Aliança entre Skaf e Bolsonaro racha o empresariado paulista

Acumulam-se questionamentos quanto à condução da economia, considerada prejudicial à indústria, em especial aos segmentos de alta tecnologia

Politicagem. A Fiesp era o ponto de concentração do desfile do golpe.

Politicagem. A Fiesp era o ponto de concentração do desfile do golpe.

Economia

Fundamental à eleição de Bolsonaro, o empresariado não parece manter a mesma coesão de um ano atrás no apoio ao presidente que garantiu a contenção dos salários, a reforma da Previdência, a continuação da reforma trabalhista de Michel Temer e a redução dos juros básicos. A aprovação a essas medidas segue unânime, mas, em alguns segmentos, acumulam-se questionamentos quanto à condução da economia, considerada muito prejudicial à indústria, em especial aos seus segmentos de alta tecnologia, apontam dirigentes de entidades que concordaram em falar a esta revista desde que seus nomes não fossem mencionados.

Uma evidência da discórdia aflorou na terça-feira 21 com a publicação na Folha de S.Paulo do artigo intitulado “Morte Anunciada – Como compactuar com o uso partidário da Fiesp?”, assinado pelos empresários Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski, integrantes dos conselhos de administração de três grandes companhias nacionais, Klabin, Natura&Co e Ultrapar. Sem citar nomes, a peça ataca o apoio deslavado do presidente da federação, Paulo Skaf, ao presidente da República Economia e a radical instrumentalização política da instituição. As três empresas estão entre aquelas de maior intensidade tecnológica no País, área desconsiderada pela política ultraliberal, desnacionalizante e vassala dos Estados Unidos conduzida por Bolsonaro e Paulo Guedes.

Os autores do manifesto criticam o “acelerado processo de destruição” da Fiesp, dizem-se avessos às próprias candidaturas a postos na entidade, presidida por Lafer Piva entre 1998 e 2004, e declaram apoio a “novos caminhos para a reforma da desgastada governança e a consequente mudança no sistema de representação da indústria paulista”, leia-se, darão suporte a uma eventual oposição à atual diretoria.

O parágrafo mais importante é uma crítica a aspectos centrais da política econômica vigente: “A indústria está perdendo espaço por razões que conhecemos. Parte sua responsabilidade, parte devido às transformações tecnológicas globais, parte por novos modelos de negócios. No Brasil, um desperdício de talentos e oportunidades, fruto de políticas erradas e falta de coragem na adoção de uma agenda de integração global – que nos colocou distantes da busca prioritária da produtividade. A isso se somam o recorrente desprezo com a pesquisa e com a inovação, e um descaso histórico com a educação, a cultura e a sustentabilidade”.

Apesar do histórico governismo da Fiesp, o chamego de seu presidente com o ex-capitão incomoda

O texto faz críticas que extrapolam as ações de Bolsonaro e Guedes e abrangem o ajuste fiscal iniciado no governo Dilma Rousseff, que prosseguiu com Temer, e a lei do teto de gastos. A área de inovação e tecnologia pagou um preço muito alto pela austeridade no momento em que há uma efervescência mundial em torno de novas tecnologias, acentua o dirigente de uma entidade. “Este é o ponto. A crítica à Fiesp deriva disso em grande medida e nesse contexto ela deveria ter uma posição muito mais incisiva.”

A publicação do texto, seguido de um editorial da Folha com críticas à motivação duvidosa da aproximação Skaf-Bolsonaro, intensificou conversas no prédio-sede da Avenida Paulista e em algumas entidades da categoria em torno dos problemas do setor, que remontam à crise da dívida externa e perda da terceira revolução industrial nos anos 1980, às décadas de juro alto e real valorizado a partir do governo FHC e ao aumento da abertura indiscriminada da economia desde Temer. O contra-ataque de Skaf surgiu em artigo publicado no mesmo jornal na quarta-feira 22, sob o título “Muito prazer, somos a Fiesp. Apoiamos Bolsonaro, que pôs o país no rumo certo”. A sua maior proeza é não mencionar em 700 e tantas palavras os gravíssimos problemas da indústria, o que provavelmente descontentaria o ex-capitão.

A crise ocorre pouco depois de Skaf anunciar uma grande festa para Bolsonaro na segunda-feira 3 na sede da Fiesp, incubadora do pato amarelo lançado em 2015 contra a CPMF e espécie de marco das manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Em setembro, soube-se que o Palácio do Planalto simpatiza com uma possível candidatura de Skaf à prefeitura de São Paulo. Três meses depois, o industrial sem indústria entrou de corpo e alma na criação do novo partido de Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil, cujo número, 38, homenageia o revólver de mesmo calibre.

Reação. Passos, Piva e Wongtschowski criticam o “acelerado processo de destruição” da Fiesp e se colocam na oposição à atual administração

O uso político da Fiesp é um problema antigo, mas o vínculo escancarado de Skaf a Bolsonaro é novidade no meio empresarial. A adesão aberta e incondicional fere a tradição de entidades como a Confederação Nacional da Indústria, entre outras, de abrir as portas a todos os candidatos no período das eleições presidenciais para a discussão dos seus programas de governo. Skaf tem o apoio de cerca de 60% dos sindicatos, o que lhe assegura maioria nas decisões da Fiesp. As entidades empresariais, principalmente a CNI e as federações, vivem de dinheiro repassado pelo governo e historicamente tendem a ser chapa-branca. Correm por fora os grandes sindicatos ou associações que têm lobby próprio e não dependem da intermediação da entidade para ter acesso ao governo, a exemplo da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

Enquanto o País cresce e vai bem, pondera um diretor sindical, ninguém reclama, mas, quando há problema e a situação da indústria em particular só piora, proliferam descontentamentos que, no setor, são recorrentes e deram origem ao Pensamento Nacional das Bases Empresariais em 1987, ao Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial em 1989 e, neste ano, segundo noticiou o Estado de S. Paulo, a um grupo de 11 entidades paulistas que abriu um canal direto com Guedes.

Subordinados a circunstâncias e a objetivos específicos, esses movimentos diferem em alcance e profundidade da iniciativa dos empresários que, 42 anos atrás, defenderam no histórico “Documento dos Oito” a democracia, a empresa nacional, o disciplinamento das companhias estrangeiras atuantes no Brasil, investimentos públicos, uma política salarial justa, gastos sociais e liberdade sindical para patrões e empregados, entre outros pontos. Assinaram o manifesto Antônio Ermírio de Moraes, Cláudio Bardella, Jorge Gerdau, José Mindlin, Laerte Setubal Filho, Paulo Vellinho, Paulo Villares e Severo Gomes, eleitos por seus pares em votação promovida pelo jornal Gazeta Mercantil. A iniciativa de 1978 fez parte da penosa retomada da oposição à ditadura instalada em 1964 e visava a participação dos empresários e da sociedade na redefinição dos rumos do País.

No ano passado, a indústria representou 11,11% do PIB, menor porcentual em 73 anos

Quando da publicação do “Documento dos Oito”, a participação da indústria no PIB ficou próxima de 26%, mas em 2019 fechou em meros 11,1%, a menor em 73 anos, compara o economista Paulo Morceiro. A indústria de alta e média/ alta tecnologia, produtora de máquinas, aviões, medicamentos, veículos e autopeças, entre outros itens, contribuiu com apenas 32% das vendas externas do setor de transformação em 2019, a menor participação desde 1995, segundo o Iedi. “Considero o manifesto ‘Morte anunciada’ importante porque é um grande erro imaginar que a política econômica do Guedes é favorável ao desenvolvimento. Nenhum lugar do mundo em que esse tipo de política liberalizante, de privatização de tudo, de fé exacerbada no mercado, deu resultados favoráveis ao desenvolvimento”, dispara Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo, presidente do Conselho Federal dos Economistas e integrante do Conselho Superior de Economia da Fiesp.

Outros tempos. Em plena ditadura, um manifesto empresarial pedia democracia e investimentos públicos. Assinaram Ermírio de Moraes, Bardella, Villares, Mindlin, Setubal e Gomes
Foto: Olga Vlahou

“As consequências foram trágicas, como mostra o exemplo do próprio Chile, até pouco tempo atrás citado como referência do liberalismo. Em todas as experiências bem-sucedidas do desenvolvimento, seja a dos países hoje considerados ricos, como Estados Unidos, Alemanha e Japão e mesmo a Coreia do Sul, mais recentemente, sempre houve uma combinação entre a força do mercado e a coordenação do Estado, inclusive com a criação de campeões nacionais, tão criticada no Brasil. Eles fizeram o contrário do que a equipe econômica do País faz.”

O exemplo mais recente de erro de política econômica é a abertura das compras governamentais aos estrangeiros, anunciada por Guedes em Davos. “Isso sempre foi estratégico para fomentar valor agregado local, geração de renda, emprego, pagamento de tributos. É uma grande incoerência a indústria ou seus representantes fazerem coro com a cantilena neoliberal de que isso vai ser favorável para o desenvolvimento”, avalia Lacerda. Alguns empresários, diz, percebem tratar-se de uma canoa furada, pois na verdade o crescimento que se obtém no Brasil, em primeiro lugar, é pífio. Em segundo lugar, a indústria não sai do lugar e o que aumenta são as atividades ligadas a serviços e consumo. “Há um processo forte de desnacionalização. As empresas consideradas top no Brasil, como a Embraer, acabam vendidas em razão desse quadro adverso”, sublinha o economista.

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Editor da revista CartaCapital

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