‘Aberração’: Ex-ministra critica redução do auxílio em meio à alta do desemprego e da inflação

Segundo Tereza Campello, a prioridade não pode ser a aprovação de 'gatilhos', mas garantir que a população se alimente e fique em casa

Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Economia,Política

A ex-ministra Tereza Campello, responsável pela pasta de Desenvolvimento Social e Combate à Fome durante o governo de Dilma Rousseff, criticou nesta sexta-feira 5 o texto da chamada PEC Emergencial, aprovado no Senado nesta semana e tido pelo governo de Jair Bolsonaro como indispensável para a concessão de uma nova rodada do auxílio emergencial.

Agora, o texto segue para a Câmara, onde também precisa ser avalizado em dois turnos por pelo menos 308 deputados.

 

 

 

“O que está sendo votado pelo Congresso não é a emergência de renda para a população. É outra coisa. O auxílio emergencial é uma cortina de fumaça para esconder todo esse processo nebuloso de destruição do Estado brasileiro”, afirmou Campello em entrevista ao programa Direto da Redação, transmitido pelo canal de CartaCapital no YouTube.

O texto da PEC Emergencial avalizado pelo Senado estabelece o custo máximo de 44 bilhões de reais para o novo auxílio emergencial, que estará fora do chamado teto de gastos. O benefício, no entanto, não chegará nem à metade dos 600 reais pagos no ano passado: o governo Bolsonaro deve enviar ao Congresso Nacional uma Medida Provisória propondo quatro parcelas do auxílio, com o valor de 250 reais cada.

A PEC traz uma série de “gatilhos” que serão acionados quando a relação entre as despesas obrigatórias sujeitas ao teto de gastos e as despesas totais da União superar 95%. Quando esse patamar for ultrapassado, o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Ministério Público terão de suspender os aumentos de salário para o funcionalismo, a realização de concursos públicos, a criação de despesas obrigatórias e o lançamento de linhas de financiamento ou renegociação de dívidas.

“A emergência hoje é aprovar gatilhos de despesa? Aprovar novas regras fiscais para os próximos dez anos? Não, a emergência seria garantir que a população se alimentasse e ficasse em casa, vacina, salvar as pequenas e microempresas que estão quebrando, garantir leitos… Nada disso a PEC garante”, criticou Campello.

Ela também destacou que não há justificativa plausível para a diminuição no valor do benefício. “Eram 600 reais. Por  que agora é menor, se a situação está pior? Se temos mais desempregados e se o valor das coisas aumentou? Arroz, feijão, óleo, tomate… “, acrescentou. “O que justificaria ser menos? É uma aberração o que está sendo discutido no Senado”.

Segundo a ex-ministra, o próprio teto de gastos é uma política econômica “burra, porque desconsidera o que pode acontecer com o País”. Campello argumenta que “um dos ensinamentos desta tragédia que estamos vivendo é esse: você não pode congelar gastos e continuar assim por vinte anos. É uma coisa demente. Foi isso o que o Brasil fez”.

Campello ainda fez um apelo aos empresários, que têm de “parar de continuar pedindo que abram a economia”.

“Eles não entenderam, depois de um ano, que se continuar abrindo, vai ficar esse abre-fecha? Abriram as escolas, agora vão ter de fechar de novo. Abrem os bares, fecham de novo. Eles [os empresários] têm de exigir vacina, recursos para a saúde, medidas efetivas. E não que abram o comércio para continuarmos nessa situação”.

Assista à íntegra da entrevista de Tereza Campello ao programa Direto da Redação, transmitido pelo canal de CartaCapital no YouTube:

 

 

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