A Semana do Mercado: Banco Central deve acelerar ritmo de alta da Selic

Estimativas passam a ser de alta de 1,25 a 1,5 ponto percentual na reunião desta semana  

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Economia

Sob a tempestade que destelhou o teto de gastos, a reunião do Copom é o principal evento desta semana para o mercado financeiro, que espera do Banco Central um aumento no ritmo de alta na taxa básica da economia, a Selic.  É o que aponta o Boletim Focus, que semanalmente reúne as expectativas do mercado para os principais indicadores financeiros e econômicos.

A edição desta segunda-feira 25 sinaliza uma taxa Selic de 8,75% ao ano no fim de 2021 – uma semana atrás estava em 8,25% – o que implica em um aumento de 2,5 pontos percentuais nas duas reuniões do Copom que devem ser realizadas neste ano, sendo a próxima na terça e quarta-feira. De fato, o Boletim Focus revela uma piora substancial nas projeções de vários indicadores feitas pelas instituições, desencadeada pelo abandono por parte do governo do seu discurso em relação à responsabilidade fiscal e estabilidade das contas públicas. Semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu aplicar uma “licença” para ampliar o teto de gastos do governo e assim dar vazão à agenda social com vistas à eleição de 2022.

Para boa parte do mercado, o BC promoveria uma alta já nesta reunião de 1,25 p.p. a 1,5 pp.  Nos dois últimos encontros do Copom, a alta foi de 1 ponto percentual e desde que iniciou o ciclo de aperto monetário, em março, a Selic vinha subindo em 0,75 ponto percentual a cada reunião. “A percepção de perda da âncora fiscal deve levar ao aumento de riscos de inflação e, como consequência, as taxas de juros dispararam, indicando que o mercado espera uma resposta mais forte do Banco Central”, destaca relatório da XP Investimentos, uma das instituições que acreditam em alta de 1,5 ponto percentual nesta semana.  O analista da Toro Investimentos, João Vítor Freitas, explica que a questão principal para uma ação “mais efetiva” do BC é a perda de previsibilidade nos gastos com as mudanças propostas no teto dos gastos. “Isso mexeu com o mercado, provocou forte queda de Ibovespa e pressionou bastante o dólar e os juros negociados no mercado futuro”, avalia.

 

Já há algum tempo que a instabilidade política do País, a persistência da inflação em níveis elevados e o aumento dos riscos que impactam os preços dos ativos estão presentes nas estimativas do Focus. Desta vez, porém, a revisão das projeções apontando para um cenário mais pessimista é mais acentuada e generalizada. A estimativa para o dólar passou de 5,25 reais para 5,45 reais no fim de 2021, e a projeção para o IPCA encostou nos 9%, passando de 8,69% para 8,95%. O PIB, por sua vez, apresenta ligeira queda de 5,01% para 4,97%, quase estável porque as perspectivas com a retomada da economia agora no fim de ano seguem favoráveis. Para o ano vem, a história é um pouco diferente: queda de 1,5% para 1,4% no PIB; a Selic em 9,5% ao ano; o dólar em 5,45 reais e IPCA em 4,40%. Projeções para o final de 2022.

Para Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe do CNC e ex-diretor do BC, a autoridade monetária não deve mudar sua estratégia na condução da Selic por causa do recente estresse. Isso porque o “aumento dos juros futuros nos contratos DI já cumprem o papel de encarecer o crédito nos bancos”, e subir ainda mais a Selic só vai piorar ainda mais o quadro.  “O encarecimento do crédito naturalmente vai esfriar ainda mais a demanda e os investimentos, aumentando o risco de voltarmos a ter queda na atividade”, diz. Thadeu de Freitas defende também que o BC lance mão de outros instrumentos para não punir demais a economia no ano que vem, tanto famílias quanto empresas. Um deles é a revisão das metas de inflação, trabalhando com expectativas mais críveis de serem cumpridas, e o outro é a “atuação mais forte no mercado de câmbio à vista por meio de leilões já que o País dispõe de volume elevado de reservas que podem ser utilizados nessas operações.”

Mercado acionário

Nesta semana, começa no Brasil a safra de divulgação de balanços do terceiro trimestre de 2021. De acordo com João Vítor, da Toro, caso as empresas mostrem resultados  positivos no período, a Bolsa tende a ser favorecida, com alta do Índice, minimizando as perdas das últimas semanas. No cenário externo, os mercados devem seguir monitorando perto dados do PIB do terceiro trimestre dos EUA e o núcleo do deflator do consumo de setembro, para avaliar se o banco central norte americano vai mudar sua comunicação para sinalizar um aumento antecipado das taxas de juros.

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Repórter de Finanças da edição impressa de CartaCapital.

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