Economia
A fome das hienas
O preço do petróleo cai, mas o mercado contesta a redução dos juros com alarmismo inflacionário
Na última reunião, o Conselho de Política Monetária tomou uma rara decisão que desagradou ao sistema financeiro. Reduziu a Selic, taxa básica de juros, em raquítico 0,25 ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Foi o suficiente para a turma da Faria Lima, defensora de uma interrupção do ciclo de cortes, se descabelar, mesmo ante a perspectiva de que essa vontade venha a ser atendida pela autoridade monetária em agosto.
Segundo o economista André Luiz Passos Santos, sócio-diretor da BPCT Consultoria Econômica, o BC ressaltou o cenário externo de elevada incerteza, em decorrência da dúvida sobre o fim da guerra do Irã, com a consequente normalização do trânsito de petroleiros pelo Golfo Pérsico. Por isso leva em conta perspectivas tanto de aumento quanto de queda da inflação, fundadas principalmente na expectativa de redução ou de continuidade dos preços elevados do petróleo. “Acho justificável a cautela do BC ao promover um corte de 0,25 ponto porcentual e deixar em aberto a decisão da próxima reunião. O cenário dos preços de energia será decisivo para as próximas resoluções. Na reunião de agosto próximo, o Copom considerará, como é de seu mandato, a inflação projetada para seis semestres adiante como cenário relevante. O BC calcula que a inflação estará em torno de 3,4% ao ano no primeiro trimestre de 2028, o que a aproxima do centro da meta”, sublinha.
O Boletim Focus projeta alta dos preços na casa de 5,2% em 2026 e de 4,7% em 2027, acima do teto da meta de 4,5%, e por essa razão espera apenas mais um corte de 0,25 ponto porcentual até o fim do ano, fixando a Selic em 14%. O Boletim Focus, “como de hábito”, diz Santos, tem sido exageradamente pessimista, principalmente porque o preço do petróleo se reduziu de forma considerável desde o anúncio do cessar-fogo no Golfo Pérsico, e foi negociado na terça-feira 22 por pouco mais de 75 dólares o barril, queda de quase 40% em relação ao auge da guerra. “Principalmente por essa razão, minha expectativa de inflação para 2026 está pouco abaixo de 5%.”
A corrente dominante no mercado viu na decisão do Copom leniência no combate à inflação e mudança de regras do jogo. Para Santos, a impressão deriva de uma visão equivocada de que o BC tem sido brando no combate à inflação. A maior parte do mercado esperava o corte de 0,25 ponto porcentual anunciado, mas diversos analistas imaginavam que o comunicado indicasse o fim do ciclo de cortes. “Alguns mais radicais esperavam até a indicação de um viés de alta da Selic, devido à desancoragem das expectativas”, sublinha.
A Faria Lima esperava um sinal do BC de interrupção no corte da Selic
O aumento da defasagem entre as curvas curta e longa de juros, prossegue, tem elevado as exigências do mercado para a compra de títulos indexados à inflação, o que levou o BC a adiar uma oferta pública de NTN-B, as Notas do Tesouro Nacional indexadas à variação dos níveis de preços. “Mais uma vez, a redução dos preços do petróleo mostrará que esses agentes estão excessivamente pessimistas”, dispara Santos. O BC considera que a economia ainda aquecida prejudica os efeitos da política monetária. “O fato é que a economia tem se mostrado resiliente mesmo em cenários de política monetária restritiva. A meu ver, é hora de rever a questão da eficiência da elevação de juros no combate à inflação.”
A decisão, insiste, foi cautelosa e considera a possibilidade de dois movimentos opostos na variação da inflação, apontando riscos tanto de alta quanto de baixa dos níveis de preços em razão de uma recuperação ou de uma recessão internacional. Confirmando-se o fim da guerra no Irã, faz sentido o BC observar o mercado internacional de petróleo para informar a decisão do Copom de agosto. Na contramão do mercado, a BPCT Consultoria espera que a Selic chegue a 13,5% no fim de 2026, refletindo uma baixa considerável dos preços do petróleo.
Para o economista Saulo Abouchedid, professor da Facamp, o mercado interpretou que o Copom indicou estar aberto à possibilidade da continuidade da queda da Selic. Por essa abertura, o mercado se sentiu frustrado, pois as expectativas de inflação apontariam para uma revisão dessa trajetória. Essa interpretação está na origem das pressões do mercado sobre a curva de juros. “O mercado vai pressionando a parte longa da curva. Então é uma sinalização de que, se o Banco Central não controlar essa escalada inflacionária que se aproxima, segundo a sua interpretação, isso pode resultar em subidas de juros no futuro”, ressalta Abouchedid.
O mercado eleva a curva longa de juros, cabe acrescentar, precificando maior risco ou inflação futura. Os agentes do mercado fazem isso vendendo títulos prefixados e comprando contratos futuros, exigindo, dessa forma, taxas maiores para emprestar dinheiro ao governo no longo prazo. “Esse movimento cria uma pressão para a próxima reunião do Copom. O próprio teor da decisão foi uma forma de o BC testar um pouco o mercado, para ver se há espaço para a continuidade da queda da Selic.”
Trata-se de uma pressão política, acrescenta, pois não há justificativa para a taxa de juros estar no atual patamar. “O BC age corretamente em testar a sua relação com o mercado e espero que ele continue reduzindo a taxa de juros. Se examinarmos as raízes do processo inflacionário, veremos que elas não têm relação com o nível de demanda agregada, mas com as tensões geopolíticas e o preço das commodities, especialmente o preço do petróleo, que acaba pressionando os custos de preço-chave na economia.” As pressões que o mercado faz contra o BC, acrescenta Abouchedid, não têm fundamentação teórica e são explicadas por interesses do próprio mercado para que a curva de juros se comporte de acordo com aquilo previsto e traçado pelos principais atores. •
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A fome das hienas’
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