A Semana do Mercado: de volta ao normal, de olho no fiscal

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 18

O presidente da República, Jair Bolsonaro, acompanhado de ministros, entrega a MP do Auxílio Brasil ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente da República, Jair Bolsonaro, acompanhado de ministros, entrega a MP do Auxílio Brasil ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Foto: Marcos Corrêa/PR

Economia

Sem os diversos feriados, aqui e no exterior, que reduziram a liquidez nos mercados produzindo oscilações atípicas na semana passada, e sem indicadores mais relevantes, a atenção dos investidores concentra-se nesta semana no Congresso, em particular na PEC dos precatórios, na reforma do Imposto de Renda e no Auxílio Brasil. Trocando em miúdos, o que está em jogo é a integridade do teto de gastos, a principal âncora fiscal do governo. 

Analistas chamam a atenção para entrevista do ministro da Cidadania, João Roma, à TV Brasil. Roma anunciou que o Auxílio Brasil, programa substituto do Bolsa Família, deve beneficiar cerca de 17 milhões de famílias com em média 300 reais ao mês. Ambos os números superam o do programa atual, que atende 14,6 milhões de famílias, com pagamento mensal médio de 190 reais. 

Já a proposta da PEC dos Precatórios, que pode ser votada na Câmara ainda nesta semana, prevê a limitação do pagamento dos precatórios ao valor de 2016 (ano inicial da regra do teto) corrigido pela inflação e que o valor excedente entrará numa fila para ser pago nos próximos anos. Se passar no Plenário, a conta estimada em 89 bilhões de reais em 2022 cairia para cerca de 40 bilhões, abrindo espaço fiscal para o Auxílio Brasil.

“A apreensão do mercado é que a não aprovação da PEC leve o governo e/ou o Congresso a propor a prorrogação do benefício fora da regra do teto, fragilizando ainda mais a única âncora fiscal vigente. De toda forma, a PEC dos Precatórios também tem sofrido críticas, dado que reduziria a transparência da política fiscal ao criar um ‘orçamento paralelo’, com o saldo em aberto das dívidas judiciais”, ressalvam os economistas da Febraban, no boletim semanal da entidade.

O analista político Felipe Berenguer, da Levante Ideias de Investimento, vislumbra aí um claro cenário de estresse quanto à manutenção do teto e, por extensão, à manutenção também do próprio Paulo Guedes como ministro da Economia. Sem vida fácil no Congresso e pressionado a gastar mais em ano eleitoral, Guedes tem sido alvo de novos e reiterados rumores na Faria Lima de que estaria por um fio de entregar seu cargo. Segundo assessores ligados à equipe econômica, o limite do ministro seria a manutenção do teto de gastos. Sem ela, acredita-se que o Brasil sofreria graves consequências no campo inflacionário e fiscal, tornando inviável (inclusive do ponto de vista ideológico) sua permanência na Esplanada.

“Os mercados têm exigido mais prêmio de risco diante das incertezas, mas a postura do ministro da Economia evita projeções mais negativas”, assinala Berenguer em boletim da Levante. “Com um IPCA acumulado em 12 meses acima dos 10%, a expectativa do Ministério da Economia é de desaceleração do índice já neste fim de ano, assim como endereçamento da PEC dos Precatórios (que deve ser aprovada ainda nesta semana na Câmara) e da reforma do Imposto de Renda. A partir dessas vitórias, seria possível engrossar o programa Bolsa Família e ainda garantir a continuidade da maior âncora fiscal brasileira.”

No Banco Central, essa preocupação é nula. Seu diretor de Política Monetária, Fábio Kanczuk, em reunião com investidores na semana passada, traçou um quadro da trajetória futura da política monetária no Brasil. A elasticidade da resposta do BC a decisões do Federal Reserve, afirmou, é maior que 1. Ou seja, um aumento de um ponto de porcentagem nas Fed Funds, a taxa básica de juros nos Estados Unidos, deverá gerar um aumento maior que 1 p.p na Selic. “Este é um ponto importante na medida em que na Ata da última reunião do comitê de política monetária do Fed, os diretores anunciaram que deverão começar a reduzir as compras de ativos no mercado no mês de novembro de 2021 e sinalizaram iniciar o processo de aumento da taxa de juros no final de 2022. O importante é que até lá a inflação no Brasil já tenha sido domada”, diz a Genial Investimentos.

A julgar pelo resultado da pesquisa semanal do BC entre economistas do mercado financeiro, divulgada hoje, vai demorar para a autoridade monetária domar a inflação. Pela 13ª semana seguida, a sondagem publicada no Boletim Focus mostrou expectativa de aumento da inflação em 2022, quando deverá encerrar o ano em 4,18% (4,17% na pesquisa da semana passada e 4,10% quatro semanas atrás), rumando firme para o teto da meta a ser perseguida pelo BC, que é de 4,75%. Para o final deste ano, a projeção subiu pela 28ª semana consecutiva, para 8,69% (há um mês estava em 8,35%) – bem acima do teto da meta, de 5,25%. 

Mesmo sem esperar aumento da Selic, usada pelo BC para “esfriar” a economia e, com isso, controlar a inflação, os economistas consultados reduziram a taxa de crescimento do PIB de 5,04% para 5,01% neste ano, e de 1,54% para 1,50% no próximo ano.

 

Entretanto, o BC injetou o equivalente a 1,2 bilhão de dólares no mercado de câmbio nesta segunda-feira após venda líquida de contratos de swap cambial tradicional, divididos entre um leilão extraordinário e um já previsto em calendário. Ainda assim, o dólar à vista mostrava forte alta de mais de 1,4%, que empurrava a cotação acima de 5,53 reais. O retorno do BC na semana passada com intervenções mais pesadas ocorreu num dia em que o real estava visivelmente descolado de seus pares, que operavam em alta na ocasião. Nesta segunda, as moedas emergentes recuavam, mas o real caía mais.

Enquanto isso, a bolsa, após uma semana atípica de altas no rastro dos mercados de ações globais, abriu em queda do Ibovespa, ainda seguindo a tendência mundial. O motivo foi a decepção com o PIB da China, que cresceu 4,9% de julho a setembro, menor do que a taxa de 5,1% esperada por analistas e com desaceleração ante a alta de 7,9% no segundo trimestre. À tarde, porém, o Índice Bovespa já estava praticamente estável, com alta de 0,10% aos 114.764 pontos.

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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