Economia

Agropecuária

A trajetória da Fazenda Tozan

por Rui Daher publicado 01/03/2017 12h02, última modificação 01/03/2017 21h23
Exemplos como o da propriedade adquirida pelo fundador da Mitsubishi devem ser vistos com lupa e sem preconceito ideológico
Fazenda Tozan

Os atuais 830 hectares da fazenda são ocupados com café, soja, milho e bosques de árvores frutíferas

Muitos leitores identificaram a propriedade, próxima a Campinas/SP, visitada e mencionada na última coluna. De fato, é a Fazenda Tozan do Brasil ou Monte d’Este.

Desde 1798, quando a Fazenda Ponte Alta, sesmaria de 6.400 hectares, foi cedida à família Camargo Penteado para plantio de cana-de-açúcar, essas terras passaram por várias etapas até chegarem à conformação atual. A principal, em 1927, quando seus descendentes venderam a fazenda para Hisaya Iwasaki, fundador do Grupo Mitsubishi.

Daí em diante, desenvolveu-se com diversificação de plantios, inauguração da fase manufatureira (Indústria Agrícola Tozan, 1934), criação do Instituto de Treinamento Agrícola junto ao Centro de Pesquisa Agrícola de Campinas, até chegar aos 830 hectares atuais, ocupados com café, soja, milho e bosques de árvores frutíferas.

Tem história e muita. Durante a Revolução de 1932, acolheu tropas paulistas. Até hoje, fazem de uma marca de bala de fuzil no Mirante construído em arquitetura nipônica, atração turística.

O exemplo da Tozan é frequente em todo o país e para o que sempre peço atenção. Ao longo de séculos, houve uma repartição geracional e mercantil de terras, a partir da região sul, que seguiu como tendência a amenizar a gravidade de nossa concentração fundiária. Continuará e é um tema para ser visto do alto, com a lupa, e sem preconceito ideológico.

Das altitudes, para entender nosso mundo rural, há que se considerar extensão territorial, diversidade de biomas, forma de colonização, noviciado e, sobretudo, a exploração econômica nos séculos seguintes ao do descobrimento. Nada a ver, pois, comparar tal evolução com as formações rurais de países mundo afora, de idade e histórico diferentes.

O mesmo ao tropeçarmos em pedras do caminho industrialista e tecnológico no bojo de um capitalismo trôpego e tardio, que esperou, oportunidades perdeu, e hoje se vê, usando modelos já condenados, a correr atrás de um sistema econômico em declínio e de transição incerta em todo o planeta.

E com a lupa? Serezinhos quase microscópicos aparecerão mostrando-nos como se deram as relações sociais no campo, o capital com o trabalho, a casa-grande com a senzala, situações específicas, desreguladas, malvistas no passado e criminosas em sua inércia de hoje. Assim se fez a agropecuária expandir em contraposição a homens, mulheres e recursos naturais próprios do meio rural.

Faço um parêntesis. Há farta e preciosa bibliografia sobre o tema. Curioso é a maior e mais profunda parte dela ter sido pesquisada, estudada e publicada até as décadas 1960/1970. De lá para cá, o setor rural passou por um longo período de relativização da parte de pesquisadores sociais na academia, dos governos pós-militares e, principalmente, das folhas e telas cotidianas. Foco, o frenesi globalizante e volumétrico.

Ô IBGE! Cadê o novo Censo Agropecuário?

Gigantismo e concentração

Durante pelo menos três décadas da segunda metade do século passado, fizeram sucesso executivos com ampla visão das intercorrências dos atores econômicos, políticos e sociais, que soubessem transformar tais percepções em estratégia das empresas.

Com a globalização, a chegada da internet e a predominância do ativismo financeiro sobre os setores produtivos, o mérito (?) foi transferido para quem se mimetizou em calculadoras. Robótica acoplada às baias dos escritórios.

Nos 40 anos trabalhando na cadeia dos agronegócios e 15 de colunismo sobre o tema, indução generalista trazida pela proximidade com as ciências sociais, faz-me esforçar para antecipar as tendências que acabarão por modificar as relações econômicas dentro do setor. Sempre a partir do que ouço e vejo em Andanças Capitais.

Para não me alongar, deixo que pensem como se deu a distribuição de insumos, a partir da potencialização da agricultura brasileira nos anos 1970. Os mais idosos na lida lembrarão; os jovens técnicos e agrônomos poderão pesquisar.

E hoje? Dou o informe e peço-lhes a reflexão. Conta o jornal Valor Econômico (18/02): “Para sobreviver nos disputados mercados agrícolas de Mato Grosso e Goiás, distribuidoras de insumos da região se organizam numa associação a AgriRede (...) o objetivo é ampliar os volumes movimentados e ganhar peso na disputa de preços com vendas diretas de multinacionais e cooperativas”.

E o futuro? Melhor não bobear, mas creio poderem tirar o “cavalo da chuva”. Mais um elo da cadeia que se vai na pergunta: “e o almoço, quem paga”?

Como ocorreu com os vendedores autônomos de adubos, as imensas redes de depósitos dos fabricantes nas regiões agrícolas para pronto atendimento ao plantio, assistentes técnicos e laboratórios para prestar serviços nas fazendas, financiamentos “no fio do bigode” com as exigências em casas bancárias, ao cabo e ao rabo, poucos sobrarão.

Tristes? Nem todos.