A economia opera 30% abaixo do patamar de 7 anos atrás. E as perspectivas não são nada animadoras

O desemprego em alta e o auxílio emergencial reduzido freiam o consumo e empurram as famílias para a inadimplência

O ministro da Economia Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

O ministro da Economia Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

Economia

O choque entre a realidade econômica e as propostas do governo parece dar razão àqueles que consideram o discurso e a prática do ministro Paulo Guedes condizentes com um país imaginário. Guedes afirma que o Brasil ia bem até ser atingido pela pandemia, uma afronta aos dados objetivos, e tenta pegar carona em feito alheio, ou seja, do Congresso, dizendo que o Brasil “surpreendeu o mundo” em 2020 com a queda do PIB menor do que a esperada. Em vez de capitalizar o efeito positivo provocado pelo auxílio emergencial e outros desembolsos no ano passado repetindo-os em 2021, o ministro e sua equipe agiram como se a pandemia tivesse terminado em dezembro, enceraram os benefícios, demoraram três meses para definir um novo aporte, rebaixado e mais restrito, e insistem na restauração do teto de gastos. 

As consequências ampliam a crise em curso. “Passados sete anos, a economia opera quase 30% abaixo do patamar de 2013 e 2014. Isso é característico de uma depressão econômica. A mídia não gosta de falar nesses termos, nem o Banco Central, mas a verdade é que estamos vivendo uma depressão econômica no Brasil”, diagnostica o economista Paulo Gala, professor da FGV-SP. Entre várias evidências preocupantes, Gala destaca a “queda forte” do comércio, de 5% em março, segundo o indicador dessazonalizado calculado pelo Serasa, a principal referência de análises e informações para decisões de crédito. “Abril será devastador, a queda vai ser ainda maior, a situação começa a ficar muito parecida com o que aconteceu no ano passado, em março e abril”, prevê o economista. O indicador do Serasa inclui dados de vendas de 6 mil estabelecimentos entre supermercados, hipermercados, alimentos e bebidas, móveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, informática, combustíveis e lubrificantes, veículos, motos e peças, tecidos, vestuário, calçados e acessórios, materiais de construção. “Estão despencando as vendas de todos esses bens. Este e outros indicadores mostram que a economia está se dissolvendo, o avião não consegue levantar voo, está de novo caindo. O próprio Banco Central vê-se obrigado a mudar um pouco de ideia em relação à alta de juros. O mercado queria aumento de 1% na próxima reunião do Copom, mas o BC disse que subirá 0,75%”, sublinha Gala. 

 

Os responsáveis pela condução da economia continuam, entretanto, a agir como se participassem de um experimento laboratorial. Insistem na presunção de que a aberração mundial do teto de gastos constitucional estimula investimentos, mas não é o que mostra a realidade. O investimento voltado para a modernização e a ampliação das estruturas de companhias listadas na Bolsa, sem considerar a Petrobras, que por ter grande peso distorceria a amostra, caiu de 338 bilhões de reais em 2011 para 272 bilhões em 2019 e 153 bilhões no ano passado em valores deflacionados, calculou a consultoria Economatica.

Sinuca de bico. Em março, a venda de todos os bens despencou e a economia dissolve-se (Foto: Nelson Antoine/Folhapress)

A visão da economia como um experimento apartado da realidade não se restringe a Guedes. Ao contrário, parece generalizada entre os ortodoxos do País, sugerem algumas declarações de entrevistados no programa de tevê Painel WW, conduzido pelo jornalista William Waack, na edição intitulada “Vamos derrubar o teto?”, apresentada em setembro de 2019. “O teto de gastos está dando problema, mas ele foi construído para dar problema. Qual a estratégia? É explicitar o conflito distributivo”, admitiu o economista Samuel Pessôa, professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. “Existe muito a trabalhar na melhora do bem-estar social, reduzindo as despesas obrigatórias sem causar prejuízo à população mais pobre. Se em algum momento, infelizmente, tiver de causar prejuízo à população mais pobre, é a realidade, é o grau do desenvolvimento do Brasil”, assumiu o economista Marcos Mendes, professor do Insper.

O resultado da obstinação em subordinar a economia ao fundamentalismo liberal é um encadeamento de crises. A outra face do colapso do comércio e do investimento é o afundamento sem-fim do mercado de trabalho e o ressurgimento da fome em grande escala, tudo isso agravado pelo comportamento do governo em relação à pandemia. A queda recorde de oito meses do Indicador Antecedente de Emprego da FGV em 5,8 pontos em março aponta para o agravamento da deterioração do mercado de trabalho em curso desde 2015. A taxa de desocupação de 14,2% entre novembro e janeiro corresponde, segundo o IBGE, a 14,3 milhões de desempregados e a taxa de subutilização da força de trabalho, de 29%, equivale a 32,4 milhões de indivíduos, aumento de 22,7% ou de 6 milhões em relação ao período correspondente do ano anterior.

O governo Bolsonaro age contra as iniciativas de estados e municípios para restringir a circulação e reduzir as taxas de contaminação e defende que o melhor para a pandemia é liberar a economia, ideia sem sustentação na realidade. “O percurso do PIB do Brasil em 2020 reforça o consenso científico que beira a unanimidade, de que é a pandemia que deprime a economia, e não as iniciativas de saúde pública capazes de controlá-la. A contração da economia e da mobilidade voluntária precedeu ações de distanciamento social estritas, que chegaram atrasadas para controlar os vários picos da pandemia e, assim, criar condições para uma recuperação econômica sustentada”, defendem os economistas Pedro Paulo Zahluth Bastos, Gabriel Petrini e Lorena Salces Dourado, em nota técnica do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica do Instituto de Economia da Unicamp.

Fracassado tanto na condução da economia quanto no enfrentamento da pandemia, o País coleciona indicadores negativos. A indústria, que se mostrou resistente em 2020, perdeu dinamismo neste ano, com queda de 0,7% em fevereiro diante do mês anterior, segundo o IBGE. De acordo com a OCDE, o Brasil é a única grande economia em desaceleração, com declínio de 0,32 ponto porcentual em março em relação a fevereiro. Em 40 anos, caiu da 50ª colocação no ranking de PIB per capita para a 85ª posição entre 195 países, contabiliza o FMI. 

Publicado na edição nº 1153 de CartaCapital, em 15 de abril de 2021.

 

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Editor da revista CartaCapital

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