A Prevent Senior e o desvalor da vida

Na prestação de serviços de saúde por empresas privadas, a rentabilidade financeira inexoravelmente comanda as decisões

A advogada Bruna Morato. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A advogada Bruna Morato. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Economia,Opinião,Política

O depoimento prestado na CPI da Covid pela advogada Bruna Morato desvelou a crueldade acomodada nos hospitais da Prevent Senior. Entre tantas barbaridades, sobressaem as ordens dos administradores do grupo que recomendavam a redução da oxigenação aos pacientes em agonia.

Bruna conta que “a pacientes internados em UTIs cuja internação ultrapassava 10 ou 14 dias, o procedimento indicado era a redução da oxigenação. Esses pacientes, segundo informações dos médicos, evoluíam para óbito na própria UTI, então você tinha uma liberação de leitos. A expressão que eu ouvi muito ser utilizada é: ‘óbito também é alta’.”

Em artigo anterior publicado na edição impressa da CartaCapital, tratei dos conflitos éticos envolvidos na prestação de serviços de saúde por empresas privadas. A rentabilidade financeira inexoravelmente comanda as decisões que definem a adoção ou não de procedimentos. Assim, a saúde e a vida dos cidadãos são submetidas a critérios de custo/benefício.

A longo prazo, a cura pode ser ruim para o desempenho das empresas de biotecnologia. Se a cura for rápida, vai faltar doente para receber a medicação

Em artigo publicado no Le Monde, Eloi Laurent trata dos economistas empenhados na análise custo-benefício. “Bons economistas sabem contar, ou seja, valorizar. Mas neste ano, como nenhum outro, pseudo-profissionais e verdadeiros amantes da economia estão contaminando o debate público com suas recomendações duvidosas (sobre confinamento, recuperação, vacinação), baseadas em sua maior parte ‘análises de custo-benefício’’.

Já relatei neste espaço que os analistas do Goldman Sachs tentaram abordar um assunto delicado para as empresas de biotecnologia, especialmente as envolvidas no tratamento pioneiro da “terapia genética”: as curas podem ser ruins para os negócios a longo prazo.

“Curar pacientes é um modelo de negócio sustentável?”, perguntam analistas em um relatório de 10 de abril de 2020 intitulado A Revolução do Genoma. “O potencial para entregar ‘curas com apenas uma injeção’ é um dos aspectos mais atraentes da terapia genética, terapia celular geneticamente modificada e edição de genes”.

Esses tratamentos, entretanto, “oferecem uma perspectiva muito diferente em relação à receita recorrente das terapias crônicas”, escreveu o analista Salveen Richter na nota aos clientes. Embora a proposta tenha ‘enorme valor’ para os pacientes e para a sociedade, ponderou ele, pode ‘representar um desafio’ para empresas que buscam um ‘fluxo de caixa sustentado’.

Essa avaliação das consequências “econômicas” da cura rápida possibilitada pelas terapias do genoma é boa oportunidade para um debate a respeito das relações entre a vida e os critérios de rentabilidade impostos pelo capitalismo.

A longo prazo, a cura pode ser ruim para o desempenho das empresas de biotecnologia. Se a cura for rápida. vai faltar doente para receber a medicação. É preciso, portanto, buscar terapias mais longas e doenças crônicas.

Vamos lá: “No caso de doenças infecciosas como a hepatite C, a cura de pacientes existentes também diminui o número de portadores capazes de transmitir o vírus para novos pacientes, assim o pool de incidentes também diminui … Quando o pool de incidentes permanece estável (por exemplo, no câncer) o potencial de cura representa menor risco para a sustentabilidade de uma franquia [empresa de biotecnologia].”

Os tratamentos do câncer, em geral mais longos, permitem a obtenção de resultados mais estáveis e previsíveis para as empresas, sobretudo porque a “oferta” de pacientes é mais regular e previsível, como parecem demonstrar as estatísticas de saúde.

A desumanidade dessas considerações não é mais desumana que a contraposição bolsonarista entre a economia e a saúde no combate à pandemia do coronavírus. As pessoas devem sair às ruas e se aglomerar para salvar a economia e os empregos porque o custo monetário do isolamento social é muito elevado.

Está aí o Teto de Gastos para impedir que governos desatinados salvem as vidas de hoje e, assim, sacrifiquem as vidas dos homens e mulheres que hão de nascer. Sendo assim, o auxílio emergencial e o socorro às pequenas e médias empresas deve ser minguado  e de curta duração.

Estamos diante da manifestação escancarada do processo de abstração real que opera nos subterrâneos das sociedades capitalistas e deforma suas superfícies.  Na verdade, diz o filósofo Roberto Finelli, a abstração real não se opõe ao mundo do concreto, não o força ou o obriga como força externa, mas o coloniza por dentro, o assimila às suas leis. A abstração real é um vetor da realidade nem visível nem tangível: tão invisível que, em sua construção da realidade, essa força subterrânea só pode produzir o esvaziamento real do concreto. Isso significa que, simultaneamente, produz e dissimula realidade.

 

Na interioridade da realidade, dominada pela abstração, pelo concreto naturalizado, o ser humano se perde, pois tudo se traduz em funções econômicas de produção e reprodução do abstrato. Mas essas funções econômicas do abstrato têm a face do concreto, que, em vez de ser aniquilado, como uma dialética do negativo gostaria, foi desvitalizado e esvaziado.

Ouço Slavoj Zizek: “A falta de liberdade mascarada pelo seu oposto manifesta-se em uma miríade de formas: quando somos privados da assistência à saúde, dizem-nos que nos oferecem a liberdade de escolha (do prestador de assistência à saúde).”

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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