A Semana do Mercado #29 – Apertem os cintos: turbulência extra no fim do mês

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 27

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Economia

Como sempre, a última semana do mês é marcada por uma enxurrada de dados — crédito, emprego, inflação, contas públicas e outros. Esta terá ainda a Ata do Copom e relatório de inflação do Banco Central, pouco depois dos mercados terem sido surpreendidos pela prévia oficial da inflação, o IPCA-15, divulgada na sexta passada, e que evidenciou um horizonte tempestuoso.

Também na sexta, no escurinho dos mercados já fechados, foram anunciados leilões extras de swap cambial, toda segunda e quarta-feira, até o final do ano. Isso é normal, porque o mercado de câmbio costuma ficar mais nervoso e agitado no fim de ano. A novidade é ter antecipado os leilões cambiais de novembro para este fim de mês.

“É uma tentativa de conter as novas pressões inflacionárias, agindo no mercado de câmbio ao invés de ter que subir mais de 1 ponto a próxima Selic”, avalia a diretora da corretora de câmbio GetMoney, Vanessa Blum Colloca, observando que investidores, gestores, agentes buscam a moeda americana como refúgio ante as incertezas institucionais e políticas do Brasil.

Mesmo sob um panorama nada alentador, o índice Bovespa, o principal da bolsa brasileira, subia ligeiramente nesta segunda

Para as economistas Fernanda Consorte e Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, especializado em câmbio, há pouco espaço para uma apreciação muito significativa em nossa taxa de câmbio. Em relatório divulgado a clientes na semana passada, a dupla traçou quatro diferentes cenários a partir do patamar médio atual, de 5,30 reais por dólar.

O mais benigno, com a pandemia controlada, uma terceira via de peso e possibilidade real de ganho nas eleições em 2022 e cenário externo sem grandes contratempos, inclusive quanto à política monetária dos Estados Unidos, a taxa de câmbio poderia retornar para 4,70 reais por dólar, a 5,10 reais.

Num cenário 2, mais realista, com ambiente político interno polarizado e incerto, Congresso congelado até outubro, comprometendo a recuperação econômica, mas sem problemas no front externo e com pandemia controlada, as economistas do Ourinvest projetam um câmbio entre 5,30 e 5,70 reais.

Se o cenário interno piora, com quedas de braço constantes entre Legislativo e Executivo, o governo recorrendo a mais e mais medidas populistas e aumentos de gastos em troca de votos, trazendo choque de confiança dos agentes econômicos, mais inflação, mais juros, crescimento anêmico, o dólar iria para 6,00 – 6,30 reais.

No quarto e pior cenário, em que a pandemia sai do controle aqui e no mundo, provocando aversão generalizada a riscos, e o ambiente político interno como no cenário anterior, o quase caos levaria o câmbio para 6,50 reais.

Os economistas de sempre consultados semanalmente pelo Banco Central apontavam para um dólar negociado em 5,20 reais ao fim deste ano, e a 5,24 reais em dezembro de 2022, mais próximos dos cenários realistas do Ourinvest. No mercado à vista de dólar comercial, as cotações desta manhã acusavam alta de 0,24% a 5,357, após abrir a 5,3209. Ou seja, o primeiro leilão extraordinário de 14 mil contratos de swap cambial das 10h30 não segurou a taxa de câmbio, avaliou Vanessa Colloca, da GetMoney. O swap cambial é uma operação em o investidor que contrata a troca ou permuta (swap, em inglês) toda a rentabilidade de seu investimento pela variação da taxa de câmbio. Simplificando tem efeito parecido com a venda de dólares pelo BC no mercado à vista, só que, neste caso, o BC não põe a mão nas reservas internacionais.

A pressão do câmbio sobre a inflação se expressa, particularmente, na alta dos combustíveis, de 3% no IPCA-15 de setembro, que registrou a maior variação  (de 1,14%) desde setembro de 1994. Sem falar nos demais itens cujos preços domésticos seguem as variações do mercado, notadamente alimentos importados.

Não é à toa, portanto, que o mercado financeiro volta a elevar suas projeções para a inflação este ano — pela 25ª semana consecutiva. Desta vez, a previsão subiu de 8,35% para 8,45%, segundo o mais recente relatório Focus. A estimativas do IPCA para 2022 também foram revisadas para cima de 4,10% para alta de 4,12%. No ano, o IPCA-15 acumula alta de 7,02%, e nos últimos 12 meses já ultrapassa os dois dígitos (10,05%).

Diante da forte pressão inflacionária, os economistas consultados pela autoridade monetária seguem enxergando a taxa básica de juros encerrando este ano em patamares mais elevados do que os estimados no início do ano. Após alta de um ponto percentual na Selic na última semana, para 6,25% ao ano, a expectativa é de alta de mesma magnitude no encontro do Copom de outubro, levando os juros para 7,25% ao ano. Para dezembro, as projeções se mantiveram em Selic de 8,25% ao ano, subindo para 8,50% ao fim de 2022, também sem alterações.

Já com relação ao desempenho da atividade econômica brasileira, os economistas seguem estimando crescimento de 5,04% em 2021, o mesmo do levantamento anterior, mas reduziram, de 1,63% para 1,57%, as estimativas para a expansão do PIB em 2022.

Mesmo com este panorama nada alentador, o índice Bovespa, o principal da bolsa brasileira, subia ligeiramente nesta segunda. Por volta das 13h30, estavam em 113.776 pontos, com alta de 0,44%, em dia de franca volatilidade: abriu quase estável, caiu, zerou voltou a subir, sem uma direção clara. O mercado voltou a repercutir o noticiário ssobre a incorporadora chinesa Evergrande, cujas ações valorizaram 8,05% em Hong Kong apesar de não ter ainda se manifestado sobre o pagamento de US$ 83 bilhões em títulos que venciam na última quinta-feira, que não honrou e tem 30 dias para o fazer antes de os credores decretarem sua inadimplência.

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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