Economia

A Semana do Mercado: inflação e tensão na Europa estão no radar

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 24

Joe Biden e Vladimir Putin. Fotos: AFP
Joe Biden e Vladimir Putin. Fotos: AFP
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A última semana do mês é marcada pela reunião do Comitê de Política Monetária do Federal Reserve, na qual os mercados esperam que a taxa básica de juros norte-americana, a Fed Funds Rate, seja mantida em 0,25% ao ano, porém venha acompanhada de um comunicado “duro” e da sinalização do primeiro aumento para a reunião de março.

Outra sinalização deverá vir da divulgação da primeira prévia do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos no quarto trimestre de 2021. Dados sobre nível da atividade econômica também marcam a semana na Europa, que, no entanto, está mais preocupada com a tensão entre a Rússia e a Ucrânia, que afeta os preços de petróleo, gás, trigo e bônus em dólar, que os investidores buscam para proteção do patrimônio, afetando os papéis em euro.

Por aqui, as atenções voltam-se para a divulgação do primeiro IPCA-15 do ano, a prévia da inflação oficial ao consumidor, uma semana antes da primeira reunião do nosso Comitê de Política Monetária, o Copom.

Investidores, gestores e especuladores dão como certo que o Fed em breve fará a primeira elevação da taxa básica desde março de 2018, pois os dados da semana passada mostraram que a inflação dos Estados Unidos está avançando para perto dos seus maiores níveis em quase quarenta anos. Espera-se, também, que o presidente do Fed, Jerome Powell, indique o cronograma do fim do programa de estímulo da economia via compras de títulos privados a partir de março.

Os mercados já precificam quatro aumentos de juros de 0,25 de ponto percentual cada, em março, junho, setembro e outubro. Entretanto, o economista do banco de investimentos Goldman Sachs David Mericle escreveu que a disseminação da variante Ômicron está pressionando ainda mais uma inflação só vista nos anos 1980. Por isso, “vemos um risco de que o FOMC queira apertar ainda mais, a cada reunião, até o quadro inflacionário mudar”. Quanto ao fim escalonado do programa de estímulo à atividade econômica via compra de títulos privados, que já acumulou 9 trilhões de dólares no balanço do Fed desde o início da pandemia, Mericle espera que vá começar a partir da reunião de julho, e não março, como antecipa a maioria do mercado.

As expectativas de alta de juros e redução de liquidez nos mercados têm contribuído para aumentar a procura pelos títulos do Tesouro americano, em prejuízo das ações – sobretudo as do setor de tecnologia – e de outros ativos de risco – notadamente os criptoativos, como a bitcoin. Tanto que o índice S&P 500 e o Nasdaq, com forte participação de empresas do setor de tecnologia, registraram suas maiores quedas percentuais semanais desde o início da pandemia.

O S&P 500 caiu 1,89% na sexta, fechando a semana com queda de 5,68%, enquanto o Nasdaq perdeu 2,72%, acumulando queda de 7,55% na semana. O mercado de criptoativos viu seu valor de mercado “secar” algo como 130 bilhões de dólares de sábado para esta manhã, segundo informações do site da emissora CNBC.

O bitcoin chegou a ser negociado a 33.876 dólares, ou 3,83% de baixa sobre o valor de domingo, batendo o menor valor desde julho do ano passado. Ele já perdeu perdeu 51% da cotação recorde, 61 mil dólares, registrada em novembro. O segundo criptoativo dos mais 9 mil negociados pelo mundo, o ethereum, caiu 12%, para 2.218,37 dólares, seu nível mais baixo desde o final de julho, perdendo 53% de sua alta histórica, igualmente registrada em novembro de 2021.

Para alimentar ainda mais a aversão dos investidores a riscos, os Estados Unidos e o Reino Unido instruíram as famílias de seus diplomatas na Ucrânia a deixar o país, sugerindo que Washington e Londres receiam uma invasão russa no curto prazo. De imediato, uma invasão russa afetaria drasticamente os preços de petróleo e gás, dos quais os dois países são exportadores líderes no mundo.

O banco JPMorgan avalia que as tensões trazem o risco de um repique nos preços do óleo para 150 dólares por barril – que impactaria o PIB global com uma queda de 0,9% anualizada, neste primeiro semestre do ano, fazendo a inflação dobrar para 7,2%. Contudo, para alguns analistas, o problema para o governo do presidente Joe Biden é a inviabilidade de retaliar militarmente outra potência nuclear como Rússia – o que pode incentivar a China a invadir Formosa, aumentando as tensões geopolíticas. Não por acaso, Formosa denunciou nova incursão da Força Aérea China sobre águas do mar do Sul da China, que são disputadas por Pequim e Formosa. Na sequência, os Estados Unidos enviaram dois porta-aviões, oficialmente em missão de treinamento.

Os índices de ações europeus caíram todos. O FTSE da Bolsa de Londres fechou com baixa de 1,94%, enquanto o DAX da Alemanha caiu 3,04%, o CAC de Paris perdeu 3,48% e o STOXX 600, que agrupa ações da zona do Euro, fechou com baixa de 3,09%. Nos Estados Unidos, no meio da manhã, o Dow Jones da Bolsa de Nova York caia 1,77%, o S&P500 baixava 2,14% e a bolsa de tecnologia Nasdaq perdia 2,63%.

O Ibovespa da B3 seguiu o exterior – depois de ter se “descolado” do cenário internacional na semana passada. Na hora almoço, estava em queda de 1,10%, a 107.749 pontos.

Na frente interna, a semana traz uma penca de dados sobre inflação (quarta e sexta), emprego (Caged na quinta e PNAD na sexta), contas públicas e mercado de crédito (ambos na sexta). Destaque para a prévia oficial da inflação, o IPCA-15, que será divulgado pelo IBGE na quarta – uma semana antes da primeira reunião do Copom em 2022 (1º e 2 de fevereiro).

A expectativa é de que o índice suba 0,44% em janeiro, com desaceleração no acumulado em 12 meses, de 10,42% para 10,05%, segundo economistas da Federação Brasileira de Bancos, para os quais cessou o alívio da queda do preço dos combustíveis e das passagens aéreas, neste caso em função da descompressão após a alta típica das férias de fim de ano. O preço médio dos combustíveis voltou a subir nas refinarias e já pode impactar para cima o índice cheio de janeiro.

“No geral, o indicador deve seguir mostrando uma alta disseminada, reforçando a preocupação com o quadro inflacionário e validando uma nova elevação da taxa Selic em 1,5 pp (para 10,75% aa) na reunião de fevereiro”, assinalam. Já o IGP-M de janeiro, que será divulgado pela FGV na sexta 28, deve mostrar aceleração na margem, com alta esperada de 1,98% (ante 0,87% em dezembro), puxado pelo avanço do índice no atacado, diante da alta dos preços das commodities, especialmente do minério de ferro e da soja. Ainda assim, em 12 meses, o índice deve desacelerar para 17,13% (ante 17,78%).

Também na sexta 28, o Banco Central divulga a Nota de Operações de Crédito com os dados de dezembro. Segundo a Pesquisa da Febraban, a carteira total de crédito deve crescer 2,0% no mês, o 11º avanço mensal seguido. Com o resultado, a taxa de expansão da carteira deve voltar a acelerar e fechar 2021 com crescimento de 16%, o maior desde 2012 (16,4%). O expressivo resultado contraria a expectativa de desaceleração ante 2020, ano marcado pela adoção de uma série de medidas pelo BCB e pelo governo para irrigar a economia com crédito e mitigar os efeitos da pandemia.

O Orçamento Anual de 2022 sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro começou hoje a ser digerido pelos analistas e investidores quanto às perspectivas de o ano eleitoral ser caracterizado por gastos puramente eleitoreiros de um governo que é rejeitado por mais de 50% da população.

Já de cara chama atenção o reajuste de 1,7 bilhão de reais para funcionários públicos, além da manutenção dos 4,9 bilhões para o fundo eleitoral, conforme aprovado pelo Congresso no fim de dezembro. Bolsonaro vetou 3,184 bilhões do Orçamento de 2022, dos quais 1,823 bilhão de reais correspondem a emendas de comissão e 1,823 bilhão a despesas discricionárias, aquelas que ficam sob controle dos ministérios. O tamanho do corte é bem menor que o valor sugerido pelo Ministério da Economia, que pediu uma tesourada de 9 bilhões em despesas obrigatórias neste ano.

Pelos cálculos do time de Economia da XP, no orçamento aprovado, as despesas obrigatórias ficaram 16 bilhões de reais abaixo do necessário, então o veto deveria ter sido maior. “De qualquer forma, isso é algo que o Poder Executivo poderia ajustar durante a execução orçamentária ao longo do ano sem grandes dificuldades”, destaca a equipe de análise da casa.

William Salasar
Editor de Finanças em CartaCapital.

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