Economia

A Semana do Mercado: Ata do Fomc e IPCA-15 movimentam as bolsas

A ligeira retração dos preços dos combustíveis e commodities, somada à mudança da bandeira tarifária de energia , animam os agentes do mercado a antever certa desaceleração da alta de preços

Foto: iStock
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Sem indicadores e/ou eventos de maior relevância programados para a semana – exceto pelo Forum Econômico Mundial, em Davos – a inflação, tanto lá fora como aqui, permanece no foco dos mercados, particularmente em relação a novos sinais de arrocho monetário. A inflação, aliás, é um dos temas principais em Davos, que reunirá durante a semana 50 chefes de estado, lideranças empresariais e dirigentes de entidades multilaterais, como a presidente do Banco Central Europeu Christine Lagarde, e a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva. 

Lagarde praticamente antecipou aumento de meio ponto nas principais taxas de juros do BCE, ao publicar hoje um post em blog dizendo ser “muito provável” que o banco encerre sua política de taxas negativas até o final do terceiro trimestre. Também deu a entender que o Banco Central Europeu anunciaria em sua reunião de junho o fim das compras líquidas de ativos a partir do início de julho, seguindo os passos do Fed. O post de Lagarde impulsionou o euro para seu maior nível das últimas três semanas, derrubando o dólar nas praças de câmbio internacionais, quando os EUA pareciam ser a única grande economia avançada a apertar a política monetária.

Com a declaração de Lagarde, redobram-se as atenções se voltam para a publicação da Ata da reunião do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) realizada no início do mês, que marcou o início de uma aceleração do ritmo de alta da taxa básica de juros norte-americana, com um aumento de 0,5 ponto percentual.

“A ata do Fomc deve mostrar um debate em torno das taxas neutras e se a autoridade deve ou não mover os juros para território restritivo”, assinala o Bank Of America em boletim. Na semana passada, o presidente do Federal Reserve (Fed) falou dm promover um “pouso suave” da economia, ou seja, debelar a maior inflação em mais de 40 anos sem provocar uma recessão. Só que os mercados não parecem muito convencidos disso enquanto se multiplicam os indícios de recessão com inflação, ou estagflação.

Economistas do banco de investimentos Goldman Sachs previram 35% de chance de a economia norte-americana entrar em uma recessão nos próximos dois anos, enquanto os analistas do Wells Fargo esperam uma leve recessão nos EUA ao final de 2022 e início de 2023. Os temores quanto a uma possível recessão econômica refletiram-se em perdas para os três índices acionários norte-americanos. Na semana, o S&P500 acumulou queda de -3,05%, encerrando a sexta-feira cotado em 3.901 pontos.

Daí a atenção nesta semana se voltar para a divulgação, na sexta-feira, para o indicador de inflação preferido do Fed, o Personal Consumption Expenditures (PCE – ou despesas pessoais de consumo), que veio de uma deflação (diminuição da alta de preços) de -0,9% em dezembro, para uma aceleração sustentada de 2,0% em janeiro; 0,6% em fevereiro; 1,2% em março, e 0,3% em abril, acumulando uma variação de 8,3% em 12 meses, a maior desde 1981. 

Já nos mercados nacionais as atenções se voltam, amanhã mesmo, para a prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) – que é semelhante ao ao IPCA usado pelo BC para balizar as metas de inflação, mas com um prazo de apuração diferente, entre o dia 16 do mês anterior e o dia 15. Ou seja, a variação dos preços entre 16 de abril e 15 de maio.

Analistas e investidores esperam uma desaceleração desse indicador. A ligeira retração dos preços dos combustíveis e commodities, somada à mudança da bandeira tarifária de energia elétrica, de escassez hídrica para verde, animam os agentes do mercado a antever uma certa desaceleração da alta de preços. O Itaú acredita em uma alta mensal de 0,42% para o IPCA-15, levando a taxa anual para 12,01%, uma leve desaceleração em relação a abril, quando o acumulado de 12 meses estava em 12,03%. O Bradesco, entretanto, aposta em alta de 0,46% para o IPCA-15 dada a pressão de preços de alimentos e remédios. 

De toda forma, ante os juros básicos de 12,75% a.a., a expectativa de operadores, investidores, gestores e analistas é ter pistas a eficácia da agressiva política monetária do Banco Central 

Neste cenário, ganha holofotes a votação programada para amanhã de projeto que desonera tarifas de energia e impõe alíquota máxima de 17% para o ICMS – tributo cobrado pelos governos estaduais – , segundo o presidente da Câmara, Arthur Lira. Se for aprovado, o projeto pode reduzir a inflação em até 1,2 ponto percentual ainda neste ano, de 9,8% para 8,6%, calcula o banco Credit Suisse, em relatório. Além disso, os mercados também estão de olho no reajuste do funcionalismo, dado que uma lei nesse sentido promovida pelo Executivo precisa ser aprovada até o fim de junho, pelos critérios da Lei de Responsabilidade Fiscal (LFR), por se tratar de ano eleitoral. Enquanto isso, prossegue a greve dos servidores do Banco Central, privando agentes e analistas da compilação de projeções divulgadas toda segunda-feira no Relatório Focus. 

Apesar do comportamento negativo dos preços dos ativos financeiros no exterior, a semana foi positiva para os preços dos ativos financeiros no Brasil. O real se valorizou frente ao dólar, o Ibovespa fechou em alta e as taxas de juros em queda. Para os analistas da Genial Investimentos, a principal razão para esse comportamento veio do cenário internacional, com o arrefecimento da pandemia na China e consequente afrouxamento das medidas de lockdown e de restrição à mobilidade urbana em Xangai, a maior cidade e o maior centro industrial do país, mais a decisão do Banco Central da China de reduzir a taxa de juros de referência de 4,60% para 4,45% ao ano, em reação à forte desaceleração da economia. O cenário se mantinha o mesmo nesta manhã, com a bolsa em alta (+ 1,01% a 109.586 pontos), dólar em baixa (-2,30% a 4,80 reais) e os juros de mercado estáveis. 

William Salasar
Editor de Finanças em CartaCapital.

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