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A hermenêutica do ornitorrinco

O capital financeiro, ao subordinar o valor presente da riqueza aos rendimentos, se conserva, se nega e se supera

A hermenêutica do ornitorrinco
A hermenêutica do ornitorrinco
Sob pressão cambial, o BC eleva a Selic Over, o custo de rolagem da dívida aumenta, o espaço fiscal se comprime e o investimento cai – Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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A Economia Capitalista Monetária da Produção só pode ser compreendida como um processo histórico, no qual produção, circulação e valorização se articulam desde o início sob a mediação do dinheiro. Não se trata, portanto, de uma teoria do valor tomada em sua forma pura ou abstrata, mas de relações inerentes e socialmente fetichizadas, nas quais a valorização do valor se impõe como princípio organizador da vida social.

Em O Capital, no Livro III, ao analisar o processo de nivelamento da taxa de lucro “sobre o qual repousa toda a produção capitalista”, Marx desloca o foco da concorrência entre capitais individuais para a mobilidade do capital enquanto totalidade social. A centralização do capital monetário e o desenvolvimento do sistema de crédito reduzem os custos de circulação, diminuem a necessidade de retenção de fundos ociosos e aceleram o processo de reprodução ampliada do capital. O crédito permite que a acumulação avance muito além das possibilidades de cada capital industrial isolado, ao mesmo tempo que generaliza a concorrência, intensifica a realização contraditória do valor e torna imanentes as crises de superprodução.

Marx apreende a gênese dessas formas ao expor o capital já constituído em suas determinações, ainda que sua exposição se inicie pela forma elementar da mercadoria. No capital a juros, o capital aparece como se buscasse a valorização a partir de sua própria circulação, parecendo negar seus fundamentos produtivos, mas trata-se de uma forma necessária de manifestação de relações reais transformadas. Essa forma suprema do capital expressa uma contradição efetiva: a valorização parece autonomizar-se, mas o faz apenas porque a socialização produtiva mediada pelo crédito amplia a escala do desenvolvimento das forças produtivas e torna o capital funcionalmente interdependente.

Concomitantemente, a separação entre capital enquanto propriedade e capital enquanto função faz com que toda remuneração apareça sob a forma de juro, que se impõe como critério geral de valorização do capital total. Assim, todas as formas de renda, inclusive os salários, tendem a aparecer como rendas capitalizadas, e a taxa de juros afirma-se como limite inferior da aplicação de qualquer capital, funcionando como taxa interna de retorno que orienta a avaliação de ativos e investimentos.

O capital financeiro assume, assim, importância teórica central. Ele redefine o cálculo capitalista ao subordinar o valor presente de toda riqueza aos rendimentos esperados descontados pela taxa de juros de mercado. Não se desloca o fundamento sistêmico da acumulação, mas o eixo de sua manifestação histórica, performando a taxa de juros como referência autorreferenciada da dinâmica contemporânea de valorização. Trata-se de um movimento que só pode ser compreendido com uma análise sistêmica, no sentido hegeliano da Aufhebung, no qual o capital se conserva, se nega e se supera a si mesmo.

O capital financeiro subordina toda riqueza aos rendimentos futuros descontados pela taxa de juros

Nesse movimento de financeirização da economia capitalista monetária da produção, o capital financeiro organiza o espaço global de acumulação, determinando fluxos, preços de ativos e hierarquias monetárias. A moeda e a dívida como ativo primordial não são neutras nem exógenas. A criação monetária ocorre como produção de liquidez mediada pelo crédito e por arranjos institucionais, não como simples “impressão de dinheiro”. A narrativa que reduz a política econômica à obsessão fiscal obscurece esse funcionamento real e subordina a ação do Estado às exigências de valorização financeira, comprimindo o espaço fiscal enquanto instrumento político.

O investimento não é função da poupança, mas das expectativas de lucro e da confiança quanto à realização futura do excedente. Essa lógica se projeta sobre a circulação internacional de capitais, movida por expectativas de rentabilidade financeira e segurança cambial. Em contextos de incerteza, o flight to quality provoca fuga de capitais das economias periféricas, e esse deslocamento repercute imediatamente sobre a curva de juros doméstica. A pressão cambial leva o Banco Central a elevar a Selic Over para conter a depreciação e ancorar expectativas. Eleva-se a curva curta, distorce-se a estrutura a termo e, com a marcação a mercado diante da fuga de capitais, empina também a ponta longa. O custo de rolagem da dívida pública aumenta e o espaço fiscal se comprime, afetando o investimento.

Como advertia o velho Mohr de ­Tréveris:

“A dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva, como um toque de varinha mágica, ela infunde força criadora no dinheiro improdutivo e o transforma, assim, em capital, sem que, para isso, tenha necessidade de se expor aos esforços e riscos inseparáveis da aplicação industrial e mesmo usurária. Na realidade, os credores do Estado não dão nada, pois a soma emprestada se converte em títulos da dívida, facilmente transferíveis, que, em suas mãos, continuam a funcionar como se fossem a mesma soma de dinheiro vivo (…) a dívida pública impulsionou as sociedades por ações, o comércio com papéis negociáveis de todos os tipos, a agiotagem, numa palavra: o jogo da Bolsa e a moderna bancocracia”. (Marx, 2013, p. 824)

Tratar política monetária e política fiscal como indissociáveis é um equívoco teórico e político. Essa separação repousa em modelos herdados da física newtoniana, da tradição walrasiana e dos equilíbrios gerais, incapazes de apreender o capitalismo como processo histórico e contraditório. No capitalismo monetário da produção, decisões monetárias e produtivas se determinam conjuntamente no espaço-tempo. A economia é um movimento social mediado pela moeda, pelo crédito e pela expectativa.

O risco de cooptação da acumulação social pela riqueza abstrata, que consome a vida e reduz as possibilidades econômicas para nossos netos, é evidente. Não por acaso, em 1930, um homem público ousou sonhar com o fim dessa lógica, chamavam-no de Maynard, assim tratado por respeito entre aqueles que ainda carregam valores humanistas. Cultivemos a humanidade dos primitivos que carregam consigo o maxilar inferior de seus mortos, como dizia Drummond. Ou, como diria Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A hermenêutica do ornitorrinco’

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