e BYD iniciam a produção a partir do próximo ano

Último mês com os dados do mercado consolidados, outubro de 2023 apresentou um salto de 4.460 para 8.458 no número de emplacamentos de veículos elétricos no Brasil, na comparação com o mesmo período no ano passado. Contabilizados os números até o fim de novembro, já foram emplacados este ano 77.652 veículos, e a expectativa é de que as vendas mensais sejam ainda melhores em dezembro, o que fará o recorde se aproximar dos 90 mil emplacamentos. É quase o dobro da venda total em 2022 (49.245). Segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veí­culos Automotores, Fenabrave, a participação dos carros elétricos no mercado nacional atingirá os 5% até o fim do ano. “E os investimentos estão chegando, como os anunciados pela GWM e pela BYD. Além de outras montadoras que, com certeza, virão nos próximos meses”, antecipa Bastos.

O presidente da ABVE faz referência às duas fabricantes chinesas que estão investindo em unidades de produção no Brasil, passo importante para consolidar um setor que ainda depende em grande parte das importações. A gigante Great Wall Motor anunciou a ampliação e modernização de uma fábrica adquirida da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior paulista, com previsão de investimentos de 10 bilhões de reais nos próximos dez anos: “A meta é produzir totalmente no Brasil 100 mil unidades de veículos elétricos já em 2026”, diz Oswaldo Ramos, diretor-comercial da GWM. O primeiro carro elétrico nacional será, porém, produzido por outra gigante chinesa, a BYD, que adquiriu uma antiga fábrica da Ford em ­Camaçari, na Bahia, para iniciar a produção de dois modelos elétricos e um híbrido. A empresa anunciou a meta de atingir 150 mil unidades produzidas no País até o fim de 2024.

Em consonância com os anseios da montadora chinesa, o governo da Bahia apresentou um projeto que prevê a isenção de IPVA para carros elétricos com valor de até 300 mil reais emplacados no estado. Os governos de São Paulo e ­Pará também estudam medidas semelhantes e deverão integrar um grupo hoje formado por nove estados ­(Alagoas, ­Ceará, ­Maranhão, Mato ­Grosso do Sul, Minas ­Gerais, ­Paraná, ­Pernambuco, Rio de ­Janeiro e Rio ­Grande do Sul), além do ­Distrito ­Federal: “É importante a concessão de redução ou mesmo isenção do IPVA. Isso afeta a decisão de compra, atinge diretamente o bolso do consumidor. É um benefício que ajuda as vendas e as decisões de investimento no Brasil”, diz Bastos.

Alternativas. A eletrificação avança com a expansão das estações de recarga pelo País. Já o tradicional etanol brasileiro neutraliza todas as emissões de carbono – Imagem: Wenderson Araújo/Sistema CNA/Senar e iStockphoto

Autor de diversas leis que diminuem impostos sobre novos equipamentos e formas de produção sustentável, o ­deputado estadual Carlos Minc, do PSB do Rio, se diz “completamente favorável” aos incentivos para veículos elétricos. “Melhor ainda seria investir em transportes coletivos ou individuais sobre rodas, esses, sim, menos poluentes. Estamos falando de trens, metrô, barcas e também de ciclovias”, avalia. Sobre os riscos ambientais inerentes à extração de lítio, o ex-ministro do Meio Ambiente de Lula pondera: “Sempre que se coloca um problema há meios de mitigá-lo. Já estão sendo encontradas outras formas de bateria menos perigosas”.

Celulares e computadores também possuem metais pesados, como cádmio, zinco e ferro, mas é possível encontrar soluções sustentáveis, observa Minc. “Defendemos que isso seja retornado às indústrias para reaproveitamento ou disposição final adequada. Há que se trabalhar da maneira mais segura e consciente, combatendo o aquecimento global, a poluição e a contaminação do solo, do ar e do ambiente.”

O ex-ministro avalia que a solução elétrica “veio para ficar pelo menos por um bom tempo”. Novas tecnologias sempre vão aparecer, mas a dos veículos elétricos está amadurecida, pois foi testada em vários países. “Vários prédios novos já estão colocando tomadas para a recarga de baterias, postos de combustíveis também.” O badalado hidrogênio verde, emenda Minc, é uma ideia para o futuro: “No Brasil, temos apenas projetos piloto e isso ainda deve demorar bastante para ganhar corpo.”

Em novembro, o número de veículos elétricos bateu a marca de 200 mil unidades no Brasil

Professor da Coppe-UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências, Edson Watanabe prevê um futuro com “máxima eletrificação” dos transportes. Ele avalia que a indústria de veículos elétricos vai ajudar na neoindustrialização do País, mas pondera: “Devería­mos aproveitar melhor o nosso etanol, para fazer uma transição mais suave da gasolina para o 100% elétrico”. Em todo caso, acrescenta, é inequívoca a contribuição da eletromobilidade para a redução dos gases de efeito estufa. Enquanto não surgirem tecnologias mais avançadas, claro. “A bateria de sal pode ser a saída para veículos urbanos, pois sua capacidade é um pouco menor. Para transporte de carga, ainda não temos uma boa solução. Pode ser que o hidrogênio seja uma saída, mas ainda é caro e a tecnologia da pilha a combustível precisa de mais desenvolvimento. Em resumo, temos várias opções, mas todas elétricas.”

Coordenador da Frente por Uma Nova Política Energética para o Brasil, ­Joílson Costa diz-se favorável ao desenvolvimento do setor: “A instalação de uma indústria que impulsione o maior uso dos veículos elétricos seria importante não apenas para a neoindustrialização do País, mas também para nos posicionar estrategicamente em um mercado que tende a se expandir no mundo todo”. Costa diz que o governo deve experimentar da forma mais ampla possível as alternativas que ajudem o Brasil a enfrentar a emergência climática: “No caso dos veículos elétricos, algumas soluções seriam a adoção de melhores práticas de extração e processamento dos minerais, maior e mais eficiente reciclagem dos mesmos e até mesmo um amplo incentivo ao transporte coletivo, em detrimento do individual”.

Segundo a ABVE, o setor espera ansiosamente pela aprovação e implementação do programa de Mobilidade Verde, agora rebatizado como Rota 2030. “Precisamos conhecer as novas regras de pesquisa, desenvolvimento e engenharia, os incentivos que estarão ligados à eficiência energética. Este talvez seja o capítulo mais importante para vermos mais decisões de investimento em veículos elétricos no Brasil acontecendo e o nosso mercado continuar nessa tendência de crescimento sustentável que vem apresentando nos últimos anos”, conclui Bastos. •

Publicado na edição n° 1289 de CartaCapital, em 13 de dezembro de 2023.

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