Economia
A contagem regressiva do Banco Central dos EUA
A redução dos estímulos não provocará cataclismo, mas certamente haverá problemas
Ao reduzir os estímulos monetários ao mercado, o FED (Federal Reserve, o Banco Central norte-americano) deu início a um movimento que, no âmbito das expectativas de mercado, pode equivaler a uma espécie de “bug do milênio”. Ou não.
Como se recorda, o bug se referia a problemas nos sistemas de computação na virada de 1999 para 2000 – porque, até então, utilizavam-se apenas dois algarismos para marcar o ano.
Faturou-se muito em cima dessa ameaça. E, quando o calendário virou, nada aconteceu de muito relevante.
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Em relação aos estímulos monetários ocorre algo bastante similar, mas não tanto. Não haverá o cataclismo previsto pelos videntes. Mas haverá problemas, sim, com países que apresentem contas externas desequilibradas.
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Como se recorda, esse movimento do FED consistiu em resgatar títulos do Tesouro no vencimento, injetando dólares na economia. Foram US$ 4,5 trilhões de a 2013 que derrubaram os juros internos para quase zero.
Os dólares entraram na Tesouraria dos bancos e, com a economia norte-americana estagnada, criou-se um empoçamento de liquidez. A busca de alternativas os levou aos países emergentes, inundando-os com dinheiro barato..
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A perspectiva de financiamento dos déficits externos leva governos ao acomodamento. A apreciação da moeda cria uma situação provisória de bem estar. Fecham-se os olhos para a perda de competitividade da produção interna, e para a criação de déficits crescentes nas contas externas, contando com a facilidade dos financiamentos externos.
O país experimentou dois momentos centrais de ilusão cambial: no final dos anos 70 e no Plano Real. Em ambos os casos, aumentou-se exponencialmente a dívida externa sob a alegação de que havia mudanças estruturais nos mercados internacionais, garantindo a rolagem permanente na dívida externa. Não garantia.
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Capitais têm mobilidade total. A inversão dos fluxos pode-se dar da noite para o dia. Já o reequilíbrio das contas externas, não. A redução da oferta de dólares provoca desvalorizações no câmbio, e, com elas, problemas com as empresas que se endividaram em dólares, choques de preços nas cadeias produtivas (que passaram a depender de mais importações), demora para os exportadores reagirem e dificuldades até a economia se ajustar ao novo quadro.
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Na semana passada, o FED resolveu manter, mas reduzir as injeções de liquidez: de US$ 75 bilhões para US$ 65 bilhões. Houve movimentos de aumento de taxas de juros dos principais emergentes. No caso brasileiro, o aumento da Selic está muito mais ligado à prevenção desse refluxo no financiamento externo do que nas metas de inflação, apesar das atas do Copom (Comitê de Política Monetária) ocultarem essa meta.
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Há duas contas feitas pelo mercado, uma tranquilizadora, outra, nem tanto.
A tranquilizadora é a relação reservas cambiais x necessidade de financiamento externo. Segundo levantamentos de André Pereira Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, ao Jornal GGN, essa relação é de15 dias na África do Sul, 4 meses na Argentina, 5 meses na Turquia, 8 meses na Coreia do Sul e 18 meses no Brasil.
Por essa ótica, a situação do país seria muito mais tranquila do que outros emergentes.
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Quando se analisa os fundamentos da economia brasileira, a tranquilidade é menor.
Em 2006 houve saldo positivo de US$ 13 bi nas contas externas. Depois, foi sendo corroído gradativamente até chegar a um déficit de US$ 54 bilhões em 2012. Em 2013 o déficit saltou para significativos US$ 81 bilhões.
Mais que isso, até 2012 a entrada de IED (Investimento Estrangeiro Direto) superava o déficit. No ano passado, entraram US$ 64 bilhões de IED – diferença de US$ 17 bi.
Para este ano, há a projeção de um déficit menor, em virtude de menor pressão da conta petróleo, mas ainda assim de significativos US$ 73 bilhões – contra uma previsão de IED de US$ 57,5 bi.
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No meio de um mar de falsos problemas levantados pela mídia, reside aí o problema central da economia brasileira. Aliás, dois problemas. Vinte anos de apreciação cambial praticamente desmantelaram a indústria de transformações brasileira.
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