A semana do mercado #24 – À espera do oráculo de Jackson Hole

O editor de Finanças William Salasar apresenta as principais tendências da abertura dos mercados nesta segunda-feira 23

Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas

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Economia

O receio da variante Delta obrigou o Federal Reserve, o banco central norte-americano, a novamente fazer pela internet o seu tradicional simpósio de Jackson Hole, que seria ao vivo e a cores. O evento reúne de quinta a sábado os presidentes dos principais bancos centrais do mundo e, por isso, é acompanhado vigilantemente pelos mercados em busca de sinais que indiquem novos rumos da política monetária global.

 

 

Foi lá que, no ano passado, o presidente do Fed, Jerome Powell, apresentou uma alteração decisiva no regime de metas de inflação, sinalizando estar disposto a tolerar um nível de inflação maior no curto prazo, para atingir a meta de 2% apenas numa média, considerando um prazo maior do que o ano calendário.

“A mudança ocorre por reconhecer que a inflação não tem o padrão da década de 1970 e início dos 1980 de acelerar mês a mês, após um choque de demanda”, detalha a professora Julia Braga, da Universidade Federal Fluminense.  Segundo ela, apesar de a magnitude da inflação ter surpreendido neste ano, próxima a 4% em 12 meses, de acordo com o índice de despesas pessoais (PCE –  o indicador adotado para a meta de inflação dos EUA), o Fed ainda aposta que se trata de um aumento temporário de preços, ou reflação, adicionado a uma mudança forte de preços relativos de alguns itens, como os carros e semicondutores, e aumento de salários relativos de trabalhadores menos qualificados, devido aos gargalos advindos da reabertura da economia e as restrições impostas pela pandemia.

Evidência disso, diz Julia Braga, é que os aumentos de preços não têm sido repassados ao conjunto dos salários, que já contam com perdas de poder de compra. Logo, não há um processo geral de realimentação da inflação no mercado de trabalho.  Por isso, ela entende que o Fed pode manter sua taxa de juros básica no nível atual por um período relativamente longo. E, se decidir aumenta-la, ainda assim manterá um patamar baixo em termos históricos.

A importância do evento desta semana aumentou com a divulgação da última Ata do Comitê Federal do Mercado Aberto sobre a reunião de 27 e 28 julho, indicando que a maioria dos membros do Comitê prefere começar a reduzir o volume de compras de ativos (tapering) ainda neste ano. A expectativa é de que o discurso de Powell na abertura do evento traga indicações mais precisas sobre o início do tapering (fechar a torneira, em tradução livre): se começaria na próxima reunião de setembro ou no último trimestre do ano. Além disso, o discurso será importante para avaliar se a disseminação da variante Delta no país pode levar o Comitê a postergar seus planos de redução dos estímulos.

Aqui, entretanto, a semana reserva mais um adendo às incertezas em série que abalam os nervos dos gestores, operadores e investidores: o Supremo Tribunal Federal deve julgar, na quarta-feira, a Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pelo PSOL e pelo PT contra a lei que concedeu autonomia institucional ao Banco Central, seis meses atrás. Os dois partidos argumentam que houve um vício de origem na lei, já que o assunto seria prerrogativa do Poder Executivo, não do Poder Legislativo, autor do projeto aprovado. O procurador-geral da República, Augusto Aras, enviou ao STF um parecer favorável a parte da ação do PSOL e do PT.

O caso começou a ser analisado em junho, no plenário virtual da Corte. Na ocasião, foram computados dois votos: o do relator, Ricardo Lewandowski, pela derrubada da lei, e o do ministro Luís Roberto Barroso, que defende a manutenção da norma. Em seguida, o ministro Dias Toffoli pediu destaque – o que obriga a ação a ser discutida em sessão presencial.

Mas o que deve pegar mesmo é a votação do PL 2337, da reforma do Imposto de Renda. Ninguém sabe dizer sequer se haverá votação, diante do cabo de guerra de certos setores empresariais, corporações e govenadores que emperra a tramitação do projeto. “O que parece claro – alerta do boletim semanal da Federação Brasileira de Bancos – é que, diante da complexidade do cenário político, a janela para votação das reformas provavelmente vai se fechar em breve.”

Com a tensão política aumentando às vésperas do 7 de setembro, que rendeu, hoje, a exoneração de um comandante da PM de São Paulo, o  dólar ganhou força e voltou a superar 5,40 reais nesta segunda-feira, ficando em 5,38 reais após as 15h. A Bolsa, por sua vez, operava em baixa, com o Ibovespa registrando queda de 0,34%, em 117.654 pontos. No mercado de juros futuros, todos os vencimentos, de janeiro de 2022 a janeiro de 2027, estavam em alta de mais de 0,2 ponto percentual.

O Banco Ourinvest, em sua carta semanal, observou que todas as moedas de países emergentes sofreram desvalorização ao longo deste mês, por conta do avanço das novas variantes do coronavírus no mundo. “Contudo o real foi uma das moedas que mais perdeu valor. O agravamento do quadro político/fiscal aumenta a percepção de crise institucional e consequentemente piora nossa medida de risco país”, destacaram os analistas do Ourinvest.

 

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Editor de Finanças em CartaCapital.

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