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A finança abarrota os plutocratas

Em todos os episódios históricos de estouro de bolhas, à derrocada deles seguiu-se a reiteração do poder trilionário

A finança abarrota os plutocratas
A finança abarrota os plutocratas
Ápices. Obama acusou os conservadores de submeter o Estado aos grupos privados. Roosevelt atacou os “príncipes” das novas dinastias econômicas – Imagem: Acervo Museu e Biblioteca FDR e Pablo Martinez Monsivais/AFP
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Nos idos de 2018, o ex-presidente democrata Barack Obama prestou homenagem a Nelson Mandela na celebração dos 100 anos de seu nascimento. O líder sul-africano nasceu em 1818 e faleceu em 2013. Obama fez um discurso digno dos melhores pronunciamentos de Franklin Delano ­Roosevelt. Discorreu sobre as transformações ocorridas nos últimos 40 anos na economia e na sociedade globalizadas.

“Praticamente em todos os países”, afirmou, “o poder econômico desproporcional dos que estão por cima lhes outorgou influência desmedida na vida política e na mídia, com capacidade para decidir as políticas prioritárias e os interesses que devem ser menosprezados (…) Nessa nova elite internacional, muitos se consideram progressistas, cosmopolitas e modernos.”

Obama acusou os conservadores de transformar o Estado num instrumento autoritário de enriquecimento e de dominação dos grandes grupos privados. Ele incluiu em seu cardápio de indignações cívicas o papel desempenhado pela mídia na interdição do debate público e na falsificação dos princípios que guiaram os Founding Fathers na constituição da democracia americana. Sobrou cacetada para a monopolização do Legislativo pelos endinheirados e para a espetacularização da política promovida pelos meios de comunicação.

Na convenção do Partido Democrata em 1936, às vésperas da primeira reeleição (ele ainda seria eleito mais duas vezes), Roosevelt pronunciou um discurso que hoje seria considerado populista e demagógico pela direita global.

Ele dizia que a moderna civilização, depois de demolir as velhas dinastias, erigiu outras. “Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital – nada disso sonhado pelos fundadores da pátria –, a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema americano de livre iniciativa e busca do lucro.”

Ficou exposta a fratura entre a “classe financeira” de Wall Street, as carências da indústria e os interesses da grande maioria da população, barbaramente maltratada pelo desemprego. No New Deal, o poder e o prestígio de Wall Street chegaram ao fundo do poço, como atestam as seguidas manifestações iradas contra a ganância dos banqueiros. Roosevelt atacou os “príncipes privilegiados” das novas dinastias econômicas. “Sedentas de poder, elas se lançaram ao controle do governo.”

Em 1840, um banqueiro de Yorkshire definiu com precisão ficticious capital, citado no Capital Livro III, de Karl Marx, o maior tratado sobre economia monetária financeira. “É impossível dizer qual parte delas provém de transações efetivas, por exemplo, de compras e vendas efetivas, e qual parte é artificialmente criada e consiste apenas em letras sem lastro, isto é, letras que se descontam para cobrir outra letra antes de seu vencimento e, assim, criar capital fictício por meio da emissão de simples meios de circulação.”

No New Deal, o poder de Wall Street despencou e a as ruas condenaram a ganância dos banqueiros

Os plutocratas entenderam a lógica da valorização em si mesma dos ativos, processo hoje alcunhado de “financeirização”. Cumpre registrar que no capitalismo de todos os tempos a finança é a forma “ por excelência” da acumulação da riqueza. A Valorização exponencial dos preços dos ativos está amparada na alavancagem financeira. Randal Wray observou: “Como os ricos obtêm a maior parte de sua renda de ativos financeiros em vez de salários, manter a demanda agregada nas plutonomias requer uma valorização contínua dos preços dos ativos. Bolhas domésticas atraem investimentos de plutocratas estrangeiros, elevando ainda mais os preços dos ativos das plutonomias”.

A sofisticação e proliferação de infinitas pirâmides da felicidade acalentam os sonhos de riqueza na sociedade de massa, mas, não raro, encontram o pesadelo da desvalorização da riqueza. O grande economista Hyman Minsky cunhou com rara precisão as finanças Ponzi. Um capitalismo governado pela gestão de dinheiro (Money Manager Capitalism).

Na plutonomia, ganhar dinheiro não decorre apenas de lucros e salários da chamada “economia real”, mas está ancorada na autovalorização da riqueza financeira. Esse sistema inverte a Lei de Lavoisier­, aqui tudo se cria, nada se transforma.

Lembremo-nos de episódios “diferentes, mas iguais”. Assim, desde a euforia dos anos 20 que culminou no crash da Bolsa de 1929 até as bolhas ponto.com nos anos 2000 e a reprodução do mesmo na crise subprime em 2008, onde os gestores de dinheiro empacotaram títulos hipotecários maquiados como se fossem de primeira e a criação credit default swap (CDS), até chegar ao nirvana da Inteligência Artificial.

Em todos esses episódios históricos de estouro de bolhas, à derrocada dos plutocratas seguiu-se a reiteração do poder trilionário e concentrado. Mais do mesmo.

Alerta Randal Wray: os 0,1% mais ricos dos americanos – um grupo de cerca de 135 mil domicílios – possuem ações que totalizam 13,7 trilhões de dólares. Isso é quase o dobro do 7,1 trilhões de dólares pertencentes aos 90% mais pobres dos americanos, um grupo de cerca de 115 milhões de domicílios.

O Bank of International Settlements publicou um estudo sobre os riscos financeiros abrigados no avanço da Inteligência Artificial:

“A opacidade do financiamento do setor de IA agrava as vulnerabilidades. Hyperscalers, fabricantes de chips e laboratórios de IA estão conectados por meio de uma complexa rede de arranjos privados. Mais proeminente é o financiamento circular: fabricantes de chips e ­hyperscalers assumem participações acionárias em laboratórios de IA ou provedores de neocloud, que por sua vez se comprometem com compras plurianuais de chips ou poder computacional. A construção de data centers é cada vez mais terceirizada para terceiros que arrendam instalações de volta para hiperescaladores em contratos de longo prazo com cláusulas de saída embutidas. Os termos desses acordos geralmente são pouco divulgados, com o risco de o mesmo ativo ser penhorado várias vezes. Juntos, tais arranjos representam uma fatia considerável do financiamento setorial e da receita futura.”

In God Money We Trust! •

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A finança abarrota os plutocratas’

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